Famílias de Victor e Lucas, mortos pela PM em Santo André (SP), se unem em ato por justiça

Em protesto, familiares dos dois jovens assassinados criticaram a violência e o racismo. ‘Até quando vamos chorar a morte dos nossos filhos?’, questionaram

Comunidade da Favela do Lamartine protesta contra a morte de Victor| Foto: Beatriz Drague Ramos/Ponte

As perdas de dois jovens negros, Victor dos Santos Lima, 22 anos, e Lucas Eduardo Martins dos Santos, 14, se encontraram neste domingo (21/3) durante um protesto em Santo André (Grande SP). As duas famílias foram unidas por mortes cometidas pela Polícia Militar.

A mais recente foi a de Victor, ajudante de pedreiro morto na noite de 13 de março pelo PM Bruno Palagano na favela do Lamartine. Ele viu dois policiais militares algemarem um vizinho e amigo de infância e temeu que pudesse ter o mesmo destino do de Lucas Eduardo: em 13 de novembro de 2019, o menino desapareceu após uma abordagem policial na Favela do Amor, localizada a 7 quilômetros da Favela do Lamartine, e foi encontrado morto, dois dias depois, em um braço da represa Billings.

“Vou levar ele para a represa”, um dos policiais teria dito, a respeito do amigo de Victor. Ele se atracou com o policial e conseguiu fazê-lo soltar o amigo, que fugiu, mas levou um tiro no peito e morreu. As mortes de Lucas, há dois anos, e de Victor, há uma semana, são parte do histórico de violências e ameaças da PM sobre as comunidades da região.

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A violência constante levou cerca de 50 pessoas a se reunirem na tarde quente deste domingo (21), por volta das 14h30, na praça do Lamartine. Familiares, vizinhos e militantes de movimentos sociais levaram cartazes em que era possível ler as frases “Justiça por Victor e Lucas” e “A favela pede paz”. 

As camisetas utilizadas pelos moradores da comunidade estavam estampadas com a foto de Victor na frente e tinham na parte das costas a letra da música de Mc Roger: “Por que se foi, irmão? Quanta saudade vai deixar aqui / Não entendi por que teve que partir / Será que Deus tá precisando de ti? / Se não tiver, devolve / Em forma de alegria, felicidade / Moleque bom, um irmão de verdade / Só de lembrar dói, quanta saudade”. A música tocou durante toda a homenagem que seguiu até a “praça dos prédios novos”, onde fizeram falas de protesto.

Paz na comunidade e o fim das ameaças são os pedidos que a viúva de Victor, Michele Pereira dos Santos, 21 anos, reivindicou na manifestação. “O que fizeram foi uma crueldade, destruíram a vida de um pai de família. Todo mundo aqui trabalha para ter seu pão de cada dia. Eles acabam com a comunidade desse jeito. Nós nos sentimos ameaçados”, disse a jovem, que tem uma filha de 3 anos com Victor, com quem tinha um relacionamento desde a adolescência. 

O grupo encheu bexigas brancas e fez uma oração em roda. Apesar de o protesto ser pacífico, cerca de 10 viaturas da PM desceram a rua Dominicanos, paralela à praça. As famílias ficaram tensas, mas em seguida os policiais foram embora. 

Na praça, a música “Sou humano”, da cantora gospel Bruna Carla também foi cantada pelos moradores, momento em que uma tia de Victor, Patrícia Aparecida dos Santos, se emocionou. “Os policiais estão aqui para defender, para proteger a população, não tirar a vida de um ser humano, tirar a vida de uma mãe e deixar uma família chorando. Estamos com medo agora que estamos lutando por justiça, não sabemos o que pode acontecer”, disse, chorando. “O que fizeram com ele foi desumano”.

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Para Marcelo Novaes, defensor público do Estado de São Paulo, também presente no ato, caso confirmadas as denúncias dos moradores, a reação que tiveram foi justa, uma vez que pode ter havido ilegalidade na abordagem policial. “Não existe legítima defesa contra agressão justa. Se for confirmado no curso do inquérito que os policiais, no momento da detenção do jovem com doença mental, ameaçaram “levá-lo pra a represa”, isto é, para matá-lo, então eles teriam cruzado a linha que divide o legal do ilegal e não poderiam invocar legítima defesa contra os populares. Portanto, toda a ação dos policiais passaria a ser ilegítima e o Victor teria o direito de intervir”, apontou.

A manifestação percorreu cerca de 100 metros na rua Dominicanos e foi organizada pela Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, que também presta assistência à família de Lucas, que tinha a mãe e a prima presentes no ato. 

Maria Marques, mãe de Lucas, fez questão de cobrar as autoridades. “Os policiais militares, junto com a Guarda Civil Municipal, se acham no direito de torturar, matar, forjar e incriminar jovens. Estamos cansados de tanta violência. Governador, cadê você? Cadê o seu papel? Tire esses policiais assassinos e genocidas da rua. Toda semana uma mãe chora de luto pelo seu filho, um filho chora pelo seu pai. A PM se acha no direito de entrar nas comunidades e sair matando os moradores, foi o que aconteceu com o meu Lucas e com o Victor, ou qualquer outro que a gente não sabe, com a existência de tantos homicídios”, denunciou.

Revoltada, Maria lembrou como se deu a morte do filho. “Tiraram o meu Lucas da porta da minha casa, torturaram meu filho e com três dias o achamos na represa, com pescoço quebrado, dente quebrado, braços e pernas quebradas, a 14 quilômetros de distância da minha casa”.

“Até quando vamos chorar a morte de nossos filhos?”, encerrou Maria, que vestia uma camiseta estampada com a foto do filho Lucas sorrindo, seguida da frase “Cadê o Lucas? Justiça!”.

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Na visão de Katiara Oliveira, articuladora da Rede de Proteção e Resistência Contra o Genocídio, a morte de Victor e Lucas estão ligadas. “Tanto no caso do Lucas quanto de Victor, o que eles têm de comum é o território do batalhão da PM, é a mesma região, em que todo mundo conhece a represa como um lugar de desova. O Victor morreu porque ele ouviu a ameaça de que aquele jovem abordado ia ser levado para a represa. Ele morreu defendendo o direito daquele ser humano existir”.

Por volta das 16h30 o protesto voltou à praça do Lamartine e chegou ao final com as palavras de ordem “Basta de racismo, jovem negro vivo”, e “Victor presente!”. 

Outra lado

Procurada pela Ponte no sábado (20), a SSP (Secretaria da Segurança Pública) do governo João Doria (PSDB) afirmou em nota que o crime é alvo de inquérito policial instaurado pelo Setor de Homicídios e Proteção à Pessoa (SHPP) de Santo André. “Diligências estão em andamento visando à elucidação da ocorrência. A Polícia Militar também apura os fatos por meio de IPM [inquérito policial-militar]”. 

A Ponte procurou a SSP e a PM novamente neste domingo (21) para falar sobre o caso de Lucas e Victor, porém não se pronunciaram. 

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