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Favela City se revolta contra violência policial e apedreja viatura

24/09/20 por Arthur Stabile

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Polícia revidou com tiros e atingiu mulher com filho no colo, mas delegado ignorou. Pedreiro agredido por PM apelidado de ‘Hugo Terrorista’ foi o estopim da treta

Jovem levava a filha no colo quando baleada de raspão na perna | Foto: Arthur Stabile/Ponte

Uma ação policial na Favela City, localizada na Estrada dos Mirandas, no Campo Limpo, zona sul da cidade de São Paulo, terminou com uma mulher baleada na perna de raspão, enquanto carregava sua filha de um ano no colo, e um homem espancado. O homem agradido ainda responderá por resistência e dano ao patrimônio. No entanto, o delegado que cuida da ocorrência registrou apenas dois PMs como feridos na noite de quarta-feira (23/9).

O registro oficial põe os policiais como vítimas e ignora qualquer dano causado à comunidade ou agressão aos moradores. Na favela, os relatos são diferentes do que consta no documento da Polícia Civil. A situação aconteceu por volta de 22h na, altura do número 800 da estrada. Vídeos gravados pelos moradores mostram a confusão envolvendo os policiais.

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Em uma das cenas, um PM leva um soco quando dirigia uma viatura, que depois é alvo de pedras e outros materiais jogados pelos moradores. Ele é um dos dois policiais feridos, como registrado no B.O. (Boletim de Ocorrência). No entanto, as imagens não mostram o que motivou a revolta das pessoas.

À Ponte, elas contam que naquela noite duas viaturas chegaram na viela que dá entrada à favela. Um PM desceu de arma em punho e mandou os comerciantes fecharem as portas. Um homem, que é pedreiro, voltava para casa carregando ovo e leite que comprou para a filha quando foi abordado pelos policiais.

Os moradores contam que um dos policiais, que seria conhecido como Hugo, começou a espancar o homem no meio da abordagem. Enquanto isso o seu parceiro dava cobertura. Nessa hora, as pessoas foram para cima dos dois PMs.

Este mesmo policial, chamado pelos moradores de “Hugo Terrorista”, teria sacado sua arma e atirado. As testemunhas contaram cinco tiros disparados por ele, enquanto o policial, que no B.O. aparece com o nome “Hugo”, admite ter disparado duas vezes.

Um desses tiros acertou de raspão a perna esquerda de uma jovem de 23 anos que passava pela viela. Ela segurava em seus braços a sua filha no momento em que foi atingida pelo disparo.

Favela City existe há mais de quatro décadas no Campo Limpo | Foto: Arthur Stabile/Ponte

À Ponte, a jovem relembra quando foi atingida. Na tarde desta quinta-feira (24/9), ela, visivelmente abalada, estava ao lado da mãe e segurava a filha nos braços quando deu a entrevista sob condição de anonimato por temer represálias.

“Fui no bar comprar comida. Quando desci vi o policial enquadrando um amigo. Eu estava de costas para proteger minha filha e senti quando minha perna começou a sangrar”, relembra, sem saber o motivo do disparo ter sido feito.

Esta não foi a única violação ocorrida durante a presença da PM na favela. As pessoas contam que os policiais tiraram fotos e gravaram “a cara de todo mundo da comunidade”, sem saber qual seria a finalidade das imagens.

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“Mostram os vídeos na TV do PM levando o soco e chamam a gente de revoltados, mas não vieram aqui perguntar o que aconteceu”, desabafa uma moradora. “Se ninguém tivesse se metido ele ia matar o menino. O PM jurou um monte de gente de morte”.

Os próprios vizinhos socorreram a moça baleada para uma unidade de saúde do bairro. Já o pedreiro foi levado pelos policiais para o 89º DP (Portal do Morumbi), onde assinou uma ocorrência por resistência, dano ao patrimônio e lesão corporal. Ele acabou liberado.

O documento ainda coloca o crime de disparo de arma de fogo pelo fato do PM Hugo reconhecer ter atirado com sua pistola Glock Gen 5, calibre 9 mm.

Beco em que o PM espancou o pedreiro e a jovem levou o tiro | Foto: Arthur Stabile/Ponte

No entanto, o armamento não foi apreendido pelo delegado. O motivo? Pela “ausência de eventuais baleados”. A autoridade policial considerou que não haveria prejuízo se a arma fosse apresentada posteriormente para perícia.

Os moradores da Favela City contam que nenhum policial civil esteve no local ao longo desta quinta-feira ou durante a madrugada para fazer trabalho de investigação. Também não viram integrantes da Corregedoria da PM, responsável por apurar eventuais irregularidades cometidas por policiais militares.

Quem esteve novamente na favela foi justamente o PM Hugo, como denunciam. “Ele voltou sem farda durante a madrugada. Ficou rondando aqui com o carro dele”, diz uma moradora, pedindo para não ser identificada.

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A mulher explica que as ações violentas envolvendo este policial acontecem há pelo menos dois meses. Começou com a agressão a um jovem que estava ouvindo som alto em casa.

“[O PM] Mora aqui perto, não é novidade. Ele chegou e ameaçou uma mulher na segunda-feira: ‘Fecha a porta! Quer morrer?’. Já bateu nas crianças, jurou os meninos de morte. É um terrorista”, desabafa.

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A Ponte questionou a Secretaria da Segurança Pública, chefiada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre a ação na Favela City.

Segundo a pasta, dois PMs foram feridos pois, durante uma abordagem, os moradores “hostilizaram os militares” e depois jogaram objetos neles. Ambos foram atendidos no pronto-socorro Campo Limpo.

A reportagem questionou sobre as denúncias envolvendo o PM Hugo e aguarda um posicionamento.

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