Funcionário demitido pelo Metrô afirma que foi vítima de racismo

Foto: arquivo pessoal

Ao longo de 15 anos, Valter ouviu que seu cabelo era ‘anti-higiênico’ e que ‘não tinha genes’ para operar equipamentos. Em 15/9, segundo ele, foi demitido após reagir contra ofensa racista de um passageiro

Valter Rocha Junior conta que Metrô considerava seu cabelo ‘anti-higiênico’ | Foto: Arquivo pessoal

Aprovado por concurso público em 2002 a uma vaga no Metrô, Valter Rocha Junior foi desligado da empresa 15 anos depois, na última sexta-feira (15/9), em circunstâncias ainda não explicadas. Para Valter não há dúvidas: ele foi demitido por causa da cor da pele. E ele tem razões para pensar isso.

Na função de OTM1, que atua no atendimento ao público, ainda em 2007, deixou o cabelo “endredar”, como ele mesmo diz, e foi chamado por dois supervisores que disseram que ele teria que cortar o cabelo. “Argumentei que eles não pediram pro meu colega branco que ele cortasse o cabelo, muito mais comprido que o meu, porque o dele era liso e que, portanto, era racismo e que eu não ia cortar e ponto. Afinal, não havia nenhuma reclamação de usuários quanto a isso e que eu era um ótimo funcionário. Não cortei”, conta.

Valter formalizou a reclamação no sindicato, que foi cobrar o coordenador da linha-3 Vermelha do Metrô. Este teria dito, então, que sabia do pedido para que Valter cortasse os cabelos porque “parecia anti-higiênico”. Na ocasião, o diretor do Metrô chegou ser procurado, segundo Valter, e disse que o cabelo dele não era adequado para atender ao público. “Nas avaliações periódicas do meu desempenho, existe um item chamado ‘apresentação e asseio’, onde sempre recebi notas baixas declaradamente por causa do meu cabelo, alegação dos supervisores que me passavam o feedback da avaliação”, contou. 

Seis anos depois, em novembro de 2013, durante um concurso interno, novos indícios de racismo contra Valter. Segundo o atendente, ele queria ir para uma função técnica, ainda dentro da estação, chamada OTM2, e acertou 36 das 40 questões da prova. A segunda etapa seria chamar os aprovados para uma espécie de treinamento, mas isso não aconteceu até a Copa do Mundo de 2014, quando os metroviários organizaram paralisação de 5 dias e piquetes. Valter, embora estivesse de férias, foi participar dos protestos. “O Metrô demitiu 42 funcionários que participaram destes piquetes e eu seria o 43º, pois meu nome estava na lista, mas eu estava em férias. A partir daí, passou a ser visível a raiva e o rancor com que eu estava sendo tratado pela chefia que não conseguiu me demitir”, explicou.

Só no final daquele ano o treinamento aconteceu e Valter foi considerado inapto para o cargo, mas ele alega que não houve prova que documentasse a suposta inabilidade. “De tanto insistir, a coordenação chamou a mim e um representante do sindicato que vinha me ajudando na minha reivindicação. Nesta reunião, onde fui pedir uma nova avaliação, os membros da área técnica disseram que, ‘segundo relatos dos instrutores’, eles concluíram que eu ‘não tinha proatividade, raciocínio lógico, agilidade e nem segurança para atuar numa função técnica’. Um deles acrescentou que ‘para vender bilhetes e atender o público eu era, com certeza, muito bom, mas operar tais equipamentos talvez não estivesse nos meus genes’. E que, portanto, não me fariam uma nova avaliação”, contou.

No final das contas, Valter foi promovido e mudou de estação: do Anhangabaú para a Praça da Árvore. Foi na nova estação de trabalho que ele se envolveu em uma confusão com um usuário, que teria sido racista com ele em duas oportunidades, e de onde foi demitido na última sexta-feira.

A alegação do Metrô para a demissão de Valter Rocha Junior, expressa na carta de demissão entregue em mãos a ele, é que ele teria agredido um passageiro do Metrô. Em depoimento escrito à Ponte, Valter fala em racismo e da perseguição que estaria sofrendo na empresa, especialmente nos últimos anos:

“Um certo dia, as seis da manhã, um usuário começou uma confusão porque a bilheteria não tinha troco para a sua nota de cem reais. Expliquei pra ele que era difícil este troco aquela hora mas que ele esperasse um pouco, pois em pouco tempo seria juntado este troco. O passageiro não gostou, disse que eu ‘nem deveria estar trabalhando ali’ e que iria chamar a polícia pra mim. Em seguida, pulou a catraca. No ato em que pulou, passaram dois PMs que o abordaram, revistaram e liberaram, sem interferência minha.

Cerca de vinte dias depois, em 15 de agosto, este mesmo usuário chegou a estação me dizendo “e aí, macaco!” enquanto gesticulava imitando um macaco e se dirigiu à plataforma. Depois de alguns segundos estarrecido e sem reação, fui atrás dele e o abordei para pedir explicação sobre sua injúria, com o objetivo de identifica-lo para fazer a denúncia de injúria racial. Como não havia agentes de segurança na minha estação – como de costume nesta fase de privatização do metrô – naquele momento, a única forma de impedir a fuga do usuário racista, até a chegada da segurança, foi segura-lo pela mochila. Neste momento, ele reafirmou que eu era macaco. Quando eu caí na real que seria necessário segurá-lo por muito tempo e sem ajuda, percebi o risco que eu estava correndo. Soltei ele e voltei ao meu posto de trabalho. Ele ficou indignado com minha abordagem e me seguiu para continuar me xingando. Neste momento, mais uma vez, passou uma dupla de PMs e pelo menos um dos policiais foi o mesmo que o abordou da primeira vez que ele me importunou. Como eu fiquei preocupado em ser retaliado por ter puxado um passageiro pela mochila, me contentei em deixar ele ir embora depois da abordagem da polícia. Tudo isso na estação Praça da Árvore, sem supervisor.

Cerca de duas horas depois, recebi uma ligação da segurança que estava em Vila Mariana dizendo que havia lá um usuário relatando que eu o agredi. Neguei. Neste momento, o supervisor de lá me ligou perguntando se eu havia mesmo agredido. Neguei e este supervisor insistentemente dizia que o usuário continuava me acusando e eu podia admitir se fosse verdade. Eu disse que quem me agrediu foi o usuário racista que me chamou de macaco e que eu gostaria de ir para a delegacia com este usuário para acusá-lo de injúria racial. Segundo a segurança da Vila Mariana, por telefone, quando ele foi informado de que eu o estava acusando de racismo, ele admitiu que estava errado, desistiu de formalizar uma reclamação contra mim, desistiu de pedir pra ver filmagens. Foi então liberado pela segurança.

Paralelamente, ocorre uma campanha descarada, notada por mim e por meus colegas, para me retaliar e desgastar até a demissão, intenção verbalizada por um supervisor e testemunhada por um colega que me contou o que ouviu. No dia 14 de setembro, ultima quinta-feira, denunciei a perseguição do tal supervisor para seu chefe, que vou chamar de SG.

As 23:35 do dia seguinte, 15, sexta-feira, este SG para quem denunciei meu chefe — que trabalha das 9h às 17hs — apareceu na minha estação acompanhado de dois supervisores subordinados a ele, quando eu estava trabalhando. Traziam minha carta de demissão por agressão a usuário em 15 de agosto. Me pediram que eu entregasse meu crachá. Recusei e, diante da minha recusa, estes três chefes passaram a me seguir e me cercar, inclusive me tocando para me impedir de me esquivar para voltar pra casa, já sem meu uniforme. Corriam e me cercavam como se caçassem um rato. Em frente à linha de bloqueios da estação Praça da Arvore, diante de, pelo menos três câmeras”.

Outro lado

A assessoria de imprensa do Metrô foi procurada por e-mail, mas, até o momento, não retornou.

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