General aposentado do Exército assumirá segurança de SP na gestão Doria

13/11/18 por Arthur Stabile

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João Camilo Pires de Campos diz estar convicto que ‘não se mata por matar’ ao comentar letalidade policial do estado, a maior registrada em 21 anos; corporações terão secretários executivos

Doria (à esq.) posa com o general Campos (centro) e o chefe de gabinete Wilson Pedroso | Foto: Reprodução/Facebook

O novo secretário de Segurança Pública de São Paulo será um militar: João Camilo Pires de Campos, general da reserva do Exército. O escolhido pelo governador eleito João Doria (PSDB) quebra uma sequência de 19 secretários com origem na formação em Direito, entre procuradores, promotores, advogados ou desembargadores.

Pires de Campos será o primeiro militar a comandar a segurança de São Paulo em 39 anos, desde o coronel Antônio Erasmo Dias, comandante da SSP (Secretaria da Segurança Pública) entre 1974 e 1979, período em que o Brasil vivia o regime militar. Dias também tinha formação no Direito. Doria havia prometido colocar um policial à frente da pasta, mas recuou para evitar desgaste com a Polícia Militar e a Civil antes mesmo de assumir o cargo: caso escolhesse um militar, desprestigiaria os civis e vice-versa.

O general da reserva assume as corporações com maior letalidade já registrada oficialmente em São Paulo – as estatísticas são feitas pela SSP desde 1996. Ao longo de 2017, as polícias mataram 939 pessoas, 876 delas cometidas por Militares e 63 por Civis. Em 21 anos, as polícias paulistas mataram 12.247 pessoas. Estudo recente demonstrou a satisfação em matar de policiais condenados por homicídio.

Para a nova cabeça da Segurança Pública de São Paulo, essa realidade exposta em números não é um problema. “Tenho a convicção de que não se mata por matar, percebeu? A letalidade tem de ser tratada caso a caso. Cada caso é um caso”, explicou João Camilo, após a sua confirmação como líder da SSP.

Em diversos momentos da campanha, João Doria apontou que, com ele, a “polícia atiraria para matar“. Além disso, prometeu contratar “os melhores advogados” com dinheiro público para defender os policiais que matarem em serviço.

“Quando o governador diz que o PM tem que ser valorizado e amparado pelo Estado por defender a sociedade. Eu apoio”, afirmou o general da reserva, que se aposentou em maio deste ano após liderar o CMSE (Comando Militar do Sudeste). Doria participou de sua cerimônia de despedida como prefeito de São Paulo à época.

João Camilo Pires de Campos tem 64 anos, 48 deles no Exército. Passou pela escola de cadetes na década de 1970, atuou como professor na Academia de Guerra e liderou o Departamento de Educação e Cultura da Força Armada, antes de comandar o CMSE e se aposentar.

Especialistas divergem

Especialistas ouvidos pela Ponte consideram a escolha uma forma de “enquadrar” a PM ao mesmo tempo que busca melhor gestão entre as duas forças, uma ostensiva e a outra investigativa. “Não é ideal a relação entre militares e segurança pública, que não é fácil, não é a desejada. O caminho do mundo é ter cada vez menor a ação de militares na segurança”, explica Rafael Alcadipani, professor da FGV (Fundação Getúlio Vargas) e membro do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública).

Para o professor, a nomeação de João Camilo Pires de Campos tanto evita o desgaste de Doria com policiais militares e civis quanto é resposta ao apelo da população, através da eleição de Jair Bolsonaro (PSL) à Presidência, de maior presença de militares na área da segurança.

“Historicamente, essa cabeça militar não mostra necessariamente que vai ter algum retorno prático na segurança. Se não pensar de forma mais ampla, acaba não resolvendo. Os militares estão assumindo papel de proa. E se não der certo? Não dá para saber agora, as ações dele vão tomar tempo para gerar efeito”, argumenta. Para ele, a escolha do governo em como lidar com o PCC (Primeiro Comando da Capital) será o ponto chave do futuro na segurança do estado.

Ex-secretário de segurança nacional no governo de FHC (Fernando Henrique Cardoso), o coronel da reserva da PM paulista José Vicente da Silva Filho aprova a escolha do general. “É o que São Paulo precisa nesse momento”, define, antes de explicar quais benefícios podem ser trazidos pelo militar.

“É um cara experiente, culto, bom de diálogo, tem visão boa das pessoas da segurança. Um dos pontos é que ele com certeza vai ser um secretário que o Doria vai respeitar, um problema que o Doria tem”, diz.

Vicente fez parte do grupo de especialistas em segurança que prestaram consulta para a campanha do tucano. Decidiu abandonar os trabalhos quando o então candidato contrariou todos os estudiosos e prometeu levar os batalhões da Rota (Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, a tropa de elite da PM paulista) para todo o estado.

Segundo José Vicente, a formação do general contribuirá na maior cooperação entre as Polícias Civil e Militar, um passo importante a ser dado, de acordo com ele. O coronel da reserva ainda considera positiva a quebra de quase 40 anos com profissionais do Direito no comando da segurança pública paulista.

“Um general capacitado tem aquilo que promotores não têm: preparo para analisar estrategicamente. A segurança num estado grande como São Paulo, de população maior do que a da Venezuela, de área como a da Inglaterra, uma competência necessária é gestão estratégica do sistema”, justifica. “São 120 mil policiais, 30 mil da área penitenciária, na SAP… O grande desafio para a área é a refinada capacidade de gestão”, continua.

Polícias terão mais chefes

Com a definição do secretário de segurança, João Doria contraria uma promessa feita durante a campanha em colocar um policial no comando da SSP. No entanto, o futuro governador decidiu agradar tanto policiais militares quanto civis com dois novos cargos.

Serão dois secretários executivos, um para a PM e outro para a Civil. Inicialmente, estes profissionais teriam a função de intermediar conversas entre o Comandante da PM e o Delegado Geral junto ao secretário de segurança.

Contudo, a criação dos cargos não está oficializada por Doria. Nenhum dos especialistas de segurança consultados no grupo de campanha indicou esta necessidade ao tucano. Segundo apurado pela reportagem, a ação é uma espécie de “média” com as corporações. “Quem manda na PM? O secretário, o executivo ou o comandante geral?”, questiona uma pessoa ligada aos trabalhos, sob condição de anonimato.

Um dos nomes cotados para assumir a secretaria-executiva da PM é do Coronel Camilo, ex-comandante geral da tropa. Neste ano, Camilo buscou a reeleição como deputado estadual, mas não obteve êxito no pleito. Camilo, que é deputado estadual (PSD) e tentou a reeleição, tem se apresentado como confirmado para o cargo, que ainda não foi oficialmente criado. O próprio governador eleito não confirmou o nome dele. Para a secretaria executiva da Polícia Civil o nome forte é Youssef Abou Chahin, ex-delegado geral da corporação entre janeiro de 2015 a abril de 2018 e ex-comandante do Deic (Departamento Estadual de Investigações Criminais). Outro cotado é o delegado Maurício José Lemos Freire, que comandou a Civil em SP de setembro de 2007 a março de 2009.

De acordo com o coronel José Vicente da Silva Filho, a ideia pode ser boa. “Estes intermediários contribuiriam na cooperação das corporações e manter um padrão de ação entre as duas. É uma forma de estreitar a cooperação”, analisa.

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