Conflito de facções é uma das hipóteses para 4ª chacina do Ceará

Atiradores mataram três pessoas em uma praça e outras quatro diante de torcida organizada, no bairro de Benfica, em Fortaleza

 

Imagem postada nas redes sociais mostra praça após a chacina | Foto: Facebook

De um lado, os Guardiões do Estado (GDE), surgidos no Ceará e apoiados pelo Primeiro Comando da Capital (PCC), nascido nas penitenciárias paulistas. Do outro, o Comando Vermelho (CV), de origem carioca, e aliado da Família do Norte, de origem amazonense. Os conflitos decorrentes dessa geopolítica do crime estão entre as hipóteses levantadas para explicar a quarta chacina registrada neste ano no Ceará, que deixou sete mortes na última sexta-feira (9/3), no bairro do Benfica, em Fortaleza. Mas também pode não ser nada disso.

A Ponte apurou que uma das linhas de investigação seguidas pela polícia aponta para a participação do Comando Vermelho nas mortes de sexta-feira, em retaliação ao assassinato de três mulheres, que, no último dia 3, foram esquartejadas e jogadas em um mangue de Caucaia, na região metropolitana de Fortaleza. A morte e a tortura das mulheres, que foi filmada e postada nas redes sociais, é atribuída ao GDE. Segundo essa hipótese, faria sentido que o CV atacasse a Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF), que supostamente seria vista com simpatia por membros dos Guardiões do Estado.

Em coletiva de imprensa realizada no sábado (10/3), o secretário da Segurança Pública do governador Camilo Santana (PT), André Costa, negou a autenticidade de um vídeo que circulou nas redes, supostamente atribuído ao Comando Vermelho, em que a facção assumiria a autoria da chacina. “A gente acredita que isso é contrainformação”, disse.

Segundo o secretário, as investigações iniciais apontam não para uma chacina, mas para dois crimes diferentes, sem ligação um com o outro, que apenas aconteceram muito próximos. “A gente não pode excluir totalmente, porque são locais próximos, cerca de dez quarteirões de distância. O lapso temporal também e curto. Mas há aparentemente motivações e modus operandi diferentes”, afirmou. “Num local, vítimas que foram escolhidas. No outro, vítimas que foram aleatórias.”

As mortes

No primeiro ataque, por volta das 23h30, homens num carro atiraram em quatro pessoas na Praça da Gentilândia. O local estava lotado de gente que aproveitava o sábado à noite. Três morreram na praça: José Gilmar Furtado de Oliveira Júnior, Antônio Igor Moreira e Silva e Joaquim Vieira de Lucena Neto. Uma outra pessoa segue hospitalizada.

Em questão de minutos, um outro ataque ocorreu a poucas quadras dali, diante da Vila Demétrio, sede da Torcida Uniformizada do Fortaleza (TUF). Pessoas desceram de um carro e atiraram em três torcedores: Carlos Victor Meneses Barros, que morreu no local, e Emilson Bandeira de Melo Júnior e Adenilton da Silva Ferreira, que morreram após serem levados ao pronto-socorro.

Os assassinos voltaram para o carro e saíram. Na rua Joaquim Magalhães, viram dois homens com o uniforme da TUF em uma motocicleta. Atiraram nos dois. Uma das vítimas, Pedro Braga Barroso Neto, morreu; a outra está internado.

Na coletiva de imprensa, André Costa disse que as mortes ocorridas na Gentilândia tiveram “uma motivação e modus operandi para vítimas direcionadas” e apontou para a ligação com o tráfico de drogas. “Segundo o relato de pessoas que frequentam a praça, duas das pessoas que foram mortas comercializavam drogas ali. Inclusive uma dessas pessoas usava pochete e, dentro dessa pochete, foi encontrado dinheiro e drogas: crack e maconha”, afirmou o secretário.

As declarações do governo foram recebidas com indignação pela família de José Gilmar, assassinado na praça. “Quero dizer publicamente: ele não era traficante, como esse secretário anda dizendo por aí. Mataram um rapaz que trabalhava e gostava da vida”, disse uma tia de Gilmar, Gilvana Furtada, ao jornal O Povo.

Sobre as mortes de membros da TUF, o secretário disse que os criminosos atiraram aleatoriamente, com a intenção de alvejar qualquer pessoa ligada ao time, e apontou como motivação a briga entre torcidas. “Há um suspeito, porque no clássico do último domingo houve uma briga envolvendo membros dessa torcida, na qual dois membros de uma torcida rival acabaram gravemente feridas”, disse.

As torcidas organizadas negaram qualquer ligação com o crime. “Esperamos que a mídia não venha querer aproveitar-se do episódio e criar matéria para vender jornal e insinuar que o episódio está relacionado a briga entre torcidas organizadas”, declarou a Cearamor, torcida organizada do Ceará, principal rival do Fortaleza, em nota no Facebook. Um dirigente da TUF, ouvido por O Povo,  também repudiou qualquer ligação do crime com os conflitos entre torcedores. “Isso foi um ato de terrorismo, não foi briga de torcida”. Mesmo assim, o Ministério Público do Estado do Ceará (MPCE) publicou uma nota defendendo a “imediata extinção” das organizadas.

A primeira chacina do ano no Ceará, em 7 de janeiro, matou quatro pessoas na comunidade de Serra Pelada, na cidade de Maranguape. Depois, o alvo foi a periferia de Fortaleza: 14 mortos no bairro de Cajazeiras. Foi considerada a maior chacina da história do Ceará. A matança seguinte ocorreu dentro da cadeia pública de Itapajé e terminou com 10 mortos.

A chacina de Benfica foi só um dos episódios violentos registrados nesta sexta-feira em Fortaleza. Entre 8h de sexta e 8h de sábado (12/3), conforme dados do Sindicato dos Policiais Civis de Carreira (Sinpol), os plantões policiais registraram 22 homicídios na região metropolitana de Fortaleza.

Comentários

Comentários

Colabore com a Ponte!

Enviar um comentário

Contribua com a Ponte

Clique para doar

Catarse

feito por F E R A