Homem que fez ataque racista a motoboy volta a ofender negros e nordestinos em Campinas (SP)

09/04/21 por Paulo Eduardo Dias

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“Ele aparenta ter problemas mentais, mas problemas mentais direcionados para negros e nordestinos”, diz vítima; Mateus Almeida Prado, que humilhou motoboy em condomínio em Valinhos ano passado, promoveu série de ofensas contra donos e clientes de mercado

O contabilista Mateus Abreu Almeida Prado Couto, 31 anos, flagrado em 2020 ofendendo um entregador dentro do condomínio onde morava em Valinhos, no interior de São Paulo, voltou a ser filmado praticando crime racial.

No registro mais recente, ocorrido por volta das 13 horas desta sexta-feira (9/4), Couto está na calçada do mercado Brasinha, no distrito Barão Geraldo, em Campinas, e xinga quem está do lado de dentro do estabelecimento. O vídeo inicia com um homem filmando as atitudes de Couto com um celular. Dá para se ouvir uma voz ao fundo que diz “racismo”. Nisso, Couto passa a falar “racismo mesmo, ô seu preto”. Ao ser indagado por uma pessoa se é italiano, Couto responde ser “nórdico”.

Visivelmente desequilibrado, Couto passa a demonstrar não temer nem mesmo que as pessoas acionem à polícia. “Manda a PM aqui, que eu mato a PM”. Durante a sessão de xingamentos, o homem ainda cita um suposto roubo cometido contra ele. “Ta roubando meu dinheiro, seu lixo”.

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Na sequência, o contabilista passa sua mão pelo antebraço, numa clara referência a cor da pele e diz: “chega aí, seu bosta, seu gordinho otário. Você não é italiano, você é sub-raça. Chama sua polícia aí, traz a Federal, seu preto filho da puta”. O vídeo encerra com Couto aparentemente deixando o local.

A Ponte conversou com o fotógrafo Diego Chagas, 38, filho dos proprietários do marcado. Segundo ele, Couto esteve por duas vezes no local entre a manhã e a tarde desta sexta-feira, e nos dois momentos proferiu palavras racistas, principalmente contra nordestinos e negros. Chagas também estava com os pais e presenciou as injúrias raciais.

“Ele chegou por volta das 10 horas e quis entrar sem máscara, dizendo que ‘máscara era idiotice’. Pouco depois passou a dizer ‘esse mercadinho de vocês é um bando de filho da puta, vocês ficam atendendo esses nordestinos e pretos’. Fiquei sem reação”, afirmou Chagas, que é negro.

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Chagas narra que Couto deixou o local, mas voltou horas depois, momento em que passou a filmar sua atitude. “Ele voltou xingando minha mãe de ‘preta filha da puta’, falou que sou bandido por ter o braço tatuado, que o mercado só atende nordestino e preto”.

Como acompanhou toda a ação de perto e sentiu na pela o preconceito racial que Couto carrega, Chagas afirmou que “ele é uma pessoa perigosa, agressiva, que possui uma raiva direcionada”. Para o fotógrafo, “ele aparenta ter problemas mentais, mas problemas mentais direcionados para negros e nordestinos”.

Até por volta das 18 horas a família ainda não havia elaborado um boletim de ocorrência sobre o caso, mas avaliava para se precaver de possíveis contratempos. A reportagem tentou contato com Mateus Couto através do telefone que consta como seu no boletim de ocorrência elaborado em Valinhos, mas não teve retorno.

Histórico de preconceito

Não é primeira vez que Mateus Abreu Almeida Prado Couto externa todo seu preconceito pelas ruas do interior paulista. O homem foi flagrado em 31 de julho do ano passado humilhando o motoboy Matheus Pires Barbosa, que havia ido até o condomínio onde Couto residia para realizar uma entrega.

Ao fazer a entrega, Couto, um homem branco, chamou Mateus de lixo e apontou para a sua pele clara. Uma testemunha registrou a cena, que viralizou nas redes sociais na manhã de 7 de agosto. Nas imagens, é possível assistir a sessão de xingamentos. “Seu lixo. Você tem inveja disso aqui”, diz, ao apontar para a cor de seu braço, indicando sua pele branca para o entregador negro. “Quanto deve ganhar por mês, hein? Dois mil reais? Não deve ter nem onde morar”, dispara o homem, que, à época, morava no condomínio Madre Maria Villac.

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“Você trabalha de motoboy”, segue o homem. O entregador, que no próprio vídeo diz se chamar Matheus, não aceita a humilhação e responde. “E daí? E daí quanto eu tiro por mês? Eu também posso ter a mesma coisa que o senhor. O senhor conseguiu por quê? O seu pai te deu?”, pergunta.

Segundo o documento da Polícia Civil, tudo teve início quando o rapaz disse que “não seria bem visto com os outros motoboys”, pois a entrega era para um cliente conhecido por obrigar os entregadores a irem até a porta da sua casa. Normalmente, conta o rapaz, os clientes vão até a entrada do condomínio para retirar as encomendas. Com a fala, Mateus se exaltou.

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Em novembro passado, o Ministério Público denunciou Couto por injúria. No curso do processo, foi solicitado um incidente de exame de insanidade mental, o qual segue em segredo de justiça.

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