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Igo e Felipe, presos sem provas: ‘se isso não é racismo, não sei o que é’

16/01/21 por Caê Vasconcelos

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O rapper João Igo Santos Silva, 37 anos, e o lutador de MMA Felipe Patricio Lino Ferreira, 20, foram acusados de roubo com base em uma testemunha que nem viu os crimes

“Foram 13 dias de tortura, de humilhação.” É dessa forma que João Igo Santos Silva, 37 anos, o Igo, rapper, professor de música e produtor musical, define os dias em que ficou preso por um crime que não cometeu, ao lado do amigo e vizinho Felipe Patricio Lino Ferreira, 20, que é lutador de MMA.

Presos na noite de 2 de janeiro, Igo e Felipe foram acusados de dois roubos ocorridos na rua Paes Leme, em Pinheiros, na zona oeste da cidade de São Paulo. Uma das vítimas do crime não as reconheceu e outra afirmou ter reconhecido “as roupas”. Assim, as Polícias Civil e Militar, o Ministério Público e o Judiciário decidiram pela prisão de ambos baseado numa testemunha que afirmou ter reconhecido ambos, mas que nem chegou a ver os crimes.

Leia também: Justiça concede liberdade para Igo e Felipe, presos após serem reconhecidos por testemunha que não viu o crime

No começo da noite da última quinta-feira (14/1), o desembargador Fábio Gouvea, do Tribunal de Justiça de São Paulo, concedeu a liberdade provisória para os amigos, após pedido de habeas corpus solicitado pelos advogados de defesa em 7 de janeiro.

A sexta-feira (15/1) trouxe a chuva, que se estendeu durante todo o dia e o começo da noite. Com ela, a ansiedade das famílias de Igo e Felipe para que eles fossem soltos logo do CDP. O alvará de soltura foi expedido por volta das 13h30, mas só as 16h27 eles foram liberados do CDP (Centro de Detenção Provisória) do Belém, na zona leste. Nessa hora a chuva já não iria atrapalhar a alegria.

Igo e Felipe ficaram 13 dias presos | Foto: Nídia Gabrielle/TNM

À Ponte, Igo e Felipe concederam uma entrevista exclusiva, já em casa, com detalhes da prisão. Não era a casa deles, já que, por conta da pandemia e da falta de cuidados dentro do CDP, os dois ficarão 14 dias em um apartamento cedido por amigos para não colocar seus familiares em risco.

No CDP, segundo Igo, nenhuma medida para prevenção do coronavírus tem sido adotada. “Não tinha nenhum cuidado. Celas lotadas”, conta. Ambos ficaram na “rua 6”, como é chamado o raio 6 da unidade. “Lá não tinha atendimento médico e então começamos a acionar os funcionários para ajudar companheiros que estavam quase morrendo dentro do raio, sem atenção”, lembra. Por causa das suas reclamações, eles foram transferidos para outro raio, o 4.

Nas menos de duas semanas que passaram no CDP afirmam ter conhecido mais de 30 presos que, como eles, seriam inocentes “forjados” pela polícia. “Só na cela que a gente tava tinha mais 6 pessoas forjadas, inclusive um senhor de 56 anos que respondia por homicídio por ter comprado um celular que era dessa vítima que perdeu a vida. É isso que acontece no nosso país”, continua o rapper.

Leia também: Presos por roubo, Igo e Felipe foram reconhecidos por uma testemunha que nem viu o crime

Quando cruzou a porta de saída do CDP, narra Igo, foi como se um filme passasse pela sua cabeça. Dez anos antes, ele havia sido preso, daquela vez, sim, por um roubo que havia cometido. Mas ele pagou a sua pena e, a partir dali, prometeu que não voltaria mais para o sistema penitenciário, mas foi “selecionado”.

“Infelizmente estávamos naquele local naquele momento e alguém tinha que pagar por esse crime. Isso é só uma prova de que o racismo existe. Nascer preto é nascer marcado, isso acontece me todas as periferias, de todo o mundo. O racismo existe. É lamentável nos dias de hoje a gente ter que passar por essas situações”, lamenta Igo. Na prisão, afirma, encontrou outros como ele. “A maior parte de quem tá lá é negro. Isso expressa o racismo que se opera no nosso país, como ele existe, como é estruturado e como ele é massacrante com negros, indígenas e periféricos”, denuncia.

Felipe, apesar da timidez em frente às câmeras da reportagem, concorda com o amigo. “Se isso que aconteceu com a gente não é racismo, eu não sei o que é”, aponta o lutador, que agora quer recuperar o tempo perdido. “Quero passar o máximo de tempo com a minha família e lutar sempre pelo que eu acredito, que é lutar contra o capitalismo e contra o preconceito”.

Dia de Oxalá

Meia hora antes de Igo ser solto, sua mãe, a aposentada Maria Celeste dos Santos, 66 anos, tentava controlar a ansiedade. Vestida de branco, por ser dia de Oxalá, dona Celeste não conteve a emoção quando viu o filho perto do portão de saída. “Meu filho”, gritou, enquanto corria na chuva para reencontrar seu mais velho.

À Ponte, ela também reconhece que Igo só saiu porque seu irmão mais novo, Ayo Shani, 32 anos, que é músico, foi um “herói”. “Que coisa boa ter esse menino. Ele não dormiu, não comeu, ficou louco atrás de provar a inocência do irmão. Ele é o nosso herói e a [advogada] Irene [Guimarães], heroína”.

Vestida de branco, dona Celeste comemorou a liberdade do filho Igo: ‘Eu tô muito feliz’ | Foto: Nídia Gabrielle/TNM

Dona Celeste lembra do desespero que foi quando soube que Igo havia sido preso. “Eu não acreditava. Caí no chão e chorei, falei que era mentira. Eu sei que meu filho tem objetivos, compromisso, um monte de coisas para fazer. Ele luta pelas pessoas desassistidas, não iria roubar um trabalhador.” Ao ver o filho solto, explodiu. “Meu coração tá na boca, eu tô muito feliz. O que foi feito com esses meninos não se faz”, disse.

Ela só tem um pedido para o sistema de justiça brasileiro: “Olhar para a periferia e entender que nem todo mundo que mora na periferia e é preto é bandido. Tem muitos presos na mesma situação deles. Quero muito que as pessoas pensem bem no que estão fazendo com a nossa população. Agora eu quero cuidar muito deles”.

Leia também: Por que tantos negros são alvo de prisão injusta com base em reconhecimentos

Ayo Shani, irmão de Igo, lembra a correria que foi juntar as provas para tirar o irmão da cadeia. No dia seguinte da prisão, ele refez o caminho que Igo havia feito para colher imagens de câmeras de segurança que pudessem mostrar que seu irmão era inocente.

“Eles prendem sem provas e você não consegue provar sua inocência. Vamos esperar a poeira abaixar, mas vamos ir atrás de mais provas para provar a inocência deles. Dois jovens negros andando podem ser considerados ladrões. Isso tem que parar”, clama Ayo.

Igo e Irene | Foto: Nídia Gabrielle/TNM

A advogada Irene Guimarães, que cuidou da defesa de Igo e Felipe, avisa que, a partir de agora, a luta é pela absolvição. “A promotora denunciou eles por roubo, porque entendeu que tinha indícios suficientes, mas vamos questionar isso e seguir no processo para absolve-los. Também vamos processar o Estado para reparar tudo o que eles e suas famílias passaram.”

O que aconteceu com Igo e Felipe, afirma Irene, não é um caso isolado. “Sabemos que o encarceramento em massa e a seletividade da polícia tem um alvo: o jovem negro e pobre”, diz.

A noite da prisão

Apesar dos dias difíceis do cárcere, Igo lembra com clareza da noite da prisão. Como faz há 15 anos, ele costuma tirar seu lazer no Largo da Batata, um dos pontos onde a galera do hip hop se reúne. Igo é integrante do grupo de rap Resistência du Gueto. Naquela noite a ideia era essa: dar um rolê e comer um yakissoba de lei.

Na volta para casa, Igo e Felipe andaram pelas ruas de Pinheiros até o terminal. “Naquelas ruas, bairro de classe média alta”, define Igo. “Fomos até o Terminal Pinheiros e chegando lá perdemos um ônibus para o Campo Limpo e fomos pegar o segundo, porque eu fui pegar um dinheiro que devia para o Felipe”, continua.

Um pouco antes, dois homens roubaram uma mulher e um homem na rua Paes Leme, levando bolsa, celular, relógio e outros pertences das vítimas. Uma das vítimas encontrou um motorista por aplicativo e pediu ajuda, descreveu como seriam os homens que a roubaram e, segundo afirmou o motorista na delegacia, seguiram dois suspeitos até o terminal e viram quando embarcaram em um ônibus. 

Amigos e familiares comemorando a saída de Igo (de vermelho) e Felipe (de cinza) | Foto: Caê Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Os “suspeitos” eram Igo e Felipe, que pegaram um ônibus da linha 809P-10, que saia do Terminal Pinheiros com destino até o Terminal Campo Limpo. Durante o trajeto, o motorista do aplicativo que estava com as duas vítimas ligou para a Polícia Militar.

Quando os dois já estavam perto do ponto final, na avenida Francisco Morato, altura do número 3900, já na Vila Sônia, por volta das 22h, a PM interceptou o ônibus.

“Quando a polícia chegou, a gente achou que tinha algum suspeito armado no ônibus, que podia rolar troca de tiros, mas ai mandaram a gente descer, só a gente e mais dois, que também eram negros”, conta Felipe.

“Fomos abordados por mais de 20 policiais. Eles mandaram descer duas pessoas e o Felipe, mas como ele é meu amigo e estava junto comigo, eu falei que ia descer também”, detalha Igo. “Quando descemos do ônibus, mandaram os dois rapazes voltar. Falei do meu antecedente criminal. Eles nos levaram para o canto e pediram para a gente falar o que a gente fez, até então a gente não sabia o que era”.

Felipe (à esquerda) e Igo (à direita) mostram as blusas que usavam no dia da prisão | Foto: Anderson Jesus/TNM

Após uma tentativa de diálogo, Igo conta que os PMs tentaram algemá-lo, sem explicar o motivo da prisão. “Eu falei que a gente não tinha feito nada e eles falando que sabiam que a gente tinha feito, queriam saber como era a situação. Perguntaram se a gente tinha pertence dentro do ônibus e eu falei que sim, nossas blusas estava lá. Aí o policial foi buscar as blusas, liberou os outros dois meninos, e o ônibus seguiu o trajeto”.

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Igo e Felipe foram colocados em frente à estação Vila Sonia, nova estação da Linha Amarela do Metrô paulistano, mas, como não sabia o motivo da prisão, Igo se recusou a ser algemado. “Eu quis saber o motivo e aí o PM perguntou se eu ia resistir e eu falei que ia”. Apenas os nomes dos PMs Valeska de Almeida Scaranello e Wander Luiz Riehl aparecem no boletim de ocorrência.

Nesse momento, Igo começou a ser espancado pelos PMs. “Eles começaram a me enfocar com uma gravata e o Felipe falava ‘cuidado, você vai matar ele’ e eu já estava com falta de ar. Eles me derrubaram, pisaram na minha perna, na minha barriga e depois me levantaram e algemaram”.

Os PMs, então, os levaram até o 89º DP (Jardim Taboão), onde o caso foi registrado pelo delegado Rafael Moreira Cantoni. “Só sabíamos que era um assalto porque eles falaram. A gente tentou falar com o delegado, me perguntaram se eu queria dar o meu depoimento e eu falei que sim. O delegado, inclusive, disse: ‘pô, não posso soltar vocês, se eu soltar eu me prejudico'”, conta Igo.

“O delegado conseguiu entender, porque o ônibus que a gente estava não tinha como dispensar nenhum pertence, como falaram, não tinha janela [por causa do ar condicionado]. Tudo o que tinha era a minha blusa. Se a gente tivesse roubado, porque a gente ia sacar 20 reais dentro do terminal?”, questiona.

Felipe na porta do CDP | Foto: Nídia Gabrielle/TNM

Igo conta que eles foram duas vezes para o reconhecimento. “Colocaram um outro menino com a gente, que também foi forjado e ficou preso por tráfico com a gente. Se ele tivesse sido reconhecido também responderia por roubo”.

Os policiais pediram para ele levantasse sua blusa vermelha, mesmo sem entender, Igo cumpriu a ordem. As vítimas não reconheceram nenhum dos dois, apenas essa blusa vermelha. “Um policial nos contou que a vítima não tinha reconhecido, que iriamos embora, mas não foi assim”, aponta Igo.

Na delegacia, nenhuma das vítimas reconheceu Igo e Felipe. O único reconhecimento partiu do motorista de aplicativo, que não viu os crimes, e disse ter reconhecido ambos como os jovens que seguiu até o terminal de ônibus.

“Nossa luta não para. Ontem a gente estava conversando sobre o Mandela, que ele passou 30 anos dentro dessa situação. Se a gente tá dentro dessa missão, a gente já nasceu preparado. Se você nasce preto, você já nasceu preparado para enfrentar todo tipo de opressão. Vamos lutar até o fim das nossas vidas para desconstruir esse sistema”, finaliza o rapper.

Outro lado

A Ponte procurou a Secretaria da Segurança Pública e a Polícia Militar para questionar as agressões apontadas por Igo e Felipe, assim como para solicitar entrevista com os PMs e o delegado da ação.

Em nota, a SSP informou que a prisão em flagrante foi “fundamentada em depoimentos de três testemunhas, duas vítimas e em um auto de reconhecimento pessoal”. “A Corregedoria da Polícia Militar está à disposição para registrar e apurar qualquer denúncia contra seus agentes”.

A Secretaria de Administração Penitenciária alegou que as denúncias feitas por Igo e Felipe não procedem. “Os reeducandos que precisam de atendimento de saúde passam pela equipe da própria unidade. Se houver necessidade, são encaminhados de forma imediata a um hospital da região, observando-se critérios internos de segurança”.

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Segundo a SAP, João Igo e Felipe Patrício Lino Ferreira ingressaram na unidade no último dia 4 e ambos cumpriam o período de quarentena em pavilhões destinados a esse perfil para posterior remoção. “Eles não sofreram quaisquer sanções. Todos reeducandos que chegam passam por aferição de temperatura e medem o índice de oxigênio no sangue, além de responderem a um questionário sobre saúde”.

“Atualmente a unidade de trânsito não possui casos confirmados de Covid-19. Assim como as demais do Estado, segue rigorosamente as recomendações do Centro de Contingência do Coronavírus a fim de
conter a disseminação do vírus. Funcionários recebem Equipamentos de Proteção Individual para o trabalho e presos contam com máscaras, itens de limpeza e são orientados sobre as medidas de prevenção contra a doença”, completou a pasta.

Procurado, o Ministério Público de São Paulo não se manifestou. Assim que o posicionamento for enviado, incluiremos nesta mesma reportagem.

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