Itamar Vieira Jr: ‘Nós, negros e indígenas, sempre fizemos literatura, só não tinham editoras interessadas em publicar’

Escritor ganhador dos prêmios Jabuti e Oceanos com o romance Torto Arado fala com a Ponte sobre a literatura das periferias e sua nova obra, Doramar ou a odisseia

“Grandes histórias nascem de qualquer lugar”, afirmou o escritor Itamar Vieira Jr durante o episódio 11 da Academia de Literatura das Ruas, série de lives da Ponte sobre o tema, que foi ao ar na última quarta-feira (15/9). Durante a conversa, o autor de Torto Arado, livro vencedor dos prêmios Jabuti e Oceanos, que já vendeu mais de 100 mil exemplares, destacou que a literatura vem sofrendo uma mudança de foco: saindo dos personagens e autores da elite e se voltando para personagens fora do entorno da classe média. “Durante muito tempo, a literatura se voltou para classe média, para a classe letrada. Então, os grandes personagens eram pessoas da elite. Os outros que apareciam sequer tinham nomes. Se a gente olhar detidamente para essas pessoas, vamos encontrar grandes histórias”, analisou o autor.  

Em seu novo livro Doramar ou a odisseia, lançado em junho deste ano pela Todavia, o geógrafo e doutor em estudos étnicos e africanos retornou às histórias dessa gente, dos brasileiros dos campos, sertões, periferias, dos trabalhos precários, dos imigrantes, dos escravizados, até mesmo dos carrascos. “É um livro que subverte essa ordem perversa dos personagens e da literatura”, refletiu o autor na live.

São doze contos de personagens que, segundo o autor, “se encontram diante daquilo que é incontornável na vida”, aquilo que se pode enfrentar ou fugir. “Esses personagens vivem sua odisseia no seu mundo. A jornada pode ser como a de Doramar. Ela saindo da casa, onde trabalha como empregada doméstica, e indo para a periferia da cidade. Essa jornada de ônibus até sua casa é uma odisseia”.

Itamar acredita que “a literatura pode nascer de qualquer lugar, de qualquer história, das histórias mais improváveis”. Para ele, olhando para Lima Barreto, Conceição Evaristo e Carolina Maria de Jesus e tantos autores não brancos, é possível perceber que “sempre fizemos literatura, só não tinham editoras interessadas em publicar nossas histórias”. E essas histórias estão chamando atenção de novos públicos.

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O sucesso de Torto Arado e de suas personagens principais, Bibiana e Belonísia, mulheres negras com profunda ligação com a terra demonstra que há uma falta de representatividade nos personagens da literatura nacional. O povo – e o autor também – quer ver a si e seus ancestrais mesmo retratados nas histórias. “Minha vida ganha outro sentido quando encontro – ou reencontro – essa história que também é uma história ancestral minha, é a história dos meus antepassados, é a história do meu pai, dos meus avós, dos meus bisavós. São múltiplas escritas, eu sou atravessado por essas histórias que vira um combo de escritas”.

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