Jornalista executado investigava duas mortes atribuídas a um pistoleiro do PCC

27/02/20 por Angelina Nunes e Sérgio Ramalho, da Abraji

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Oito horas antes de ser assassinado, Lourenço Veras recebeu a visita do pai de uma suposta vítima de Genaro Lopes Martins, o Animal, integrante da facção criminosa

Enterro de Léo Veras | Foto: (*) Foto de capa: Marciano Candia / AP

Oito horas antes do seu assassinato, Léo Veras, 52 anos, estava empenhado em buscar mais informações sobre dois crimes: a morte de Adolfo Gonçalves Camargo, 31 anos, em 16 de agosto de 2019, e o desaparecimento do comerciante Roney Fernandes Romeiro, 35 anos, dois dias depois da morte de Adolfo. 

Em seu site Porã News, Veras informou que policiais investigavam Genaro Lopes Martins, conhecido como Animal do PCC, como executor dessas mortes. Ele teria como uma de suas características torturar as vítimas e esquartejar seus corpos. Genaro está preso pelo envolvimento na morte do adolescente Alex Zioli Areco Aquino, 14 anos, em novembro do ano passado. Veras foi executado com 12 tiros na noite de 12 de fevereiro, quando jantava com a família em casa, no bairro Jardim Aurora, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai.

O pai de Alex, Romão Aquino, esteve na casa de Veras por volta do meio-dia no dia do crime. Ele procurou o jornalista porque preparava um abaixo-assinado a ser entregue às autoridades durante protesto que seria realizado em frente ao Ministério Público e à sede da Divisão de Investigações Criminais de Casos Puníveis da Polícia Nacional do Paraguai. 

Desde o desaparecimento do adolescente, Veras esteve empenhado na solução do crime com notas publicadas em seu site. Em dezembro de 2019, parentes do jovem foram recebidos em encontro no Palácio do Governo de Pedro Juan Caballero pelo ministro do Interior, Euclides Acevedo; o intendente do prefeito da cidade, José Carlos Acevedo; e o Governador de Amambay, Ronald Acevedo, além do Deputado Nacional Robert Acevedo, conforme noticiou o Porã News.

Alex Aquino havia brigado na escola com outro adolescente, cunhado de Genaro. Ele foi capturado em casa, torturado, obrigado a cavar a própria sepultura e morto com um tiro na cabeça (fragmentos do crânio indicam o disparo, mas a polícia não conseguiu encontrar o projétil ou o cartucho). Depois de morto, o adolescente teve o corpo esquartejado e queimado. 

Uma testemunha chave que teria presenciado a execução violenta do estudante, gravada em vídeo no celular, confirmou o crime à polícia. Segundo informações, o corpo fora enterrado no Paraguai. No entanto, pressionado, Genaro teria recebido ordem de Salinas Ryguaçu, apontado como o chefe do PCC naquela região, para entregar o corpo e se apresentar na delegacia. Os pedaços do corpo foram encontrados em sacos plásticos dentro de um tambor, no rodoanel de Ponta Porã.

Na tarde de 12 de fevereiro deste ano, depois do encontro com o pai de Alex, Veras foi até a delegacia da Polícia Civil em Ponta Porã em busca de notícias sobre as investigações dos casos de Camargo e Romeiro. Em conversa com policiais, o caso de Alex Aquino foi lembrado como semelhante aos outros dois. Camargo estava em casa quando homens invadiram o imóvel e o levaram. Passava pouco das 16h do dia 16 de agosto de 2019. Horas depois, seu corpo foi encontrado desmembrado em três sacolas de lixo, em um descampado na cidade paraguaia de Sanga Puitã. O corpo de Romeiro ainda não foi encontrado.

Dias antes das mortes, um carregamento com 30 quilos de cocaína supostamente do PCC foi apreendido pela polícia paraguaia. Há suspeita de que os traficantes atribuíram às vítimas a responsabilidade pela perda do carregamento. Os dois crimes seguem sem solução. Na 2ª DP de Ponta Porã, onde a execução de Camargo é investigada, o delegado Pedro Guimarães Ramalho, recém-nomeado, mostrou o inquérito à equipe da Abraji. Seis meses após o crime, o inquérito nem sequer tem anexado o laudo da necrópsia. O delegado não soube responder sobre o desaparecimento de Romeiro.

Policiais paraguaios envolvidos na investigação sobre a morte de Veras apontam como um dos motivos para a morte do jornalista brasileiro a identificação do principal chefe do PCC na fronteira, o paraguaio Ederson Salinas Benitez, 32 anos, conhecido como Salinas Ryguaçu. Ele foi preso na madrugada de 20 de janeiro, na Avenida Brasil, em Ponta Porã, por policiais brasileiros, horas após a fuga de 75 presos da penitenciária Regional de Pedro Juan Caballero.

Salinas Ryguaçu estava em uma caminhonete Toyota SW4, com um primo, ambos armados com pistolas Glock 9 mm e R$ 17 mil em dinheiro. A dupla teria saído de uma festa, onde comemorava a fuga em massa de aliados, para comprar bebidas. Eles se envolveram em uma briga de trânsito, em uma das rotatórias da avenida, quando o motorista de um Gol ultrapassou a caminhonete de Salinas, xingando e mostrando uma arma. O chefe do PCC não gostou e seguiu o veículo, fechando-o em um cruzamento à frente. Salinas e o primo desceram com as armas em punho, imobilizando o outro motorista. Nesse instante, Salinas passou a gritar com o homem, dizendo que era o chefe e que mandava na região.

A discussão foi interrompida por policiais brasileiros, que faziam patrulhamento em busca de foragidos da penitenciária paraguaia, a sete quilômetros da fronteira com Ponta Porã. Levado à delegacia, Salinas apresentou identidade em nome de Edson Barbosa Salinas. Como não havia nada no histórico policial, o juiz de plantão arbitrou fiança de R$ 80 mil para liberar o suspeito.

Logo na manhã de 20 de janeiro, um advogado chegou à delegacia onde apresentou dez recibos de pagamento da fiança, cada um no valor de R$ 8 mil. Salinas estava pronto para deixar o cárcere pela porta da frente, mas uma informação repassada à Justiça pela Polícia Federal evitou a volta dele às ruas.
 
Os agentes da PF, com a auxílio da polícia paraguaia, confirmaram que o documento brasileiro era falso e que a verdadeira identidade do preso era a de Ederson Salinas Benitez. Na fronteira, apesar de a polícia brasileira não confirmar, circula a informação de que teria sido Léo Veras o responsável por alertar as autoridades sobre a verdadeira identidade do narcotraficante. O que teria levado Salinas a dar a ordem de execução do jornalista.

Casa do jornalista Leo Verás no Jardim Aurora, Pedro Juan Caballero | Foto: Angelina Nunes / Abraji

O jornalista estava sentado de costas para a porta, na mesa de madeira no centro da sala onde estavam a mulher, dois filhos, sobrinhos e os sogros. Estava tranquilo e não tinha relatado à família nenhuma ameaça de morte. Pouco depois das 20h, quando dois homens vestindo moletom preto, com os rostos cobertos — um com uma camisa preta e outro com uma touca ninja preta — passaram pela sogra do jornalista que estava sentada em uma cadeira na calçada e destravaram a pistola Glock 9 mm. O som metálico despertou a atenção da família.

Veras levantou-se e instintivamente correu em direção à porta dos fundos, que dá acesso a um pequeno quintal. Não há muro cercando o imóvel. Antes de alcançar a saída, foi atingido pelo primeiro disparo, sendo seguido por um dos pistoleiros. A família, atônita, ficou sob a mira do segundo pistoleiro e obrigada a ficar na sala com o rosto abaixado. Indefesos, os familiares contaram em silêncio a sequência de tiros desferidos contra Veras. Dezenove cápsulas e um projétil foram recolhidos no local e entregues à Polícia Nacional do Paraguai. O jornalista foi atingido por 12 disparos. 

A ação rápida, mas estridente, dos assassinos despertou a atenção da vizinhança, que correu à rua mal iluminada e encoberta por um calçamento irregular de pedras avermelhadas. Na tentativa de fuga pelos fundos da casa, o primeiro atirador chegou a balear o comparsa que estava entrando pela lateral do imóvel. A cena foi acompanhada à distância por uma testemunha, que não viu Veras cair em meio às hortaliças.

De longe, a testemunha viu o bandido arrastando o homem ferido para o carro, que partiu em disparada. Imaginando que o baleado levado fosse Veras, a testemunha alertou aos gritos à família: “Levaram o Veras no carro”. Em choque, a esposa do jornalista, Cíntia, saiu para a calçada, abraçada à filha e seguida pelo pai. Foram dez minutos de angústia e incerteza até que o filho de 11 anos gritou do quintal: “Papai está aqui!” Foi o caçula do jornalista que o encontrou em meio às hortaliças.

Veras estava caído, agonizando, mas ainda vivo e com um pano branco encobrindo parte do rosto próximo à boca, como uma mordaça (ilação feita por policiais brasileiros e pela família). Nesse momento chegou uma patrulha da polícia paraguaia. Ao perceberem que Veras ainda respirava, parentes e vizinhos pediram, sem sucesso, que os policiais o levassem ao hospital. 

Enquanto vizinhos buscavam um veículo para socorrer o jornalista, a filha se aproximou da cabeça do pai e pediu que ele apenas tentasse respirar: “Pai, nós te amamos”, disse a jovem. Veras foi levado no carro de um vizinho ao hospital, onde morreu pouco depois. 

Catorze dias após a execução do jornalista, sua família vive com medo. Há apenas quatro dias receberam proteção de três agentes, mas o medo de que os assassinos retornem continua. Além disso, eles convivem com a falta de dinheiro. Veras vivia de trabalhos como freelancer e do dinheiro que arrecadava com a venda de espaço publicitário no Porã News: cerca de R$ 3.500 por mês. No entanto, com a ausência do jornalista há a incerteza de que esse pagamento continue.

Para manter os dois filhos menores, Cíntia contava com R$ 150 que Veras havia lhe entregue dias antes de ser morto. O enterro do marido foi pago pela Câmara de Vereadores. Ao lado da sepultura, um jazigo da família de Veras, no Cemitério Cristo Rei, em Ponta Porã, ainda eram vistas uma semana depois da morte coroas de flores deixadas por amigos do Legislativo municipal e das polícias Civil e Militar, além de homenagens dos sindicatos dos jornalistas de Ponta Porã e de Pedro Juan Caballero.

Homenagens a Léo Veras ainda eram vistas no Cemitério de Ponta Porã após uma semana do enterro | Foto: Angelina Nunes / Abraji

Pistoleiro paraguaio ferido

Duas semanas após o assassinato do jornalista brasileiro Lourenço “Léo” Veras, em Pedro Juan Caballero, no Paraguai, familiares e vizinhos ainda não prestaram depoimento formal às autoridades paraguaias. Na operação que envolveu promotores e policiais do Paraguai na madrugada de 22 de fevereiro de 2020, quando prenderam dez suspeitos, foi apreendido um jipe branco Renegade que pode ter sido usado na execução de Veras.

Segundo imagens de câmeras de rua de Pedro Juan Caballero, um veículo semelhante esteve próximo ao bairro onde vivia o jornalista. Testemunhas relatam que de dentro dele saíram três homens e dentro ficou um motorista. Eles ouviram conversas em espanhol, português e guarani. A casa simples, sem muros, fica na esquina das ruas Ynambu com Ricardo Pockel. As portas e janelas estavam sempre abertas  Dois homens entraram pela porta da frente e o terceiro foi pela rua lateral.

Programa Tim Lopes

Todos os indícios da morte de Veras sugerem que ela esteja relacionada ao exercício da profissão. Por isso, o assassinato do jornalista será o terceiro a ser incluído no Programa Tim Lopes, desenvolvido pela Abraji, com o apoio da Open Society Foundations, para combater a violência contra jornalistas e a impunidade dos responsáveis.

Em caso de crimes ligados ao exercício da profissão, uma rede de veículos da mídia tradicional e independente é acionada para acompanhar as investigações e publicar reportagens sobre as denúncias em que o jornalista trabalhava até ser morto. Integram a rede hoje: Agência Pública, Correio (BA), O Globo, Poder 360, Ponte Jornalismo, Projeto Colabora, TV Aratu, TV Globo e Veja.
 
O assassinato do radialista Jefferson Pureza, de 39 anos, em Edealina Goiás, em 17 de janeiro de 2018, foi o primeiro caso acompanhado pelo programa. Ele foi morto enquanto descansava na varanda de sua casa. O ex- vereador José Eduardo Alves da Silva, de 41 anos, foi acusado de ser o mandante e, no julgamento ocorrido em 2019, ele optou pelo silêncio. Na ocasião foi julgado também o caseiro Marcelo Rodrigues dos Santos, de 40 anos, acusado de ter apresentado os menores envolvidos no crime ao vereador. Segundo as investigações, o assassinato foi negociado por R$ 5 mil e um revólver.

Em julgamento no dia 9 de dezembro de 2019, o júri popular absolveu dois acusados de envolvimento no crime, apesar de reconhecer a participação deles no caso e na corrupção de menores que praticaram o assassinato.

O segundo caso é do radialista Jairo de Sousa, de 43 anos, morto na madrugada de 21 de junho de 2018, com dois tiros no tórax quando chegava para trabalhar na rádio Pérola FM, em Bragança, no Pará. O suspeito de ser o mandante é o vereador Cesar Monteiro. Ele teria contratado um grupo de dez pessoas para realizar o crime. Segundo os autos do inquérito, o assassinato teria custado R$ 30 mil.

Em março de 2019, o vereador Cesar Monteiro teve a prisão preventiva revogada, após o Tribunal de Justiça do Pará conceder-lhe um habeas corpus. Ainda não há data marcada para o júri popular.

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