Jovem negro libertado pela Justiça de SP é recebido com rojões e festa em sua casa

31/07/19 por Mariana Ferrari, especial para Ponte

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A Ponte acompanhou com exclusividade a chegada de Igor Barcelos à periferia da zona norte de SP, depois de 2 anos e 8 meses na prisão: ‘é muita felicidade’

Igor Barcelos com o padrasto, José Tadeu, e a mãe, Elizabeth | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

A rua da casa de Igor, no Jardim Corisco, zona norte de São Paulo, estava movimentada. Crianças corriam, pessoas chegavam e rojões eram preparados para serem disparados na hora certa. “Que carro eles estão vindo?”, perguntava apreensivo um dos familiares. A casa respirava ansiedade e alegria. Logo na entrada, um pequeno cartaz dizia: “Igor, esse deve ser o melhor dia da sua vida.”

‘Melhor dia da sua vida’, dizia o cartaz na entrada da casa de Igor | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

Depois de 2 anos e 8 meses preso, Igor Barcelos Ortega, 22 anos, voltou para casa. Abalado, Igor recebeu abraços da família e dos amigos que preparam uma recepção calorosa para ele. “O coração não aguenta. É muita felicidade”, disse Igor à Ponte, que acompanhou com exclusividade a chegada dele. Tem alívio e alegria, mas muita dor diante da injustiça.

A movimentação na casa começou na noite anterior. Durante a madrugada, os parentes encheram balões, providenciaram um bolo e arrumaram uma mesa de boas-vindas. Às 7h, José Tadeu, padrasto do Igor, já soltava fogos pelo bairro.

Igor abraça o padrasto, José Tadeu, que preparou parte da festa com muito carinho | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

Atrás da mesa de boas-vindas, Igor tirou dezenas de fotos. Mas foi preciso uma única brechinha para ele sair correndo e entrar na casa. “Vou ver o meu quartinho”, ele disse, enquanto subia as escadas de concreto.
Depois da prisão de Igor, a saúde dos avós do jovem piorou. Os dois tiveram AVC e seguiam apreensivos com a chegada do neto. Dona Isalina contou que, na época, os médicos queriam interná-la, mas ela negou. “Eu não ia ficar no hospital até o Igor voltar”, disse, minutos antes de abraçar novamente o neto.

Igor com os avós e o irmão dele, Natanael: ‘vou cuidar deles, eles cuidaram de mim a vida toda, agora é minha vez’, disse | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

A Justiça de São Paulo revisou o caso nesta terça-feira, na capital paulista, e considerou que as provas precisam ser reavaliadas e que, embora Igor ainda não possa ser considerado inocente das acusações, merece responder e aguardar esse processo de reavaliação em liberdade.

“A gente acha excelente que eles sigam investigando e procurem confirmar qualquer dúvida que eles ainda tenham. Nós temos a plena convicção da inocência do Igor. É o que ele mais quer, ter um carimbo de inocência”, declarou a advogada Dora Cavalcanti, do Innocence Project, após a decisão. Dora presenteou Beth com a ida até o interior do estado para buscar o filho.

“Sensação de alegria, de alívio, de paz. [Ver Igor saindo] foi a minha maior emoção. Foi tudo para mim. Eu pedia para ele vir correndo”, disse Elizabeth à Ponte.

Na noite desta terça-feira (30/7), Elizabeth Barcelos, mãe do Igor, foi dar o primeiro abraço no filho na saída da Penitenciária de Irapuru, localizada no oeste paulista. “Ainda há esperança. Que a esperança nunca morra”, disse dona Beth minutos após o reencontro à equipe do Innocence Project. A organização sem fins lucrativos foi a responsável por questionar a condenação de Igor a 15 anos de prisão por roubo e tentativa de latrocínio, crimes ocorridos em 2016. A família sempre alegou inocência do jovem e deseja agora que ele seja inocentado.

Igor ainda não tem condições de falar sobre o que passou dentro do sistema prisional nos últimos anos e, sobretudo, do tempo que perdeu, mas com sorriso no rosto, confidenciou à Ponte que quer voltar a estudar e cursar uma faculdade.

Igor confidencia: ‘quero voltar a estudar e fazer uma faculdade’ | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

A família e os amigos organizaram um churrasco na tarde desta quarta-feira (31/7) para comemorar não o fim da batalha, mas essa importante vitória. “Agora, quero o nome dele limpo”, declarou Beth.

Relembre o caso

Em 2 de outubro de 2016, Igor foi levado ao Hospital São Luiz Gonzaga, no Jaçanã, zona norte de São Paulo, com um tiro no tornozelo esquerdo. Ele estava com um amigo e o irmão dele voltando de uma festa em duas motos, quando foram surpreendidos por disparos vindos de um carro que se aproximou do trio na avenida Sezefredo Fagundes, na zona norte de São Paulo, perto do Jardim Corisco.

No mesmo dia, PMs foram ao hospital, fotografaram Igor, que acabou reconhecido pelo dono de um automóvel Gol e de um aparelho celular roubados horas antes, na rua Monsenhor Paulo, Jardim Marilena, em Guarulhos, na Grande São Paulo. O rapaz foi acusado de participar do crime e também de uma suposta tentativa de latrocínio contra o soldado da PM Felipe Bruno dos Santos Pires, ocorrida na rua Pedro de Toledo, também em Guarulhos, logo após o roubo do carro.

Igor foi condenado a 15 anos de prisão pelos crimes em junho de 2017 e, desde então, a família luta para provar a inocência dele. A defesa de Igor contesta a perícia e as provas usadas para incriminá-lo. Uma delas é o reconhecimento que foi feito na época, que pode ter induzido a vítima a fazer um reconhecimento. Outro ponto é que o local onde Igor foi baleado e atendido fica a mais de 12 km de distância da rua onde houve o alegado roubo e tentativa de latrocínio contra o policial.

O processo foi transitado em julgado, ou seja, não cabia mais recurso. No entanto, com o pedido de revisão criminal a Justiça de SP decidiu conceder liberdade e reavaliar as provas. Assim, embora ainda não inocentado, Igor terá a chance de provar se foi vítima de uma injustiça.

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