Letalidade policial cai 18% em SP, mas ainda é a 4ª maior desde 1996

Segundo governo, número de policiais mortos nos 3 primeiros meses do ano subiu de 9 para 17; trimestre é o mais mortal para policiais desde 1999

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

As polícias do estado de São Paulo matou 18% menos nos três primeiros meses de 2018, em comparação ao mesmo período do ano passado. Foram 197 mortes – 192 pela PM e 5 pela Civil.  No primeiro trimestre de 2017, esse número chegou a 238. Por outro lado, é um número que ainda representa letalidade com média de duas pessoas mortas por dia pelo braço armado do Estado.

Esses indicadores foram divulgados pela SSP (Secretaria da Segurança Pública) nesta quarta-feira (25/4) e apontam, entre outros dados, as estatísticas de mortalidade no período de janeiro até março.

A última redução da letalidade tinha acontecido em 2013, quando 74 pessoas foram mortas pela polícia. Com os novos dados, o primeiro trimestre de 2018 é o quarto mais fatal desde 1996, início da contabilização feita pela SSP. Em 2014, subiu para 170 e foi a 201 tanto em 2015 quanto 2016.

Já o número de policiais mortos aumentou de 9 para 17. A maior parte deles – 9 PMs e 3 civis – estava de folga quando foi morta. Esse é o trimestre mais mortal para a polícia desde 1999, quando 21 policiais (16 militares e 5 civis) morreram.

A diretora-executiva do FBSP (Fórum Brasileiro de Segurança Pública), Samira Bueno, avalia que, embora os números sejam positivos, há que se observar a relação da letalidade com outras estatísticas criminais, como o roubo. “Boa parte dos casos de letalidade o policial se justifica em torno de uma perseguição, de que os criminosos atiraram e ele revidou à injusta agressão. Parece muito questionável apertar o gatilho e matar alguém para evitar o roubo de um veículo. Não há nada que justifique isso”, explica.

“Vinha em uma crescente [a letalidade] desde 2014, passou por uma pequena estabilização em 2015, mas de 2014 para cá os patamares estavam muito altos. Que essa seja uma mudança da própria corporação”, diz Samira. Segundo a especialista, o anúncio de que o coronel Marcelo Vieira Salles assumirá o comando da PM no lugar de Nivaldo Restivo é outro indicativo dessa possível tentativa de combater a alta letalidade das polícias. “O futuro comandante se mostra progressista. Podemos estar diante de uma mudança de postura da organização ao sinalizar com um comandante que trata direitos humanos como inegociáveis. É importante uma liderança verbalizar isso”, argumenta.

Mortalidade de PMs aumenta

Levando em consideração o levantamento histórico da SSP, o primeiro trimestre deste ano é o segundo mais fatal desde 1996 para os policiais, com 17 mortos, atrás somente de 1999. Os dados coletados pela Secretaria iniciam a contagem de PMs e policiais civis mortos em serviço apenas no ano passado, divulgando anteriormente só os policiais mortos em serviço. Esta estatística é feita separadamente pelo FBSP desde 2001.

Já pelos dados do Fórum, o total de policiais mortos nos três primeiros meses de 2018 representa o segundo período menos mortal para agentes do Estado neste século, atrás somente de 2017, quando 9 morreram (7 PMs, 2 civis). O ano com primeiro trimestre mais letal registrado foi 2004, com 36 baixas (33 PMs e 3 civis).

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

São duas as explicações para a mortalidade de policiais, de acordo com Samira: quando os agentes reagem a um crime ou quando estão fazendo ‘bico’. “Sabemos que a corporação é capaz de proteger o policial quando ele está de serviço, fardado, com apoio e rádio, mas não consegue garantir fora dessa circunstância. De um lado, tem o imaginário dele ser policial 24 horas, de ser o herói e colocarem na cabeça do cara que ele tem que resolver todos os problemas. E, com os baixos salários, eles são forçados a fazerem bico, sem apoio e desprotegido”, avalia.

A diretora executiva do FBSP destaca que, nesse cenário, os praças (soldados, cabos e sargentos) são as principais vítimas, por serem PMs com salários baixos e precisarem complementar suas rendas nos bicos. Em ambos os casos, as mortes são contabilizadas como latrocínio, o roubo seguido de morte. “A questão é: é assassinato ou morte em um segundo trabalho? Quando é estatística de policiais em serviço, tem também mortes em acidentes de trânsito. É uma caixa preta que se sabe pouco”, critica.

“Ninguém tem uma profissão e precisa exercê-la 24 horas e eles não têm que ser. No momento em que se põe isto como uma obrigação para o profissional, ele passa a andar armado o tempo todo. E vai achar que precisa reagir. Traz essa sensação de que estar armado é se proteger, mas não é”, conclui.

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