Liderança comunitária perde a visão de um olho após ser atingida por bala de borracha em Piracicaba (SP)

Joseane da Silva Souza foi atinginda no olho direito em 10 de julho, após a final da Copa América, por guardas civis da cidade. “Se não tomarmos as medidas necessárias eles não vão parar”, diz vice-presidente da Câmara de Vereadores

Joseane da Silva Souza, 42 anos foi atingida por bala de borracha e perdeu o olho diraito em 10 de julho | Foto: Karina Iliescu

No dia 10 de julho, logo após o Brasil perder a final da Copa América para a Argentina, por volta das 22h30, Joseane da Silva Souza, 42 anos, foi surpreendida por um tiro de bala de borracha disparado por um guarda civil no momento em que saia da casa de um vizinho na Comunidade Portelinha, em Piracicaba, interior de São Paulo. O disparo atingiu seu rosto e resultou na perda completa do seu globo ocular direito.

Um vídeo que circulou nas redes sociais traz Joseane gritando em desespero pela rua, segundos depois de ser alvejada por guardas da Romu (Ronda Ostensiva Municipal) sem qualquer justificativa ou abordagem anterior: “meu Deus do céu, eu estou cega”.

A vítima relata que pediu socorro aos guardas, mas que foi ignorada, enquanto alegavam que ela não havia sido atingida no olho. Joseane também conta que quem prestou socorro imediato foi um morador da Portelinha, que não a conhecia, mas que se solidarizou com a situação quando passou na rua no momento da agressão. 

Segundo Joseane, os guardas tentaram impedir que o morador a socorresse, o que gerou uma discussão. Os guardas afirmavam que seu ferimento era superficial e em seguida colocaram a vítima dentro da viatura para levá-la ao pronto socorro Vila Cristina, no bairro Jaraguá. O morador que socorreu a vítima insistiu em acompanhá-la, mas os guardas negaram a possibilidade e, no caminho, não permitiram que ela pudesse entrar em contato com alguém de sua família. 

A vítima diz que foi atendida pelo médico de plantão, que afirmou que não havia o que fazer com a sua visão, que não tinha como interná-la pois já havia perdido o olho, mas que a encaminharia para a Santa Casa mais próxima. Os guardas teriam discutido com o médico, alegando que ela não teria perdido a visão, porém o médico insistiu que o olho dela havia sido perdido por completo e sem qualquer possibilidade de restauração. 

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Naquele dia, Joseane só encontrou seus  familiares quando já estava na Santa Casa. Sua filha relatou que guardas civis foram explicar o ocorrido sem muitas justificativas, mas que não seriam os mesmos do grupo que efetuou o disparo. O descaso continuou nos dias seguintes. Juliane Martins de Oliveira, psicóloga que está fazendo o acompanhamento do caso de Joseane, conta que no dia 15 de julho a líder comunitária ficou das 9h até as 20h aguardando no pronto socorro da Vila Cristina uma ambulância que a levaria ao Hospital dos Fornecedores de Cana, onde faria uma cirurgia para retirada do globo ocular – o procedimento só foi realizado no dia seguinte.

Joseane com a munição que atingiu seu olho | Foto: Karina Iliescu

Joseane se mudou para a favela Portelinha há 15 anos e trabalha há oito anos como auxiliar de serviços gerais no Case (Centro de Atendimento Socioeducativo de Piracicaba), serviço de educação complementar infantil da Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (Smads). Com ajuda do colega de trabalho Ubirajara Cristiano de Barros Sabino, presidente da Casa do Hip-Hop de Piracicaba, um centro cultural voltado para a cultura de rua localizado no bairro Paulicéia, zona sul de Piracicaba, onde Joseane também é voluntária, começou a organizar a distribuição de alimentos na Portelinha.

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Durante a pandemia, Joseane e suas filhas realizaram ações no bairro para conscientizar os moradores da Portelinha sobre os perigos do coronavírus e também forneceram os itens básicos de higiene para o cuidado coletivo da comunidade, em ações também com o apoio de insumos da Casa do Hip-Hop.. 

O vice-presidente da Câmara de Vereadores de Piracicaba, Acácio Godoy (PP) diz que, a pedido da representante legal da Joseane, a advogada e presidente do Conselho da Mulher de Piracicaba Lia Mara Oliveria, realizou uma reunião com do seu gabinete com a vítima, Acácio, a vereadora Ana Pavão (PL) representando a Procuradoria da Mulher e Agnaldo Benedito de Oliveira e Luciano Alves Lima, representantes do Centro de Documentação Cultura e Politicas Negra de Piracicaba e do Conselho Estadual de Participação e Desenvolvimento da Comunidade Negra.

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O grupo prometeu a realização de audiência pública com o comando da Guarda Municipal e deve encaminhar ofícios à Secretaria de Saúde do município pedindo explicações sobre os procedimentos de atendimento da Joseane, que relatou diversas dificuldades na hora de passar pela cirurgia de retirada do globo ocular.

“Se não tomarmos as medidas necessárias eles não vão parar porque acham que ninguém está olhando. Queremos saber quantas armas dispararam, quem estava portando essas armas, então vamos afunilando até chegar no autor dos disparos. Queremos criar procedimentos para que nunca mais isso ocorra” relata o vereador.

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“Talvez se ele [guarda] estivesse subindo a rua de um condomínio fechado, mesmo sob fogo inimigo, não teria o ânimo de disparar de forma aleatória como fez na Portelinha, pelo risco mínimo de atingir algum morador daquela região”, conclui o parlamentar.

Outro lado

A Ponte questionou a Guarda Civil de Piracicaba sobre a operação na Portelinha, que em nota informou que “segundo registrado em Boletim de Ocorrência, os guardas foram recebidos com pedras e garrafas e tiveram de usar o elastômero (bala de borracha)” […] os guardas foram solicitados por uma moradora que apresentava ferimento e foi socorrida. O comando da GC informa que irá encaminhar BO à Corregedoria para apuração das circunstâncias.”

Até o momento da presente publicação a Secretaria de Segurança Pública não havia respondido nossos questionamentos.

A Prefeitura de Piracicaba, até o momento da publicação, não prestou nenhuma nota sobre o acontecimento.

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