Livro sobre cristianismo e direitos humanos é lançado em SP

20/12/18 por Paloma Vasconcelos

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‘Jesus e os direitos humanos’ reúne dez textos assinados por pastores e estudiosos, e mostra as semelhanças entre os discursos de Cristo e dos defensores de direitos humanos

Ronilso Pacheco, Andreia Fernandes, Patricia Bezerra e Alexandre Brasil Fonseca | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte Jornalismo

Organizado pelo teólogo e pastor Ronilso Pacheco, ‘Jesus e os direitos humanos’ é o primeiro livro do projeto Usina de Valores, do Instituto Vladimir Herzog, lançado em março deste ano com o intuito de ampliar a discussão da defesa de direitos humanos nas periferias de São Paulo, Rio de Janeiro e Recife.

O local do lançamento foi escolhido a dedo: uma das igrejas do Exército da Salvação, uma das maiores instituições beneficentes do mundo, denominada como cristã protestante. Nas palavras do Major Maruilson Souza, Secretário Nacional de Educação do Exército de Salvação no Brasil, a sede do Bosque da Saúde deve ser local de resistência a partir do ano que vem, com a posse de Jair Bolsonaro (PSL).

Antes do debate, que contou com a presença da vereadora e psicóloga Patricia Bezerra, do sociólogo e professor da Universidade Federal do Rio de Janeiro Alexandre Brasil Fonseca, da professora e pastora metodista Andreia Fernandes e teve mediação de Ronilso Pacheco, o diretor executivo do Instituto Vladimir Herzog, Rogério Sottili, contou o que levou a entidade a montar o Usina de Valores e lançar o primeiro livro.

Ele explica que, por causa do cenário político dos últimos anos, o instituto percebeu que precisava começar a dialogar com um público diferente do que estava acostumado, para assim ajudar a promover uma cultura de paz, solidariedade, amor e não-violência. “A primeira questão levantada foi a seguinte: não dá para gente ficar falando só para nós mesmos, temos que falar para pessoas que a gente não está acostumado a falar, pessoas que a gente desconhece”, defende.

Para Rogério, a história do instituto sempre teve uma ligação com as religiões. “Quando Vladmir Herzog foi assassinado pela Ditadura Militar, o primeiro ato público foi um ato ecumênico, feito na Praça da Sé, e contou com representantes das mais diversas religiões. Por conta disso, a ditadura começou a sofrer uma grande pressão. A partir desse pensamento, começamos a pensar em como podíamos conversar com esse público importante que é o público evangélico, que está crescendo muito. E a gente sabe que há um setor dentro do meio evangélico muito preocupado com os direitos humanos, com o que vem acontecendo no Brasil”, explica Sottili.

Durante o debate, em uma fala que emocionou a plateia, a professora e pastora Andreia Fernandes, uma das autoras do livro, pediu que a Igreja, enquanto instituição, passasse a pensar em gênero como foma de proteger a mulher. “A gente precisa lembrar que direitos humanos também são direitos das mulheres”, começava o discurso de Andreia.

Para ela, o livro é um convite para pessoas que acreditam que os valores de Cristo estão dissociados da defesa dos direitos humanos. “A gente sabe que ideologia de gênero é uma furada, não existe. A gente sabe que direitos humanos não é defender bandido. Esse livro é um convite para que a gente convide outras pessoas e tenha paciência para caminhar a segunda milha. Caminhar a segunda milha com a igreja que está fechada as temáticas da vida, uma igreja que preferiu ficar dentro do templo enquanto Jesus de Nazaré andava pelas periferias, uma igreja que fecha as portas para gênero e para direitos humanos. Eu fico pensando que se a porta tá fechada, se tá difícil abrir a porta, a gente tem que encontrar as brechas. É pelas brechas que a instituição respira, é pelas brechas que a instituição se desloca”, continua a pastora.

Depois, o discurso de Andreia passou a ser feito diretamente para a omissão da Igreja quanto a violência física e sexual da mulher. Usando de exemplo de Damares Alves, futura ministra de Mulheres, Família e Direitos Humanos, do governo de Bolsonaro, que foi vítima de uma série de estupros durante a infância. “Eu gosto de ser aquela que encontra as brechas para que a gente converse da vida e da dor que toca a gente. Quando a gente fala das dores, a gente fala de Jesus em cima da goiabeira. A igreja se comove com o fato de Jesus estar em cima da goiabeira, a igreja vibra com o fato de Jesus estar em cima da goiabeira. Mas a igreja não se indigna, não se movimenta em saber por que que tem menina em cima da goiabeira. Por que tem sacerdote, por que tem homem macho e evangélico que vem de terno e gravata para a igreja, mas que tá abusando de menina e de mulher”, entona a pastora.

Para Fernandes, é nesse momento que a igreja precisa abrir as portas para a discussão de gênero. “O problema não é a aparição sobrenatural de Jesus lá na goiabeira, o problema é a não aparição de ninguém em carne e osso para ajudar quem está refugiado em cima da goiabeira. E a gente não aparece não. A gente fala da menina que engravidou, a gente fala da menina que dá pra todo mundo, a gente fala do menino que come todo mundo, mas a gente não aparece quando a pessoa está totalmente violentada”, defende.

Andreia vai além e defende o direito ao estado laico, mostrando como o discurso religioso e referindo-se ao projeto “bolsa estupro” da futura ministra. “A gente precisa falar de gênero e direitos humanos quando a mesma pessoa que estava em cima da goiabeira, ao mesmo tempo que vota a favor da redução da maioridade penal, ela diz que a violência de uma gravidez indesejada dura pouco tempo, quando se recusa a discutir aborto como uma questão de saúde pública. Se a igreja quer se opor, e que seja assim, que ela atue sobre a saúde sexual de meninas e meninos. Não que ela legisle em temas que não lhe competem, porque diploma de teologia não dá diploma de psicologia e de medicina”, finaliza Andreia.

Livro ‘Jesus e os direitos humanos’ | Foto: Paloma Vasconcelos/Ponte

Para Patricia Bezerra (PSDB), vereadora e ex-secretária de Direitos Humanos de São Paulo, falar sobre esse tema é falar de amor.  “Jesus, sendo rei, abriu mão do poder e se tornou homem. O poder é uma coisa complicada para nós, seres humanos, para todos nós. Quem é detentor do poder, é detentor do poder de manipulação, por conta disso temos uma distorção nos nossos ensinamentos e isso acaba se perpetuando em nossas atitudes. Direitos humanos para mim tem essa ligação com Jesus, pois como princípio Jesus abriu mão do poder. Se a gente quiser fazer alguma coisa em relação aos direitos humanos a gente tem, cada vez mais, que abrir mão do poder, pois ele é extremamente sedutor, mas não existe poder mais maior e mais transformador do que o amor”, finaliza a vereadora.

Em entrevista à Ponte, Ronilso explicou que, apesar de não ser sido feito pensando na eleição de Bolsonaro, o livro ganhará mais força. “Agora [o livro] ganha uma dimensão muito maior. Ele entra, querendo ou não, dentro de uma disputa do imaginário evangélico. De alguma forma a gente está posicionando o espectro evangélico dentro desse lugar que também tem a ver com a valorização da vida, com a defesa dos direitos humanos. A gente tá evocando histórias de evangélicos que lutaram contra a ditadura, que se levantou contra a escravidão, contra a desigualdade social no Brasil. Contamos histórias de evangélicos sem mídia, sem sucesso, à margem, mas que sempre viu que no evangelho tem uma coerência com a justiça. Então esse livro surgiu pra isso, um projeto simples de fazer essa associação da vida de Jesus e como isso se materializa com aquilo que conhecemos como direitos humanos”, defende o pastor.

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