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Maior desafio foi construir minha masculinidade sem referência, afirma quadrinista trans

19/07/20 por Caê Vasconcelos

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Criador do quadrinho “Monstrans”, Lino de Arruda já se identificou como “lésbica” e depois se entendeu uma “pessoa não-binária”, além de vivenciar a deficiência física

Foto: Arquivo pessoal/Instagram

O quadrinista Lino Arruda, 34 anos, cruzou muitas lutas para chegar até aqui. Durante anos, sua luta foi enquanto mulher lésbica. Mas, desde 2013, ele vivencia o mundo como uma pessoa não-binária transmasculina — quem não se encaixa na binaridade dos sexos (homem ou mulher), mas que reivindica o gênero masculino.

Nascido em Campinas, interior do estado de São Paulo, Lino se mudou para a capital paulista em 2010 para cursar mestrado em História da Arte na USP (Universidade de São Paulo). Apesar de sempre ter tido certeza de ser uma “criança lésbica”, foi em SP que ele encontrou o seu lugar nos movimentos lésbicos da cidade.

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Aliás, foi a vivência enquanto lésbica que fez Lino entrar para o mundo dos quadrinhos. Seu primeiro trabalho, o Sapatoons, contava histórias que ele e as amigas vivenciavam em uma sociedade machista e lesbofóbica.

Seu atual projeto, o “Monstrans: experimentando horrormônios“, uma publicação autobiográfica originada de sua tese de doutorado em Literatura, ganhou as redes sociais em junho, mês que se comemora o Dia Internacional do Orgulho LGBT+, mas é só um spoiler do que está por vir: vencedor do Rumos Itaú, Lino publicará tudo em uma HQ física em 2021.

Desde muito cedo, o artista aprendeu a lidar com outro preconceito: ele nasceu com uma deficiência congênita nas pernas. Apesar disso, ele dá o recado: “Sempre querem me encaixar em uma narrativa de nascer menina, odiar meu corpo… narrativas de sofrimento. Mas não é só isso que existe. Temos muitas outras narrativas”, avalia.

Confira a entrevista:

Ponte – Como surgiu o Monstrans?

Lino – O Monstrans é um desdobramento da minha tese de doutorado em Literatura. Como eu trabalhei com zines de pessoas trans e travestis eu queria dar uma contribuição com esse trabalho acadêmico e fiz a tese contando uma história pessoal e autobiográfica sobre uma visita que eu fiz ao meu avô e ele não me reconheceu por conta das transformações hormonais. Aí ganhei o edital do Rumos para transformar isso em livro. Ele vai ser publicado no ano que vem e são três histórias autobiográficas que relacionam deficiência, lesbianidade e transmasculinidade.

Ponte – E qual foi o caminho que você traçou até aqui?

Lino – Na minha trajetória pessoal, eu sempre fui uma pessoa masculina, eu era a lésbica do colégio. Eu venho de um lugar de muita violência enquanto lésbica, de falta de referência, crescendo em uma cidade do interior para, então, só aos 20 anos, encontrar uma comunidade, encontrar outras lésbicas, criar essa identidade de forma empoderadora. E aí, depois, parece que é uma sabotagem, quando você finalmente encontra esse pertencimento fazer esse outro caminho da transição. Eu não me identifico como homem trans e sim como pessoa transmasculina. O que eu vejo, principalmente no movimento mais consolidado de homens trans, é que existe uma grande questão em relação a lesbianidade. Um pouco se afirmando pelo discurso biomédico de que você nasceu trans, de que você sempre foi assim. O discurso médico patologiza dessa forma.

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Você precisa ter uma identidade muito coerente desde sempre para provar que você é trans e não vai se arrepender. A gente vê um forte rechaço dos homens trans em relação a sua lesbianidade. Alguns dizem que nunca foram lésbicas. Essa é uma narrativa super viável, não estou desvalidando ela, mas ela acabou sendo a única, acabou impossibilitando uma multiplicidade das narrativas. Eu transicionei mais tarde, em 2013, tinha 27 anos quando comecei a tomar hormônios e não conhecia ninguém que era trans. Hoje temos mais referências, para bem ou para mal. Quando eu comecei a hormonização eu não me identificava como trans porque eu não tinha essa referência, não tinha motivo para eu me desfazer da minha comunidade, do meu lugar, para ir para um não-lugar. 

Eu fiquei fazendo tratamento hormonal por dois anos, ilegalmente, a maior parte foi injetável que eu mesma aplicava, com material comprado de forma ilegal. E seguia me identificando como sapatão. Claro que, dentro da comunidade, muitas pessoas tiveram uma resistência de aceitar isso, mas de uma forma geral a masculinidade lésbica está dentro do movimento sapatão, então ali existia uma permissividade. Até que, na minha vivência, eu via que as coisas pelas quais eu passava eram muito diferentes das vivências das minhas amigas.

Reprodução: Monstrans

Esse momento está no meu quadrinho, de entender a masculinidade lésbica e a masculinidade trans. Não que elas sejam antagônicas, mas elas se divergem na minha trajetória pessoal. Temos tão pouca referência de homens trans e de pessoas transmasculinas que é importante explicar que não é uma categoria igual. Esse é um dos temas principais do meu trabalho, mostrar o quanto da minha pessoa como lésbica forma a minha pessoa transmasculina de hoje.

Ponte – Qual foi o seu maior medo para se entender uma pessoa trans?

Lino – Em um primeiro momento, eu entendi muito como uma auto sabotagem. Eu já me via tão precarizado no âmbito das relações familiares e sexo-afetivas, já me via uma pessoa muito machucada e com muitas dificuldades. Por outro lado, a dificuldade de assumir um desejo por uma masculinidade, no meu repertório, vindo de um rolê lésbico e criávamos muito essa figura do inimigo, que é o homem, e toda masculinidade a gente depositava ali. Então, assumir o desejo por uma masculinidade que escapasse àquela era ter que construir um imaginário que não existia.

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Não existia essa possibilidade. Então eu precisava ser lésbica para ser masculina de outra forma. A gente vive, enquanto homens trans, transmasculinos, com essa ausência de materialidade. Homem trans é um nome que ninguém nunca ouviu, são corpos invisíveis e indizíveis. Tem tudo por construir. Era um desejo por uma masculinidade que eu não conseguia mais negar e só foi se configurando durante o processo. Eu sempre falo isso para as pessoas que querem assumir uma identidade trans, mas se sentem farsas, eu sempre digo: você não precisa decidir isso para si, mesmo que o mundo te cobre. Se você não tem essa resposta para si, comece o processo de transição, seja de mudança de nome ou hormônio, a partir daí você vai entender a relação com o seu corpo e, talvez depois, você consiga ter essas respostas que o mundo está te cobrando. O mais importante é você entender internamente esse desejo e construir essa masculinidade que a gente já tem.

Ponte – O que veio antes na sua vida? Os quadrinhos, a sexualidade ou a identidade de gênero?

Lino – Eu sinto que eu sempre fui lésbica, desde criança. Não teve muita brecha em relação a sexualidade, já era isso antes mesmo de ter um nome. Como eu vim do interior, não se falava muito disso na escola, então eu sinto que construí a lesbianidade muito solitariamente. Aos 20 e poucos anos, quando fui para a cidade de São Paulo e comecei a construir essas redes, eu quis um pouco me vingar desse momento de falta de referência. Meu mestrado foi em História da Arte e vi que as nossas histórias, enquanto LGBTs, não estavam representadas nos cinemas, nas novelas. Eu via principalmente que as pessoas abordavam a lesbianidade do ponto de vista do casal, com quem você namora, com quem você faz sexo, como se fosse uma pessoa entre as quatro paredes do quarto e outra pessoa nas outras áreas da vida. Eu queria mostrar a lesbianidade no cotidiano.

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Eu não sou dos quadrinhos, optei por esse mundo porque sentia essa urgência de contar essas histórias de um jeito fácil, que só depende de mim. É sentar e desenhar. Os meus primeiros quadrinhos são bem precários. Mas comecei para materializar uma cultura imaterial. O primeiro quadrinho que eu desenhei, uma tirinha simples, que mostra um amigo, que hoje é um homem trans, que me contou que sempre pegava o mesmo ônibus para ir para escola e sempre que entrava no ônibus as pessoas faziam o sinal da cruz. Na época, ela ficava pensando “como eles sabem que eu sou lésbica?”. Anos depois, ela foi perceber que pegava o ônibus em frente a uma igreja. Essa história representa muito o que é ser lésbica no cotidiano. Isso resume porque eu quis ir para os quadrinhos.

Reprodução: Monstrans

Aí comecei a fazer o “Sapatoons”, sempre em colaboração com as minhas amigas, colocando elas para desenhar ou desenhando as histórias delas. Era um projeto bem descentrado da minha pessoa, era um projeto para e pela comunidade lésbica. Com a transição eu mudei o nome do zine de “Sapatoons” para “Que merda”. Ele passou, então, a ser um zine focado em transmasculinidade, apesar que o primeiro “Sapatoons” foi feito por uma pessoa transmasculina junto comigo. A lesbianidade e a transexualidade caminham juntas muitas vezes. O quadrinho ficou mais centrado em demandas trans, mas também trazia a vivência lésbica.

Ponte – Você também tem a questão da deficiência na sua trajetória. Como fazer todas essas lutas e vivências conversaram entre si?

Lino – Eu consigo te falar todos os aspectos cronológicos, teóricos, conceituais sobre lesbianidade, transexualidade e gênero, mas a deficiência é algo que, só recentemente, eu comecei a conseguir falar e me identificar. Eu nasci com uma deficiência congênita nas pernas. Minha mãe sofreu um acidente de carro e esse acidente entortou minhas pernas e minha bacia, então eu nasci com uma deficiência não visível. Eu teria que operar quando era bebê, mas minha mãe não deixou operar nem passar por tratamentos invasivos. Quando eu fui aprendendo a andar, não conseguia, porque um pé batia no outro, então tinha que levantar o pé para conseguir. Depois, eles [meus pais] foram buscando tratamento. Então eu faço tratamento e tenho dor crônica desde sempre. 

Ponte – É a forma que a sociedade enxerga quem tem deficiência, né?

Lino – É feio ser deficiente, né? É algo que você tem que esconder ao máximo. Você só pode assumir que é deficiente quando não tem mais jeito ou quando é extremamente visível e você não pode esconder. Na minha infância isso era muito visível e depois ficou menos aparente. Agora, que estou com 34 anos, tenho dores crônicas mais agudas e, há dois anos, comecei a andar de bengala e ficou visível de novo. É como se eu estivesse revisitando um momento da minha infância. Eu sempre fiquei em tratamento durante todos esses anos. É algo que está diariamente na minha vida. Mas só agora fui entender que não era errado falar sobre isso. Às vezes preciso andar de cadeira de rodas e as pessoas ficam muito chocadas, porque você nunca deve andar de cadeira de rodas a não ser que você não tenha outra escolha. Muitas vezes eu consigo ir nos lugares, mas não consigo voltar, então uso cadeira de rodas nesses momentos. Meus ossos saem das cavidades.

Ponte – E como isso entra na sua HQ?

Lino Durante os meus tratamentos essas questões, de lesbianidade e transexualidade, já estavam lá. A deficiência, quando você é uma criança visualmente deficiente, tange o gênero. As pessoas deficientes são vistas como assexuais, tem muita repressão de pessoas deficientes que querem ter filhos, as pessoas deficientes são muito estupradas e tem uma questão de que a deficiência vem antes e o gênero depois. O gênero não consegue chegar lá porque a gente não consegue ser gente, dependendo de como a deficiência se manifesta. Eu me lembro de uma vez que o meu pai disse durante uma refeição quando eu era criança: “hoje eu vi uma mulher tão bonita, mas tão bonita, pena que estava de cadeira de rodas”. Isso já era uma mensagem para mim, que eu tinha que me cuidar.

Ponte – Como é estar no universo dos quadrinhos?

Lino Eu não me sinto no mundo dos quadrinhos. Eu comecei fazendo para as lésbicas, não para o mundo dos quadrinhos. Eu tenho tentado me inserir agora, nas bancas e congressos de quadrinistas. O que eu tenho sentido é que existem iniciativas muito bacanas, como a Poc Con, que reúnem um leque de pessoas LGBTs. Na minha trajetória, eu não consigo e não quero tentar me inserir enquanto homem nos quadrinhos. O que eu comunico é para a minha comunidade.

Reprodução: Monstrans

Não quero ser lido como um homem cis, você tem que vir de um lugar de homem cis que eu já não vim, eu fui mulher e lésbica 95% da minha vida. Sendo mulher, eu fiz parte da construção de um movimento autônomo, lésbico e separatista em relação a espaços só para mulheres. Agora eu não posso mais participar disso. Tem exposições só para as mulheres, que finalmente abarcam mulheres trans e travestis. Somos deixados para trás enquanto homens trans.

Ponte – Tem poucos espaços para as pessoas transmasculinas e homens trans…

Lino – Eu estou tentando aprender a lidar com tudo, principalmente com as entrevistas, porque eu venho de um lugar de privilégio de só ter dialogado com quem entende as vivências trans. Venho muito mimado. Sempre querem me encaixar em uma narrativa de nascer menina, odiar meu corpo, só narrativas de sofrimento. Mas não é só isso que existe. Temos muitas outra narrativas.

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O movimento negro, desde sempre, fez as melhores intersecções em relação ao movimento trans. Quando não estava em pauta as vidas trans, o feminismo negro, que não é reconhecido pelas lésbicas brancas, sempre pautou transmasculinidade e transfeminismo. Faz muito sentido que em lugares como o slam tenhamos mais espaço para pessoas trans.

Ponte – Isso se reflete muito nos discursos da J.K. Rowling, por exemplo, que tem se mostrado muito transfóbica, enquanto a Angela Davis sempre defendeu a população trans.

Lino – Totalmente. O feminismo negro está muito à frente das pautas, porque a interseccionalidade é muito potente.

Matéria atualizada às 14h40 do dia 19/7 para incluir mais quadrinhos de Lino

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