Marcha da Consciência Negra reafirma resistência e homenageia Marielle e Mestre Moa

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Na 15ª edição da marcha, movimentos e lideranças ligadas à negritude ocupam centro de SP para reverenciar a ancestralidade e reforçar que ‘existir sempre foi e continuará sendo resistir’

Grupos religiosos de matriz africana marcaram presença para denunciar frequentes ataques aos terreiros | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Os orixás abriram caminho para a 15ª edição da Marcha da Consciência Negra passar na avenida Paulista, em São Paulo, nesta terça-feira (20/11). Milhares de pessoas ligadas a diversos movimentos que encontram eco na pauta da negritudes estiveram presentes. Nos discursos, nos corpos e nos cartazes, muitas homenagens para os que morreram lutando, como Marielle Franco e Mestre Moa do Katendê, e o recado para que não reste dúvida: ‘existir, para nós, negros, sempre foi e continuará sendo resistir”.

Marielle Franco foi uma das grandes homenageadas da marcha | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Sob o som de berimbaus, tambores, palmas e pontos da umbanda e do candomblé, a passeata desceu a rua da Consolação e seguiu até o Teatro Municipal, onde aconteceu a dispersão. Um dos cantos ouvidos de maneira recorrente dizia que “hoje o quilombo vem dizer, a rua vem dizer, favela vem dizer que é nós por nós”.

Pontos de umbanda e candomblé abriram os caminhos para a marcha passar | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

No carro de som, lideranças se revezavam em discursos contundentes e emocionados. “Em março, nos levaram Marielle Franco. Ela representava uma mulher que desafiava as estruturas, que não se dobrou ao poder, que levou as lutas do povo preto brasileiro e as demandas da Maré. Eu dedico a minha fala a ela”, declarou Simone Nascimento, do RUA Juventude Anticapitalista. “Queria pedir pra vocês: ninguém solta a mão de ninguém, porque 2019 não vai ser fácil. Mas a nossa história é de resistência. Nós somos um povo de muita resistência desde quando o primeiro de nós foi sequestrado e trazido para o Brasil. É um quinto da população da África que vive aqui. A gente precisa revisitar a resistência e a história de luta do povo negro”, disse.

Movimento que deuncia o encarceramento em massa também foi dar seu recado | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

A jornalista e ativista do Movimento Negro Unificado Luka Franca destacou que ainda estamos vivendo na democracia e por isso mesmo é importante que manifestações como a Marcha da Consciência Negra aconteçam. “Na ditadura ficou proibido falar sobre racismo. E agora a gente está aqui e a gente precisa lembrar que na periferia um jovem negro leva um tiro por ser negro. A gente está aqui por cada mochila revistada, pelo jovem que vive no tráfico ceifado pela pobreza e acaba encarcerado e esquecido. A gente está aqui pelo garçom que foi morto no Rio por estar esperando a mulher com um guarda-chuva que a polícia achou que era um fuzil. A gente precisa lutar por uma sociedade sem preconceito racial”, afirmou.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

A assistente social Jaqueline Siriaco, 23 anos, estava com a filha Livia no colo e, embora não ligada especificamente a nenhum movimento, afirmou que fez questão de marcar a data com a presença na marcha. “A importância de estar aqui tem a ver com a representatividade, a resistência, ainda mais em tempos difíceis que estamos. Estar junto com o povo preto é se fortalecer. E trouxe a pequena comigo para desde cedo ela saber que o lado certo é o da luta”, disse.

A assistente social Jaqueline e a pequena Lívia | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Grupos de capoeiristas marcaram presença para homenagear Mestre Moa do Katendê, assassinado logo após o primeiro turno das eleições por um apoiador do agora presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL). Para o capoeirista Ednaldo Chocolate, do Centro de Capoeira Angola Angoleiro Sim Sinhô, do Mestre Plínio, estar na marcha é reafirmar a ancestralidade da capoeira e a importância de reverenciar os mais velhos, os que ainda estão e os que já se foram, como Mestre Moa. “A capoeira é o próprio movimento de resistência, desde sempre, desde a sua existência. Desde quando os africanos foram trazidos a força para cá, essa resistência já se dá dentro do navio. Ela se modifica, mas as raízes são africanas e indígenas”, explica.

Ednaldo conta que, se Mestre Moa estivesse vivo, faria questão de estar cantando e tocando na manifestação. “A gente estar aqui é também manifestar a presença dele. Ele sempre dizia que a gente tem que seguir e valorizar a nossa cultura, nossos ancestrais. Então eu sinto que essa homenagem é reafirmar as raízes, porque Mestre Moa morreu por ela, morreu lutando pela nossa cultura, pela nossa história e a gente sempre vai falar dele, sim”, concluiu.

Além de Mestre Moa do Katendê e Marielle Franco, uma das principais faixas do ato com a inscrição XV Marcha da Consciência Negra em SP trazia fotos de Dandara e Zumbi dos Palmares, resistências históricas, e de Charlione Lessa Albuquerque, jovem negro de 23 anos que foi assassinado, em Fortaleza, na véspera do segundo turno por um eleitor de Bolsonaro.

As mulheres tomaram as principais posições da marcha | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

‘João Doria, se explique’

Houve espaço para críticas abertas ao governador eleito João Doria. Érika Hilton, deputada que compõe a Bancada Ativista (PSOL-SP), também recém-eleita, fez questão de lembrar as declarações do ex-prefeito no período de campanha. “Nós nos infiltraremos na Comissão de Segurança Pública da Alesp. E queremos saber, queremos dizer diretamente ao João Doria: ‘senhor governador, o que você disse é crime. Dizer que a polícia vai atirar para matar é crime”, declarou ao microfone sob gritos de apoio e muitos aplausos. 

Érika Hilton, deputada da Bancada Ativista, em discurso contundente contra governador eleito João Doria | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Érika frisou que estava na marcha representando a população negra e trans e que seguirá essa luta na Assembleia Legislativa de São Paulo, ao lado de Erica Malunguinho, também deputada eleita, e Leci Brandão, reeleita. “Chegamos com o pé na porta no parlamento para denunciar a estrutura racista. Não é só uma pauta identitária. É mais que isso. É um Estado que retira nossos direitos. Eu falo aqui, agora, pedindo justiça por Marielle Franco, que foi executada e esse crime segue sem solução. Assim como Marielle, nós não aceitaremos as estruturas”, finalizou.

Foto: Daniel Arroyo/Ponte

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