“Mascarados” tenta desconstruir estigmas do Black Bloc

04/11/14 por Ponte

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Livro “Mascarados”, de Esther Gallego, Willian Novaes e Bruno Paes Manso tenta desconstruir estigmas para entrar na realidade do Black Bloc de São Paulo

* Esther Solano Gallego, especial para Ponte

Em tempos do medievalismo sinistro dos vários Bolsonaros e Levys Fidelix que degradam o cenário político brasileiro, das turbas enfurecidas xingando nordestinos e querendo tomar, desesperadas, o primeiro avião para Miami, para fugir do bolivarianismo-chavismo-castrismo brasileiro, escrever um livro que pretende conhecer, entender e deixar de lado preconceitos e lugares comuns não é fácil. Este é nosso “Mascarados”, onde eu, Willian Novaes e Bruno Paes Manso tentamos desconstruir estigmas para nos adentrar na realidade do Black Bloc de São Paulo.

LivroMascarados

Muito se falou sobre eles, muitos adjetivos foram impostos. “Vândalos”, “baderneiros”, “criminosos”…Poucos tomaram a iniciativa de observar, dialogar, conversar e procurar saber quem são estes jovens, as razões de sua violência, os porquês de sua presença nas ruas, sua raiva. É mais fácil, mais confortável reproduzir julgamentos vazios ao estilo papagaio-autômato, mas isso em nada contribui para a sociedade, só alimenta a ignorância e o fanatismo.

O livro está divido em três partes. Na primeira descrevo minha pesquisa, com olhar sociológico, de um ano de ruas (junho 2013-protestos antiCopa 2014), acompanhando o Black Bloc. As falas dos garotos da tática, suas vozes, seus pensamentos, suas contradições, sua relação com a Polícia Militar, o sentido da violência, estão lá presentes, querendo ser escutadas. Willian Novaes traz sete entrevistas profundas com os adeptos, traçando o perfil de cada um deles, indagando as pessoas e as histórias por trás das máscaras. Finalmente, Bruno Paes Manso reflete sobre o papel da imprensa, o processo de construção de personagens e narrativas, às vezes distante da realidade das ruas, e a lógica perversa do espetáculo da violência.

“Queremos chamar a atenção, provocar um debate, por isso fazemos uma violência simbólica, teatral (…) os verdadeiros vândalos não somos nós, é o sistema financeiro que escraviza as pessoas, é o Estado que tem uns serviços precários, que é corrupto, que não se importa com a população. Eu sou um criminoso porque jogo uma pedra? Não, são eles, os maiores criminosos estão em Brasília!”

O livro traz várias críticas contundentes. A primeira, o Black Bloc não é um grupo de perigosos terroristas mascarados que ameaçam a segurança nacional armados de pedras e coqueteis molotovs. São, simplesmente, jovens. Estudantes, trabalhadores, mais ou menos politizados, com mais ou menos noção e coerência no significado de sua ação violenta, mas com dois traços em comum: uma descrença absoluta no sistema político e um sentimento de raiva intensa normalmente focado contra a polícia. Por outro lado, os textos ressaltam a incongruência coletiva que é se indignar até com a histeria pela ação do Black Bloc e ficar na mais escandalosa passividade e conivência diante dos mais de 50.000 mortos por ano, diante da violência sistêmica que arrasa as relações sociais no Brasil. Por último, a crítica mais firme é dirigida aos donos do poder, donos de uma polícia que foi jogada na rua porque nossos representantes não tiveram coragem para enfrentar o desafio e se esconderam atrás da PM jogando à velha fórmula “questão social é caso de polícia”

Um livro provocador, mas que provoca desde o conhecimento, desde os dados sérios tomados a pé de rua e não desde a intolerância que desconhece. Não se trata de ser a favor ou contra a violência como forma de expressão política. Trata-se de entender um fenômeno social, de saber suas causas e de gerar um debate que contribua para o amadurecimento de nossa sociedade, cada vez mais arrastada pela fúria coletiva e menos disposta a escutar, a aprender.

 

* Esther Solano Gallego é coautora do livro. Doutora em Ciências Sociais e professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo

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