‘Me sinto impotente e intimidada’, declara mãe de ativista baiano morto há 10 meses

31/10/19 por Caê Vasconcelos

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Ana Maria Cruz, mãe de Pedro Henrique, morto na Bahia em dezembro de 2018, critica liberdade dos dois PMs indiciados pelo crime e relata ‘clima de medo’ na cidade

Pedro Henrique tinha 31 anos e lutava contra a violência policial em Tucano, interior da Bahia | Foto: arquivo pessoal

A professora Ana Maria Cruz, 53 anos, está cansada de esperar. Mas não existe um dia sequer que não pense na única razão de viver desde que seu filho, Pedro Henrique Santos Cruz, 31, foi assassinado: conseguir justiça pela memória do jovem e reparação pela perda, que completou 10 meses.

No dia 27 de dezembro de 2018, três homens encapuzados entraram em sua casa, no bairro de Matadouro, em Tucano, cidade no interior da Bahia, a 252 km da capital Salvador, e dispararam 8 tiros no jovem, que morreu na hora.

Os acusados pelo crime são policiais militares, o inquérito policial foi concluído e agora cabe ao Ministério Público Estadual da Bahia oferecer ou não denúncia. Pedro era ativista dos direitos humanos e um dos principais focos de sua atuação era justamente denunciar a violência policial.

“‘Será que vai ser preciso eles me matarem para alguém fazer alguma coisa?’. Era o que Pedro se perguntava com frequência. Há mais de 300 dias que Pedro foi morto, mas, os assassinos, embora identificados, continuam livres, impunes. Até quando? Com a palavra, a Justiça”, publicou Ana em uma rede social no último domingo (27/10).

O começo da trajetória de Pedro na militância aconteceu em 2012, depois de ele ser vítima de uma agressão policial durante uma abordagem. Pedro é o criador da “Caminhada pela Paz” na cidade de Tucano.

Em entrevista à Ponte, a mãe de Pedro critica a demora para que os acusados sejam presos e julgados. “O meu sentimento é de perplexidade. Os autores do crime foram reconhecidos desde o primeiro momento e continuam livres, levando uma vida normal como se nada tivesse acontecido. Esse descaso me traz muita tristeza e desconfiança. O sentimento é de impotência, mas isso não tira a minha força por lutar por justiça”, clama Ana Maria.

Pedro Henrique era um ativista que denunciava violência policial e foi morto no interior da Bahia em 2018 | Foto: Reprodução Facebook

Três policiais são suspeitos de executar Pedro Henrique, mas, até o momento, ninguém foi preso pelo crime. Uma testemunha informou que reconheceu os PMs que abordavam Pedro como executores do jovem pelas características físicas e o tom de voz e chegou a citar nominalmente pelo menos dois suspeitos. Os policiais Alex Andrade e Sidnei Santana são apontados por Pedro como protagonistas das abordagens violentas e Bruno Montino e Edvando Cerqueira como secundários.

A Delegacia de Polícia de Tucano indiciou dois PMs pelo assassinato de Pedro: Bruno de Cerqueira Montino e Sidnei Santana Costa. Agora o inquérito policial sobre o crime está com o MP-BA.

Procurado pela reportagem, o MP confirmou, por telefone, que as investigações estão sendo feitas sob sigilo e que nenhuma informação do caso poderia ser passada. A Ponte também procurou a Secretaria da Segurança Pública da Bahia, por e-mail, questionando os avanços na investigação e a situação atual dos policiais implicados no caso, mas, até o momento de publicação da reportagem, não houve retorno.

Em junho deste ano, Ana havia contado à Ponte que o clima em Tucano era tenso e que pessoas estavam sendo perseguidas e ameaçadas. Quatro meses depois, nada mudou. “O clima aqui é de medo, pois as intimidações continuam. Eles estão usando o aparato do Estado para tentar me processar. Não existem ameaças diretas, mas veladas, como aparições repentinas e olhares ameaçadores tanto para as testemunhas quanto os familiares de Pedro”, denuncia.

Em janeiro deste ano, a Ponte teve acesso a uma série de termos de declaração feitos no MP e assinados por Pedro entre 2014 e 2018. O ativista denunciou abusos da PM em pelo menos quatro oportunidades ao MP. Em setembro de 2014, por exemplo, Pedro compareceu ao MP e informou que havia sido abordado de forma violenta e relembrou que, em abril daquele ano, Aderbal, que havia presenciado a agressão contra Pedro em 2012, foi morto.

O último termo, datado de maio do ano passado, traz um relato de nova abordagem da PM, feita mais uma vez por Santana e Montino, quando Pedro voltava do mercado. O ativista afirma que foi obrigado a virar de costas, colocar as mãos na cabeça, que levou chutes e sua sandália chegou a arrebentar.

Ana Maria critica a falta de atenção que o filho teve quando foi denunciar as ameaças e agressões que vinha sofrendo. “Eu só queria que as autoridades que cuidam do caso de Pedro pelo menos dessa vez voltem os olhos para o meu filho e ajam com imparcialidade e justiça. Pedro passou os últimos seis anos da sua vida denunciando formalmente os agressores dele. Ele solicitou providências e foi ignorado. Eu acredito que esse fato contribuiu muito para que os criminosos tirassem sua vida. Eles apostaram na impunidade”, aponta a professora.

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