Medo do coronavírus faz agentes recusarem preso com febre

01/04/20 por Josmar Jozino

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Transferência determinada pela Justiça só foi finalizada com interferência da direção do presídio em Presidente Prudente (SP)

Presos estavam em Pacaembu e foram levados a Presidente Prudente (acima) | Foto:Reprodução/TV Fronteira

O medo de contrair Coronavírus e a falta de máscaras, álcool em gel e luvas para receber detentos – muitos deles doentes – recém-chegados de outras prisões estão gerando pânico entre funcionários do sistema prisional.

Foi o que aconteceu ontem na superlotada ala de progressão de regime semiaberto da Penitenciária de Presidente Prudente, no oeste do estado de São Paulo, durante a chegada de um preso com 38,8 graus de febre e outro com tosse seca e intensa. Funcionários assustados não queriam recebê-los.

Os dois detentos, um deles de 34 anos, condenado por tráfico de drogas, e outro de 25 anos, cumprindo pena por roubo, foram transferidos do CPP (Centro de Progressão Penitenciária) de Pacaembu, também na região oeste. Ambos viajaram juntos no furgão da SAP (Secretaria Estadual da Administração Penitenciária).

Agentes penitenciários relutaram em receber os presos depois de usar um termômetro a laser para medir a temperatura de ambos. Segundo funcionários, o detento mais velho estava com 38,1 graus de febre e o mais novo não parava de tossir.

Os presidiários foram retirados do furgão, chamado de bonde no sistema prisional, e levados para debaixo de uma árvore próxima à portaria de entrada da ala de progressão.

Passados aproximadamente 10 minutos, uma enfermeira voltou a examinar o preso de 34 anos e a temperatura havia dele havia subido para 38, 4 graus.

Ainda segundo agentes penitenciários, a médica foi chamada. A temperatura do preso, no entanto, aumentou para 38,8 graus. Os funcionários passaram a discutir e decidiram não receber os detentos.

A diretoria da unidade teve de intervir e chegou a ameaçar os funcionários, afirmando que eles eram obrigados a receber os presos porque se tratava de ordem judicial.

Um funcionário da diretoria comentou que o preso estava quente porque tinha viajado durante horas no furgão abafado. “Mas por que o outro também não está quente, se viajou junto?”, retrucou um colega servidor.

O impasse durou cerca de meia hora. Os detentos foram levados com um terceiro que havia chegado do CPP de Mirandópolis e ficaram isolados na enfermaria.

Funcionários disseram que os dois presos vindos de Pacaembu viajaram lado a lado, por mais de uma hora. “Se um está gripado ou com coronavírus, o outro será infectado e o mesmo pode acontecer conosco”, comentou um agente.

Servidores disseram ainda à Ponte que na enfermaria onde os recém-chegados foram alojados existem ao menos 20 detentos com doenças infecto-contagiosas, como Aids, hepatite crônica e tuberculose, além de presos com câncer.

Agentes penitenciários afirmaram ainda que após as rebeliões nos CPPs de Pacaembu e Mirandópolis, no último dia 16, ao menos 200 presos foram transferidos para a ala de progressão de Presidente Prudente.

A unidade prisional tem capacidade para 247 detentos, mas até o último dia 30/3 abrigava 692 (ou 280% além do limite), segundo consta no site da própria SAP.

Vacinas

Além da escassez de álcool em gel, máscaras e luvas, agentes penitenciários também estão preocupados com a falta de vacinas contra a gripe para funcionários e presos em todo o estado.

Na Penitenciária 1 de Presidente Venceslau, funcionários contaram que não há o medicamento porque o lote que chegou não foi suficiente sequer para atender os servidores.

O Sindicato dos Funcionários do Sistema Prisional do Estado de São Paulo fez uma publicação nesta quarta-feira (1/4) em seu site comunicando que “neste momento de pandemia em que os agentes precisam ser imunizados, o Estado se omite e coloca todos em risco por falta de proteção”.

A SAP foi procurada pela Ponte para explicar se os presos transferidos de Pacaembu para Prudente estavam doentes e também sobre a reclamação dos agentes sobre faltas de vacinas, álcool em gel, luvas e máscaras. Em nota, a pasta negou que houve “tumulto” na chegada dos dois presos a Presidente Prudente e que a situação de saúde de ambos não estão associadas a sintomas do coronavírus.

Segundo a SAP, o homem com febre “não apresentou qualquer outro sintoma gripal”. “Ambos irão permanecer por  duas semana isolados dos demais, em regime de observação, como de praxe nas unidades prisionais do Estado de São Paulo”, assegura a secretaria, alegando ter disponibilizado equipamentos de proteção e álcool em gel “para a devida assepsia das mãos” dos funcionários. 

Atualização às 10h42 de quinta-feira (2/4) para incluir posicionamento da SAP.

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