Mesmo em programa de proteção a testemunhas, líder comunitário é morto em Aracaju (SE)

Missionário católico Uílson de Sá, 47, era fundador de associação que reúne extratores de mangaba e foi encontrado com pés amarrados e com marcas de estrangulamento no pescoço nesta segunda (28)

Uílson de Sá era preseidente da Associação de Catadores e Catadoras de Mangaba em Aracajú | Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Apesar de fazer parte do programa de proteção a testemunhas do Ministério Público Federal (MPF) desde 2018, recebendo diversas ameaças ao longo dos últimos anos, Uílson de Sá, de 47 anos, ainda assim acabou morto. Ativista ambiental e pelos direitos humanos, seu corpo foi encontrado dentro da sua residência, no bairro Santa Maria, em Aracaju, no final da manhã da última segunda-feira (28/11) com pés amarrados e com marcas de estrangulamento no pescoço.

Uílson travava uma batalha pública contra a prefeitura da capital sergipana visando proteger a área onde nasceu, tida como uma das últimas regiões de restinga da cidade onde famílias tiram o seu sustento da extração de mangaba, uma fruta típica do litoral sergipano que ocorre naturalmente na região. O local vem sendo cobiçado pela especulação imobiliária e está nos planos da administração municipal a construção de um conjunto habitacional no território.

“Há uns anos movimentos de luta por moradia fizeram uma ocupação próxima à área e a prefeitura, ao invés de procurar um outro espaço, prometeu criar um conjunto habitacional naquele local, criando um conflito entre os sem-teto e essa comunidade tradicional. As famílias que vivem do extração da mangaba estão ali pelo menos há 60 anos”, explica a professora Christiane Campos, do Programa de Educação Ambiental com Comunidades Costeiras da Universidade Federal de Sergipe (Peac-UFS).

Segundo a professora, as ameaças contra o ativista tiveram início quando ele criou a Associação de Catadoras e Catadores de Mangaba do Bairro Santa Maria, em 2016. Dois anos depois, quando passou a fazer parte do programa de proteção a testemunhas, Uílson passou um período fora do país devido aos ataques que poderia sofrer.

“Ele passou a ser ameaçado por gente da prefeitura e da ocupação. Ele era missionário católico e passou dois meses na Alemanha afirmando que estava em missão, mas sabíamos que era por conta das ameaças que ele vinha sofrendo”, conta Lídia Anjos, que faz parte do Movimento Nacional de Direitos Humanos em Sergipe.

Lídia conta que havia uma relação amistosa entre os moradores da ocupação com os extrativistas, mas que os ânimos se acirraram após a decisão da prefeitura de Aracaju em construir o residencial na área de extração de mangaba.

“Ele sofria ameaças permanentemente e vivia com medo. Uílson temia que a comunidade fosse atacada, que algo pudesse acontecer com a mãe e as irmãs dele. Mesmo dentro da programa de proteção, ele se queixava da falta de segurança”, afirma Lídia Anjos

“Estamos destruídos como família. A gente não perdeu o missionário, o presidente da associação. Eu perdi o meu irmão, o pilar da nossa família. Está sendo muito difícil. Estamos acompanhando as investigações e esperamos que quem matou ele seja punido pela crueldade que fiazeram com ele”, relata Divalmira Bispo de Sá, 45 anos, irmã de Uílson.

A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) emitiu nota lamentando a morte do presidente da Associação de Catadores de Mangaba. “Esperamos que os esforços das autoridades ajudem a esclarecer os fatos da sua morte repentina e violenta para que a verdade e a justiça vençam a impunidade, e a paz reine nos corações feridos por tão grande perda”.

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O ativista foi visto pela última vez no final da tarde do último domingo (27/11) quando esteve com amigos e familiares. Após tentar, sem sucesso, contato com Uílson através de telefonemas, familiares foram até a casa dele e ao entrar se depararam com o corpo dele amarrado e com marcas de violência.

O que diz a Polícia Civil

O delegado Tarcísio Tenório, da Delegacia de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP) da Polícia Civil sergipana informou que um inquérito já foi instaurado e que está coletando o depoimento de possíveis testemunhas do crime. “Vamos ouvir familiares e pessoas que possam contribuir com a investigação e aguardar os laudos da perícia do local e autópsia do corpo.”

O que diz o Ministério Público Federal

O Ministério Público Federal em Sergipe, por meio de nota, afirmou que prestou assistência à família de Uílson e que pedirá que à Polícia Federal que auxilie na investigação do assassinato. “A procuradora da República Lívia Tinôco, que estava no plantão, ao tomar conhecimento da morte, se dirigiu ao local, conversou com a família, membros da comunidade tradicional e com as autoridades presentes. A procuradora informou os fatos ao programa de proteção e pediu apoio da Polícia Federal nas investigações para elucidar as causas e circunstâncias da morte.

O que diz a prefeitura

A prefeitura de Aracaju, administrada pelo prefeito Edvaldo Nogueira (PDT), foi contatada, mas até a publicação desta reportagem não se posicionou sobre a morte de Uílson de Sá.

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