‘Mexeu com sem-terra, vai mexer com sem-teto, estudante, LGBT, negros…’

Em audiência na Câmara de SP, líder sem-teto Ivanete Araújo pregou união de movimentos contra possível perseguição de governo Bolsonaro; para líder do MST, ‘criminalização não é novidade’

Gilmar Mauro fala em resistência e unificação | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

“A criminalização de movimentos populares no Brasil não é nova. Ela é muito antiga. E a tentativa sempre foi de produzir consensos na sociedade. Esse processo conjugado com o aparelho repressivo é histórico no nosso país. Desafio alguém a pegar um jornal de 1888, 1885 ou antes da assinatura da Lei Áurea e vejam quem eram os perseguidos pelos meios de comunicação. ‘Escravos fugitivos levam pânico às fazendas. Polícia já está atrás’. Sempre na história do Brasil as classes trabalhadoras foram criminalizadas nos grandes meios de comunicação na tentativa de criar um senso comum, de criar a ideia do bandido para justificar processos coercitivos contra esses movimentos”, afirmou Gilmar Mauro, integrante da coordenação nacional do Movimento Sem Terra, o MST, que tem sido frequentemente atacado pelo governo eleito.

Mauro foi uma das lideranças de movimentos sociais a discursar no salão nobre da Câmara Municipal de São Paulo durante a audiência pública “Fortalecendo a democracia”, nesta quinta-feira (8/11), realizada para discutir o que a escolha do presidente eleito Jair Bolsonaro (PSL) e de outros líderes de esferas estaduais, como por exemplo o governador eleito em São Paulo, João Doria (PSDB), vai representar no processo de criminalização das lutas sociais.

Gilmar Mauro recuperou a história do MST e relembrou o período da presidência de Fernando Collor (1990-1992) e as tentativas de criminalizar a luta por terra. Também apresentou números afirmando que Brasil é o país de maior concentração fundiária do mundo: 1% dos fazendeiros detém 46% das propriedades de terra. “São 500 anos de latifúndio e 400 de escravidão”, provocou. “Dez mil fazendeiros detém mais de 12% das terras no Brasil.”

Mauro explicou que, na visão do movimento, o futuro governo tem um único e claro objetivo econômico: privatizar o bem público e fazer a reforma da Previdência. “Estamos ainda tentando caracterizar esse novo governo. Por enquanto, avaliamos que é um governo de viés neofascista, mas ao mesmo tempo ultraliberal e que tenta criar uma cortina de fumaça criminalizando os movimentos sociais, para chegar ao objetivo final que é a questão econômica. Que ninguém se iluda que é outra coisa. Mas para confundir a sociedade, eles fazem essas bravatas de chamar o MST de terrorista, e por aí vai. A essência do programa é privatizar os recursos públicos. E cada vez mais é preciso unificar o povo brasileiro”, declarou à Ponte. “Se existe uma corrente do mal que emergiu, também acho que existe muita gente do bem”.

A líder indígena Sonia Aka Mirim e Ivanete Araújo, do Movimento de Moradia na Luta Por Justiça | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

Na mesma linha, a líder do MMLJ (Movimento por Moradia na Luta Por Justiça) Ivanete Araújo acredita na união das forças para seguir resistindo. “Eles querem acabar com nossa história, com tudo aquilo que a gente sofreu para ter, que é o mínimo. Nós, mulheres, sofremos e temos o risco de sofrer mais por ser mulher, negra, militante sem-teto. Por ter a ousadia de chegar onde aqueles poucos que usam de toda mídia para nos criticar dominam e a gente teve coragem de chegar. Quero dizer para vocês que é importante agora, mais do que nunca, nossa unificação. Mexeu com o sem-terra vai ter que mexer com os sem-teto, com estudante, com LGBT, com os negros. Mexeu com um, vai ter que mexer com todos. Não é hora de fazer lutas isoladas, porque a máquina que está vindo para derrubar é gigante”, disse, emocionada.

“A questão da criminalização dos movimentos não é de agora mesmo. Eu mesma por ter feito luta em outubro do ano passado, por ter ocupado um prédio sem função social, fui presa. Estou assinando dois anos por ter ocupado. E o delegado deixou bem claro: ‘eu vou acabar com você’. Quer acabar com a gente? Distribui de forma igual para todos”, pontuou Ivanete.

A sem-teto criticou a promessa de armar a população feita pelo presidente eleito Jair Bolsonaro. “Aqueles que acharam que ia ter promoção nas Casas Bahia para pobre comprar arma e ganhar munição de brinde, olha, eu lamento informar mas está errado. Eu ouvi de dentro de uma comunidade um cara falando que ia votar naquele que não cito o nome, porque ia liberar o porte de armas. Eu disse: ‘infeliz, nós somos o alvo’. Não temos o direito a ter arma. Nós vamos ter obrigação de andar com um pontinho vermelho na testa porque seremos o alvo”, concluiu.

Uma das lideranças indígenas guarani do Jaraguá, Sonia Ara Mirim, contou que na região onde vive são 18 aldeias e 10 estão em processo de demarcação e que, com Bolsonaro na Presidência, teme que mais nenhum centímetro de terra seja demarcado. “Não deixem a população indígena morrer. Hoje os nossos filhos que ainda nem aprenderam a falar português nos perguntam na língua guarani: ‘Nos vamos morrer? O nosso povo vai morrer de novo?’. Hoje nosso povo está sofrendo ataques. Uma pessoa que se diz presidente e que vai nos exterminar dessa terra não nos representa. Vamos resistir”, afirmou.

Escola sem partido e resistência

O tema educação mereceu destaque durante a audiência. Muitos dos líderes que se manifestaram acreditam que a educação será muito sucateada tanto na esfera federal quando na esfera estadual, no caso de São Paulo. Representante do Levante Popular da Juventude, Pietro Gangá afirma que o objetivo agora é retomar o trabalho de base que acabou sendo negligenciado nos últimos anos. “Precisa ser urgentemente retomado, nas periferias e no movimento estudantil. A gente se dividiu em três frentes para começar já essa construção.  A educação será a área mais afetada. A prova é o que aconteceu nas universidades. Acredito que a gente precisa dialogar com a periferia, que, é claro, será a mais afetada”, destacou.

Professora há 17 anos, Sol Massari pediu a palavra para contar que criou um grupo chamado Frente de Resistência e Defesa da Educação do ABC, para lutar contra o Escola Sem Partido. “Mas claro que estamos estendendo a São Paulo. Na calada da noite, os professores estão sendo perseguidos, estão sendo colocados como monstros que estão aqui pra destruir as famílias. Em defesa da cátedra, em defesa da pluralidade das ideias nós estamos aqui buscando hoje que os professores possam fazer parte dessas atividades. O professor não é um movimento social, mas ele faz parte de uma sociedade que hoje busca tirar ele da sala de aula, que quer a EAD [Ensino à distância] que vai acabar com qualquer possibilidade de debate”, criticou. “A Escola sem partido foi construída na premissa do código de defesa do consumidor. Como se educação fosse uma mercadoria. Escola sem partido é de um partido só”, afirmou Sol.

Brasil, campeão de transfeminicídio

Representando a luta LGBT, Nicolle Mahier, integrante da Amapô-SP (Associação de travestis, mulheres transexuais e homens trans de São Paulo), afirmou que a grande questão é que quem não sentia a violência está se sentindo ameaçado agora. “É aquela coisa de que a água bateu na bunda de todo mundo, sabe? A gente sempre teve essa preocupação, mas agora os homens da sigla LGBT estão preocupados. As pessoas estão começando a sentir a nossa dor na pele delas. Só que eu preciso destacar que a gente sempre foi alvo dessa violência. O Brasil é o campeão de transfeminicídio do mundo. No ano passado, 169 pessoas trans foram executadas. Em 2018, são 141 mortes até agora. Os movimentos sociais não podem ser parados, porque defendemos a vida e a dignidade humana, o direito do corpo feminino que é segregado da sociedade. Classificar movimento social como terrorista é querer calar toda uma população que se pauta pelos direitos iguais pela nossa sociedade”, avalia Nicolle.

O presidente da Comissão de Direitos Humanos e Cidadania da Câmara, vereador Eduardo Suplicy, que chamou a audiência pública, afirma que o momento é o de criar redes entre esses movimentos. “Este evento é importante por conta dos desdobramentos do período eleitoral, em que o acirramento das discussões e a rapidez das redes prejudicaram substancialmente os diálogos, abrindo espaço para equívocos que precisam ser devidamente esclarecidos”, disse Suplicy.

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