Militante LGBT é assassinada a tiros em Vitória da Conquista (BA)

Raphaela Souza foi morta com três tiros na cabeça na última quarta-feira (14/11); a linha de investigação segue a hipótese de latrocínio e a Polícia Civil não mencionou transfobia até o momento

Raphaela Souza foi assassinada a tiros em Vitória da Conquista | Foto: Reprodução Facebook

Raphaela Souza, 32 anos, era estudante de serviço social e cabeleireira. Atuava no Conselho Estadual dos Direitos da População de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais (CELGBT) e era representante do Grupo Social Coletivo Finas de Travestis e Transexuais. Ela  foi assassinada com três tiros na cabeça, na quarta-feira (14/11), véspera de feriado, em Vitória da Conquista, sudoeste da Bahia. Segundo informações do portal G1, o crime aconteceu por volta 22h30, no Conjunto Habitacional Pau Brasil, no bairro Miro Cairo.

Em nota enviada à Ponte, a Secretaria de Comunicação da Prefeitura de Vitória da Conquista informou que a Coordenação Municipal de Políticas de Promoção da Cidadania e Direitos de LGBT lamenta profundamente a morte de Raphaela e que está acompanhando as investigações. “Aos 32 anos, Raphaela era uma das principais militantes das causas LGBT em Vitória da Conquista e, atualmente, coordenava o Grupo Social Coletivo Finas de Travestis e Transexuais. Em tempo, a coordenação informa que está acompanhando o caso e acredita no trabalho sério e competente da Polícia para esclarecer o crime”, finaliza a SECOM.

Um amigo próximo de Raphaela fez uma carta de despedida, que foi publicada em um blog local. Danillo Bittencourt, comunicador social e ex-assessor de Diversidade Sexual da Secretaria Municipal de Desenvolvimento Social de Vitória da Conquista, relembrou no texto as lutas de Raphaela, primeira funcionária trans da Secretaria de Desenvolvimento Social da cidade.

“Foram anos de luta para combater essa cultura bastante sexista, de negar ao outro a condição de sujeito de direito. A Prefeitura, na então gestão do Prefeito Guilherme Menezes, alçou voos de reconhecimento nessa luta. E Rafa estava sempre lá comigo. Realizamos juntos duas conferências territoriais de Direitos LGBT; preparamos uma campanha publicitária para combater o estigma e o preconceito da sociedade em relação às travestis e transexuais, se tornando a primeira prefeitura da Bahia, entre os 417 municípios, a realizar uma ação comemorativa ao Dia Nacional de Visibilidade Trans. Com Rafa, e sua luta junto às travestis e transexuais de nossa cidade, nos tornamos a terceira cidade do Estado a possuir decreto-lei que garante o uso do nome social de travestis e transexuais nos serviços prestados por qualquer órgão da Administração Pública Municipal Direta, Indireta, Autarquias, Fundações e nas instituições públicas de ensino”, relembra Bittencourt.

Danillo conta que foi depois dessa experiência que Raphaela se reconheceu enquanto militante e defensora dos direitos humanos. Quando seu contrato com a Prefeitura terminou, ela foi fazer Serviço Social e se engajou ainda mais, se tornando a primeira presidente do Coletivo Finas. Ela também dava aulas gratuitas como cabeleireira para beneficiárias do programa Bolsa Família.

No texto, Bittencourt pede que a imagem da amiga não seja associada às drogas ou ao tráfico e sim as lutas e conquistas que ela fez pela população trans. “É essa Rafa que eu conheço. Não a que foi morta pela sociedade discriminatória e que não tem uma política adequada sobre drogas. Não quero a imagem da Rafa que, por inúmeros motivos, encontrou no uso e no tráfico, um alento e um respeito”, clama o ex-assessor.

Segundo apuração da Ponte, Raphaela foi detida em 25/10 por suspeita de associação ao tráfico, sendo liberada em seguida. Três semanas depois da prisão, Raphaela foi assassinada a tiros. Por isso, de acordo com informações do site NLucon, a Delegacia de Homicídios, que investiga o crime, trabalha com as hipóteses de latrocínio, uma vez que levaram o celular da vítima, e averígua se tem alguma relação com sua passagem pela polícia. Até o momento nenhum suspeito foi identificado ou preso. A SSP (Secretaria de Segurança Pública) da Bahia foi procurada pela reportagem, por e-mail e por telefone, mas até o momento de publicação da matéria não houve retorno.

A SJDHDS (Secretaria de Justiça, Direitos Humanos e Desenvolvimento Social), por meio de nota de pesar e repúdio, fala sobre o resultado das eleições e o crescente número de agressões. “Desde a promulgação do resultado das eleições, no dia 28 de outubro de 2018, temos visto inúmeros casos de violência psicológica e física, autorizadas pelo discurso de ódio contra a diversidade sexual e de gênero”, diz nota.

Em outro trecho da nota, assinada pelo CELGBT, pede por justiça e defende que a população LGBT tenha seus direitos garantidos. “Neste sentido, o Conselho Estadual LGBT da Bahia, conclama os órgãos de acolhimento, justiça e investigação, especificamente o Centro de Promoção e Defesa dos Direitos LGBT da Bahia, o Ministério Público da Bahia e a Secretaria de Segurança Pública, para que sejam céleres nas tomadas de providências cabíveis. Queremos a nossa população viva e feliz pois este é um direito de toda e todo cidadã e cidadão. Não descansaremos até que este e os demais crimes sejam solucionados. Contamos com as parceiras da Rede de Enfrentamento a Violência contra LGBT da Bahia para elucidar mais esse grave atentado contra nossas vidas”, reforça a nota.

Comentários

Comentários

Colabore com a Ponte!

Enviar um comentário

Contribua com a Ponte

Clique para doar

Catarse

feito por F E R A