Moradores alertam que incêndio às vésperas de reintegração em favela pode ser criminoso

14/09/19 por Paulo Eduardo Dias

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Prefeitura de SP negou existência de feridos, no entanto, reportagem entrevistou vítima com queimaduras; fogo destruiu 50 barracos

Incêndio destruiu ‘maloca’ que ficava embaixo no viaduto Alcântara Machado | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Os passos estão desorientados, faltam palavras para completar simples frases e os olhos, além de marejados, não deixam de se fixar onde por muitos anos foi a residência de cerca de 50 famílias. Esse foi o cenário encontrado na sexta-feira (13/9), na Ocupação Alcântara Machado, localizada embaixo do viaduto de mesmo nome, na região da Mooca, zona leste, 12 horas após um incêndio consumir aproximadamente 50 barracos.

À Ponte, moradores disseram que o fogo começou por volta das 19h da última quinta-feira (12/9) e teve início em um barraco instalado de frente para um posto de gasolina na Avenida Alcântara Machado, no sentido bairro. Moradores contaram que pessoas que estavam no posto, inclusive, teriam visto um carro parar, jogar algo sobre os barracos e ir embora. Pouco depois, o fogo teria se alastrado rapidamente, destruindo quase tudo.

Morador mostra queimaduras causadas pelo incêndio; prefeitura de SP negou a existência de feridos | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

“Foi incêndio criminoso. [Aconteceu] ao mesmo tempo que tornaram a mexer no processo de reintegração de posse”, grita a ambulante Thais Martins, 27 anos, na tentativa de desabafar. A fala de Thais tem a ver com a declaração dada pelo prefeito Bruno Covas (PSDB) que esteve no local enquanto bombeiros apagavam o fogo. Aos repórteres, Covas afirmou que “é uma área em que desde o início da gestão a gente vem tratando da reintegração de posse e esse é um daqueles casos em que tentamos acordo no poder judiciário e, às vésperas de marcarmos a ação, temos essa fatalidade”. Moradores classificaram a fala como “infeliz”.   

A suspeita de incêndio criminoso também é levantada pela diarista Jaqueline da Silva, 23 anos. “Foi tudo muito rápido. Das outras vezes conseguimos apagar o fogo. Dessa vez subiu muito rápido”.

Em nota, a prefeitura de São Paulo negou a existência de feridos, no entanto, a reportagem encontrou uma vítima com queimaduras no ombro e no antebraço, que estava deitada no meio fio sobre um colchão fino, e com pomada pelo corpo para atenuar as dores. O prensista Jairan, 55 anos, contou que estava dentro de seu barraco e quando percebeu o fogo só deu tempo de salvar sua vida. “Tinha uma casa completa, com televisão e tudo. Moro na região desde 1999. Não tenho para onde ir. Vamos continuar nessa vida, no mesmo lugar. Tem muita criança aqui”, completou, mostrando a extensão do ferimento.

Funcionários da prefeitura fazem limpeza durante rescaldo do incêndio | Foto: Paulo Eduardo Dias/Ponte Jornalismo

Além de Jairan, moradores afiram que um homem identificado como Luis teve ferimentos na cabeça. Contaram ainda, que ao menos dois gatos e um cachorro morreram no incêndio.

Entre as muitas reclamações, a ausência do poder público para dar orientações referentes a documentações perdidas em meio ao fogo ou prestar auxílio a adultos e crianças, uma das queixas mais frequentes após incêndios ou reintegrações de posses em lugares humildes. “Não adianta vir a Smads (Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social) fazer cadastramento e colocar em bolsa aluguel, não é suficiente. O bolsa aluguel é R$ 400. Imagina uma família conseguir pagar aluguel no centro com esse valor”, pondera Alex, que atua como voluntário no local há pelo menos três anos.

No momento da visita da reportagem, se faltavam assistentes sociais ou outros técnicos da prefeitura, sobravam agentes da CET (Companhia de Engenharia de Tráfego) e policiais militares do Comando de Policiamento de Trânsito, para orientar motoristas a acessar Radial Leste por outros caminhos que não o elevado que passa por sobre onde existia a favela. Duas viaturas do Choque também estavam posicionadas no posto onde populares teriam visto por onde o fogo iniciou.

Ativa, Thais ainda tentava juntar forças para auxiliar moradores que ainda estavam atônitos com o ocorrido, mas se lamentava por tudo que perdeu. “Tinha acabado de fazer compra. Tinha carne na geladeira, meus danoninhos, as bolachas que meu marido gosta de comer. Roupas, móveis, TV. Você entrava no meu barraco e falava que estava numa casa. Perdi tudo. Só estou com a roupa do corpo”, afirmou.

Para o colaborador do Núcleo da Comissão de Direitos Humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil), Alderon Costa, a situação da população vulnerável na cidade está cada vez mais complicada. “Não adianta a prefeitura propor albergues, precisamos de uma definição. Um investimento por moradia. O problema só está se agravando”, concluiu.

Medo de saída forçada

Ao lado da ocupação que foi consumida pelo incêndio, existe outra pequena favela também construída com barracos de madeira. O terreno também está na lista de reintegração de posse da prefeitura. Na iminência de ter de deixar seu lar, o faxineiro Ednaldo disse que tem medo do futuro. “Se eu tivesse para onde ir, eu não estava aqui. Como não tenho, tenho que esperar pela prefeitura. A gente espera uma remoção forçada por parte da prefeitura depois do fato que aconteceu”, declarou.

Em nota, a Prefeitura informou que “a Secretaria Municipal de Assistência e Desenvolvimento Social (SMADS) prestou atendimento para 32 famílias afetadas pelo incêndio no Viaduto Alcântara Machado, zona leste de São Paulo. A SMADS, por meio da Coordenadoria de Pronto Atendimento Social (CPAS), ofertou acolhimento e insumos, sendo 70 colchões, 70 cobertores, 40 cestas básicas e 40 kits de higiene. Apenas uma pessoa aceitou acolhimento. As outras famílias recusaram a oferta de acolhimento e preferiram ir para casa de familiares. Não houve feridos. A prefeitura aguarda autorização judicial para reintegração de posse do local. O incêndio está sendo investigado pela Polícia”.

Procurada, a SSP (Secretaria de Segurança Pública) informou que “o caso é investigado pelo 8º DP que apura as circunstâncias do incêndio. A autoridade aguarda o resultado dos laudos periciais que estão em execução”.

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