Policiais militares aterrorizam famílias em favela de SP

15/01/20 por Arthur Stabile

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Vídeos mostram ação de PMs na Favela do Coliseu, na Vila Olímpia, zona sul de SP, com bombas: ‘disseram que iam colocar fogo’, conta testemunha

Policiais militares agiram com truculência e usaram bombas de gás lacrimogênio em ação na Favela do Coliseu, localizada em rua do mesmo nome na Vila Olímpia, bairro rico na zona sul da cidade de São Paulo, na noite desta quarta-feira (15/1). Testemunhas relatam ameaça dos policiais enquanto dispersavam os moradores.

Era por volta de 20h30 quando um grupo de dez PMs da Rocam (Rondas Ostensivas com Apoio de Motocicletas) entraram na única rua de acesso à comunidade. De acordo com quem estava no local, muitas pessoas estavam fora de suas casas por conta do calor e crianças jogaram futebol, tendo que sair rapidamente do caminho para não serem atropelados.

Os adultos tiveram que puxar os garotos para não serem atropelados. “Tirei pelo menos três do caminho”, conta a design Nina Zambardino, de 28 anos, ativista da ONG Animal Gang. Ela fazia trabalho de acompanhamento na Coliseu quando a PM agiu sem dar explicações sobre o que acontecia no local para justificar uma operação.

Logo depois de as motos entrarem, os policiais foram até o fundo da comunidade e jogaram duas bombas, como relata Nina. “O pessoal se assustou e veio para a lateral da rua. [Os PM] Entraram muito rápido, coisa de três minutos, arrastando quem estava no caminho. Uma senhora caiu”, conta. “Em seguida, jogaram as duas bombas. Entraram e não falaram nada, simplesmente nada”, completa.

A repressão aumentou quando um outro grupo de PMs, cerca de 30, reforçaram os da Rocam. Eles usavam escudos e armas de armamento letal. “Falaram que iam colocar fogo em tudo. Gritamos que tinha família, criança, e um dos PMs respondeu: ‘não entrei com elas aqui, vim para resolver’. E entraram nas vielas”, prossegue Nina.

Ao menos um homem se feriu na ação, tendo uma de suas mãos quebradas, segundo as testemunhas. Cinco senhoras precisaram ser socorridas para hospitais por conta da inalação do gás usado pela tropa. Líderes comunitários relatam que a truculência só parou quando os policiais perceberam que boa parte das pessoas filmavam a ação, por volta de 21h.

PMs (à esq.) usaram armamento letal e bombas na ação, com senhoras precisando de atendimento médico | Foto: Reprodução

“Acabaram de ir embora, só foram quando viram que estava sendo gravado. Entraram quase atropelando criança no meio da rua, oprimindo os moradores. Foram bem violentos, bateram em um rapaz. Teve mais de dez bombas”, relata Marisete Maria dos Santos, uma das lideranças locais.

Há uma ordem de imissão de posse agendada para a próxima terça-feira (21/1), às 6h, assinada pelo juiz Antônio Augusto Galvão de França. De acordo com documento obtido pela Ponte, a Cohab (Companhia Metropolitana de Habitação de São Paulo) reivindicou a posse do terreno onde fica a Favela do Coliseu para construção de habitações populares.

Os moradores consideram a ação da PM nesta quarta-feira uma pressão para a sua saída. “A gente não é cachorro, não dissemos que não vamos sair. Temos documentos, provas de que vamos sair e daqui dois anos vamos voltar, teve reunião em 11 de dezembro com a Cohab”, afirma Cleide dos Santos. “Não invadimos, isso estava largado há muitos anos. Saímos, sim, mas com a certeza de que voltaremos”, conclui.

A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre a ação policial na Coliseu. Às 12h15 do dia 16 de janeiro, a InPress, assessoria de imprensa terceirizada da pasta, explicou que a PM agiu pois “durante abordagem da Rocam um homem resistiu e passou a agredir os agentes, entrando em luta corporal”. “Com o criminoso foi localizada uma mochila contendo um tijolo e meio de maconha, além de pequenas porções da droga prontas para a venda. A ocorrência foi apresentada no 14º DP (Pinheiros)”, diz a SSP.

“O homem abordado e um dos policiais ficaram feridos, sendo socorridos ao Hospital das Clínicas e Pronto Socorro da Lapa, respectivamente. Durante a ação populares começaram a arremessar objetos nas equipes policiais, sendo necessário o uso de munição química para controlar o tumulto”, prossegue a secretaria.

Reportagem atualizada às 14h03 do dia 16 de janeiro para incluir posicionamento da SSP.

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