Moro vai investigar os crimes contra ativistas?, pergunta blogueira ameaçada

Blogueira feminista e professora universitária, Lola Aronovich denuncia nova ameaça que vem do mesmo grupo suspeito pela maioria dos ataques ao deputado Jean Wyllys, que está exilado

A blogueira feminista e professora universitária Lola Aronovich | Foto: arquivo pessoal

Jean Wyllys e Lola Aronovich têm formações similares, são expoentes, cada um em sua luta, na militância de grupos minorizados, e se encontram nas trajetórias na educação. Os caminhos seguiram rotas distintas: Jean galgou espaço na carreira política como parlamentar, onde levou a ferro e fogo as demandas e defesas da população LGBT. Lola fez carreira na Universidade Federal do Ceará e mantém o blog de causas feministas Escreva Lola Escreva. Apesar disso, os dois incomodam quem discorda de suas lutas e, por causa disso, viraram alvo de ódio e de ameaça de morte.

Um desses grupos que disseminam ódio são os frequentadores dos chamados chans, fóruns anônimos virtuais onde é permitido todo o tipo de bizarrice – e de crime também, como ameaças e incitação ao estupro. Lola convive com isso há mais de 10 anos e foi até inspiração para a criação da lei federal 13.642/18, conhecida como Lei Lola, que dá à Polícia Federal atribuição para investigar crimes de misoginia praticados na internet. Às vezes as ameaças, todas anônimas, escondidas por pseudônimos, se intensificam, outras tantas esmorecem.

Print do e-mail que Lola recebeu | Foto: Reprodução

Nesta terça-feira (29/1), Lola recebeu um e-mail em que o remetente identificado como “homens sancto” afirma que a professora tem culpa pela disseminação do ódio: “Quando você for assassinada, com certeza a polícia e a mídia lerão esses e-mail”, escreve. “Não é bacana se acostumar com esse tipo de coisa, mas é o jeito”, diz Lola à Ponte, por e-mail. “Então, quando recebi o e-mail de manhã, não me afetou em nada. Eu bocejei de tédio, sabe?”, ironiza, mas alerta: “Receber um e-mail dizendo: ‘Vamos te estuprar e te matar e depois te estuprar de novo’ já é hediondo. Imagina receber essa mesma mensagem e, junto, seu endereço residencial, o nome dos seus familiares e o endereço deles, seu CPF, a placa do seu carro? Isso leva a ameaça para um outro nível”, pontua.

A professora e militante feminista explica que decidiu publicizar essa perseguição por causa do deputado federal Jean Wyllys (PSOL-RJ), que, na semana passada, anunciou que abriu mão da cadeira no Congresso por recorrentes ameaças contra a sua vida e de pessoas que ama. Foi embora do país. O Ministério da Justiça informou, no último sábado (26/1), que uma das pessoas que nos últimos anos fez ameaças de morte a Jean é justamente o mesmo algoz de Lola: Marcelo Valle Silveira Mello, justamente um dos criadores de fóruns de extrema direita que propagam ódio e incitam crimes de maneira anônima na internet. Além disso, trollam (na linguagem virtual é pregar uma peça, dar um trote) desafetos, alguns com consequências graves. A Ponte noticiou e denunciou alguns casos que aconteceram em um desses fóruns, o Dogolachan, e também foi alvo de ameaças do grupo ligado a Marcelo.

Ponte – Você convive há muitos anos com as ameças desse grupo. Às vezes somem, às vezes reaparecem, mas estão sempre orbitando. O que sentiu quando recebeu o e-mail dessa vez? Uma vez que não é uma novidade, o que te motivou a divulgar?

Lola Aronovich – É, são oito anos de ameaças de morte e inúmeras perseguições. Por isso estou acostumada. Não é bacana se acostumar com esse tipo de coisa, mas é o jeito. Então, quando recebi o email de manhã, não me afetou em nada. Eu devo ter bocejado de tédio, sabe? Mais do mesmo. Não falei nem pro meu marido, porque achei que não havia novidade nenhuma ali. Creio que um pouco depois encaminhei o email pra uma jornalista, mas só porque ela tinha acabado de me entrevistar no dia anterior sobre ameaças. Depois fui trabalhar, mesmo estando de férias, respondi a outra entrevista. Quando voltei pra casa, recebi o link de uma leitora para uma matéria mais recente da Folha em que Jean Wyllys relatava a Sérgio Moro novas ameaças que havia recebido nos últimos dias. E aí vi, mais uma vez, que é a mesma quadrilha que me ameaça também, e decidi colocar o print do e-mail pra minha timeline do Twitter. Eu não divulgo nem 1% das ameaças que recebo, mas às vezes é bom divulgar, porque tem gente que não acredita. Tem gente que não consegue nem imaginar as barbaridades que recebemos. E tem um pessoal que acha que eu e outras feministas nos ofendemos por ser chamadas de gordas e feias. A gente nem pisca pra essas ofensas da 4ª série B. O que não dá pra tolerar são ameaças de morte e estupro e esquemas de difamação orquestradas, com várias pessoas envolvidas, por exemplo.

Ponte – Quando a Ponte noticiou a ação desses fóruns, integrantes da nossa equipe foram alvo de ataques, eu inclusive, que talvez tivesse assinado uma reportagem apenas daquela série. Eles mexem com o psicológico, promovem perseguições virtuais, mas existe um medo real? Como lida com isso?

Lola – Eu acompanhei no chan do Marcelo, antes dele ser preso, em maio, a raiva que ele despejava contra os repórteres da Ponte, porque vocês fizeram excelentes matérias sobre ele e sua quadrilha. Ele [Marcelo] entrou com processo contra mim, mais de uma vez, e acabou desistindo quando viu que eu não teria que ir para Curitiba ficar cara a cara com ele. Sei que atacou alguns repórteres da Ponte, mas os Homens Sanctos, a quadrilha do Marcelo, são acima de tudo misóginos. Eles são também neonazistas, racistas, homofóbicos, tudo de ruim, um combo do preconceito. Mas nada os move mais que o ódio contra mulheres. Portanto, pra eles ameaçarem e atacarem homens é muito mais difícil. Falta criatividade. Quase sempre eles acabam atacando as mulheres da vida dos caras: esposa, mãe, filha. Então não é nenhuma surpresa pra mim que eles tenham te atacado, mesmo você não sendo a autora das reportagens. É o que eles fazem: doxxing [descobrir todos os dados sobre uma pessoa e seus familiares, para então poder ameaçá-los e atacá-los] e ameaças. Muitas vezes fazem montagens pornôs com suas fotos ou colocam seu nome e telefone em sites de swing e prostituição. São coisas que eles não podem fazer com homens, só com mulheres. Nesses anos todos, principalmente entre 2013 e 2018, cinco anos ininterruptos, Marcelo e sua quadrilha atacaram centenas de mulheres e homens também. Várias vítimas ficaram bastante abaladas. Afinal, se receber um e-mail dizendo “Vamos te estuprar e te matar e depois te estuprar de novo” já é hediondo, imagina receber essa mesma mensagem e, junto, seu endereço residencial, o nome dos seus familiares e o endereço deles, seu CPF, a placa do seu carro? Isso leva a ameaça para um outro nível. Claro que é perturbador.

Ponte – Mas você sente medo?

Lola – Eu, sinceramente, nunca tive medo deles. Nunca me abalei. Durmo bem à noite. Primeiro porque eu achava que nunca iria acontecer, e segundo, porque, se alguém realmente quer te matar, é meio inevitável. Quando chegaram as primeiras ameaças contra meu marido e contra a minha mãe, doeu muito mais. Mas aí você decide que nada vai acontecer com eles. Só que aconteceu a execução da Marielle em março do ano passado. E aconteceu um outro assassinato em junho. Um rapaz de 29 anos chamado André, codinome Kyo, que fez parte da quadrilha do Marcelo durante anos, e foi até moderador do Dogolachan, avisou no chan que iria se matar e, na mesma noite, saiu às ruas de Penápolis, SP, onde morava, abordou duas moças que ele nunca tinha visto antes, atirou na nuca de uma delas, e se matou. A moça entrou em coma e morreu vinte dias depois. Nessas horas você vê que a ameaça pode se concretizar. Fiquei muito triste com a morte dessa moça, Luciana, porque sua execução foi de uma covardia e futilidade sem tamanho. Mas eu tento continuar lidando com tudo isso da mesma forma: sem me deixar abater. O humor é uma arma importante pra mim. Ajuda também eu ser velhinha e ter maturidade. Talvez, se eu não tivesse 51 anos, se eu fosse mais jovem, eu não lidaria tão bem. E ajuda muito, claro, contar com todo o apoio do meu marido, e de muitas leitoras e leitores também.

Ponte – Apesar de muitos ainda se manterem anônimos, já que o mais conhecido deles é o Marcelo, que está preso, você acredita esse grupo que te atacou e ainda ataca é o mesmo que sempre perseguiu o Jean?

Lola – Sim, sem dúvida, é a mesma quadrilha. Eles começaram a ameaçar o Jean e eu em conjunto, em 2011, através do site de ódio Silvio Koerich, do Marcelo e do Emerson. O Jean por ser ativista LGBT, e eu, por ser feminista. Já naquela época eles anunciavam recompensas pra quem nos matasse. Tanto eu quanto ele somos alvos da quadrilha desde 2011. Mas o Jean tem uma visibilidade muito maior, então certamente ele recebe ameaças de outros grupos também. Agora, não tenho dúvida que a maior parte das ameaças que ele recebe, principalmente aquelas que alvejam seus familiares, vem da quadrilha do Marcelo. É certeza que, desde 2016, vem desse mesmo e-mail: primeiro goec@sigaint, depois goec@protonmail, que é compartilhado entre membros da quadrilha.

Ponte – Você vê relação dessas novas ameaças contra você ao episódio do Jean Wyllys e, como consequência, o dimensão midiática dada ao caso?

Lola – Claro! Eles sempre comemoram muito quando conseguem mídia. É importante pra eles “gerar lulz”, deixar o “gado” indignado, provocar risadas entre eles. Muitas vezes eles competem pra ver quem gera mais repercussão. Se eles ficam sabendo que a vítima está sofrendo, eles celebram. Devem estar comemorando que expulsaram o Jean do Brasil. Isso é um tanto contraditório pra eles, pois eles odeiam o Brasil, que eles chamam de Bostil. O sonho de todos eles é sair daqui. Vai ser duro pra eles acompanharem o Jean sendo convidado pra fazer doutorado em um monte de universidades pelo mundo, para dar palestras internacionais, ver o PSOL processando todos esses reaças que espalham fake news e ganhando… Mas a quadrilha vai tentar manter a mídia que conseguiu enquanto der. Também tem o fato do líder deles, Marcelo, estar preso. Marcelo deve estar recorrendo da sentença a que foi condenado [41 anos de prisão] em primeira instância, e talvez seja uma estratégia da quadrilha caprichar nas ameaças para tentar mostrar que Marcelo não é o único, que ele não pode ser condenado por tudo que o acusaram. E creio também que há vários membros que querem ser presos. A vida deles é um fracasso tão absoluto, que ir pra cadeia pode ser um upgrade.

Ponte – O que pretende fazer ou ainda o que acha que seria necessário para acabar com esse ciclo de ameaças, esse horror?

Lola – O momento é de muitas dúvidas, tanto pra eles, os algozes, quanto pra gente que é perseguida. Todos eles votaram no presidente que os representa. Uma das promessas de campanha, de posse e porte de armas, é irresistível pra eles, que fantasiam em cometer atentados contra feministas, mulheres em geral, ativistas LGBT e negros. E Bolsonaro já manifestou diversas vezes o mesmo preconceito que eles têm contra minorias. Todos eles são de extrema direita e apoiam Bolsonaro desde 2011. Mas imagino que seja decepcionante pra eles ver que, mesmo elegendo o candidato dos sonhos deles, o “mito”, a vida deles continue a mesma miséria. Então eles estão testando, ver quão longe podem ir com as ameaças, ver se o governo Bolsonaro e o Judiciário darão sinal verde pra eles contra a gente, ver se teremos uma ditadura em que nós seremos fuziladas num paredão ou jogadas de um helicóptero, e eles serão recompensados por atormentar quem eles chamam de escória. Enquanto isso, nós também queremos saber qual é a de Bolsonaro, e principalmente a do seu super ministro da Justiça, Sérgio Moro. Haverá investigação de fato para encontrar os outros integrantes da quadrilha do Marcelo? Se reunirmos provas de que, assim como existem ligações perigosas entre a família no poder e as milícias, também podem existir ligações entre a família e gangues virtuais, alguém irá investigar isso? Nós, ativistas, seremos criminalizadas por Bolsonaro, que em seu pronunciamento logo após o primeiro turno prometeu acabar com o ativismo? Perceba que ele não prometeu acabar com milícias virtuais que atacam e ameaçam ativistas, mas com o ativismo. Então é patente que ele tem lado. Portanto, como esperar que a Lei Lola, sancionada em abril do ano passado, seja realmente implementada? A Lei Lola é importante porque atribui à Polícia Federal a investigação de crimes contra mulheres na internet. Mas e se quem o novo governo colocou na direção da PF ver nós mulheres como criminosas? E se o governo determinar que quem defende a legalização do aborto está fazendo apologia ao crime e deve ser presa? E se o governo classificar ativistas como terroristas? É preciso que todas e todos nós fiquemos alertas. A luta será árdua, e não podemos fugir dela.

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