Morte e prisão: as violências da PM de Doria na vida de Elaine Maria

21/10/19 por Arthur Stabile

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Assassinato do filho Wesley e prisão do companheiro, apontado como inocente por vizinhos, abalam a vida de uma mãe, que luta por justiça e pelos três filhos vivos

Elaine segura o certificado de óbito do filho Wesley, 16 anos, morto em perseguição da PM | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Elaine Maria do Nascimento tem 33 anos. Há cerca de um ano, a atendente está desempregada. Ela mora na entrada da Comunidade Mauro 2, na travessa da rua Mauro, próxima à estação Saúde da Linha 1-Azul do Metrô de São Paulo, na zona sul da capital paulista. Mãe de quatro filhos, ela tem na polícia um motivo de sofrimento maior do que a falta de trabalho: em quatro meses, viu o companheiro ser preso acusado de traficar drogas – versão inverídica, segundo familiares e vizinhos – e perdeu o filho mais velho morto em uma suposta perseguição policial.

A dor mais recente não tem cura. Wesley Xavier do Nascimento Soares tinha 16 anos. Na tarde do dia 12 de julho, uma sexta-feira, por volta das 16h30, ele saiu de casa. Elaine não sabia, mas o filho mais velho tinha como objetivo participar de um roubo com um conhecido da região. Ele nunca mais voltaria para casa. Em uma moto, os dois foram perseguidos por PMs, que acertaram Wesley com três tiros na cabeça – dois na nuca e um na têmpora. De acordo com Elaine, o médico disse, após a morte, que as marcas no corpo indicavam “que não era tiro de longe”.

Segundo o boletim de ocorrência, os PMs Claudinei Francisco de Sousa e Fabio Alexandre começaram a perseguir a moto na rua Alvorada quando o garupa “bateu na cintura do motorista, como que para alertá-lo” e fugiram. Os policiais sustentam que Wesley, o garupa, estava com uma arma e disparou três vezes, enquanto o PM Fábio revidou, sem saber dizer se acertou algum dos dois – o policial fez questão de ressaltar essa dúvida à Polícia Civil. Wesley teria dado mais um disparo antes dos dois caírem da moto, ainda de acordo com a versão da PM. Wesley teria sido dominado por Claudinei e levado ao hospital. Lá foram identificados os disparos na cabeça.

À delegada Erika Pereira Pinto, do 27º DP (Distrito Policial), os policiais militares explicaram que o jovem passou por cirurgia, “mas, aparentemente, não corre risco de morte”. O motorista, identificado como Cleverson de Oliveira Gomes, teria tentado atirar no PM enquanto estava caído e foi baleado, morrendo na hora. De acordo com o documento da Polícia Civil, os dois roubaram o celular e correntes de uma mulher na rua Macau. A vítima teria reconhecido Wesley como quem a ameaçou com a arma.

Wesley resistiu por quatro dias internado no Hospital São Paulo. Neste intervalo, Elaine viveu um pesadelo, afinal, não teve autorização para acompanhar a tentativa dos médicos em manterem seu primogênito vivo. Segundo ela, os PMs a impediram de vê-lo. Elaine conta que havia, inclusive, uma funcionária da Fundação Casa junto com a equipe de escolta do jovem, o que a levou a crer que o filho seria preso caso se recuperasse. Na terça-feira (16/7), o pior cenário se confirmou quando os médicos constataram a morte cerebral de Wesley.

No atestado de óbito consta que a causa da morte foi traumatismo crânio encefálico causado por agente perfuro contundente, disparo de projétil de arma de fogo. O documento está registrado às 17h33 do dia 18 de julho, dois dias após a morte, pela decisão da família em doar os órgãos aptos para transplante. No começo da tarde de sexta-feira, dia 19 de julho, exatamente uma semana após sair de casa, Wesley foi enterrado.

Wesley, de boné, com a mãe Elaine e os três irmãos | Foto: Arquivo pessoal

“Foi tudo muito rápido, não tive tempo de me recuperar de nada. E, agora, estou correndo atrás. Por mais que ele estivesse errado, eles [policiais] poderiam ter feito qualquer coisa, não precisavam chegar a esse ponto”, critica a mãe, que imaginava ter conseguido seu objetivo ao aconselhar o garoto dois anos antes, quando, aos 14 anos, passou pela Fundação Casa após participar de roubo a uma residência.

“Conversei muito com ele, expliquei que isso não é vida, não é legal, não é justo. As pessoas lutaram para conquistar o que elas têm e, aí, ele falou que eu tinha razão. Ele mudou muito lá dentro [Fundação Casa], até as assistentes diziam que ele evoluiu muito”, relembra Elaine. Ela conta que o filho estava retomando os estudos para terminar o segundo ano do ensino médio antes de cursar a faculdade de engenharia, seu sonho.

“Saiu de lá para melhor, com outra visão do mundo. Mas é aquela velha história, não sabia falar não para os outros. Não sabia que ele tinha entrado para esse caminho. Deu no que deu”, lamenta. “O Wesley era o tipo de pessoa que, se tivesse consideração por você, iria ajudar, independente do que era. Isso era algo que eu pegava muito no pé dele, dizia: ‘às vezes a gente tem que aprender a falar não, temos que ser o chato’. E ele nunca foi assim. Dessa vez foi um caminho sem volta”, emenda.

A dupla perda

As dores e dificuldades de Elaine começaram antes do homicídio de Wesley. No dia 22 de março deste ano, seu companheiro, Fábio da Silva Alves, foi preso na travessa da rua Mauro sob suspeita de traficar drogas, conforme versão apresentada pelos PMs no 16º DP (Distrito Policial), da Vila Clementino, na zona sul da capital paulista. Ele estaria com 200 porções e um tijolo de maconha, totalizando mais de 1,5kg de droga, em uma mochila. Apenas a versão apresentada pelos policiais liga Fábio à droga, como em 75% das condenações por tráfico de drogas. Em menos de três meses, a Justiça de SP o condenou a cumprir sete anos, três meses e 15 dias de prisão em regime fechado, ainda que familiares e vizinhos apontem para versão diferente da contada pelos policiais.

Naquele dia, Fábio havia acabado de deixar a filha de nove meses com Elaine – ela é a única filha biológica dos dois. O casal mora na travessa da rua Mauro em casas que ficam literalmente uma de frente para outra: ele vive com a mãe, ela com os quatro filhos. Como de costume, Fábio cuidava da garota pela tarde e, à noite, trabalhava em uma pizzaria como “flanelinha”. Depois de entregar a pequena, ele conversava com o dono de uma bomboniére ao lado da casa, na parte inferior da travessa. Foi quando quatro policiais entraram.

Segundo testemunhas, três deles passaram direto por Fábio e subiram até a entrada da Comunidade Mauro 2, área onde há reconhecidamente uma biqueira (ponto de venda de droga). O último dos policiais, no entanto, pegou Fábio e o arrastou por cerca de 20 metros até a biqueira, como narram os que viram a cena. Ali, contam os vizinhos, os PMs argumentaram que ele traficava drogas. Daí por diante, a luta é para conseguirem provar que Fábio, ex-usuário de crack, nunca teve envolvimento com venda de drogas, muito menos estava com uma mochila repleta de entorpecentes.

“Fui lá perguntar o que estava acontecendo, o Fábio estava no chão em uma poça d’água e os PMs dentro da casa do Robson. O PM falou que ele não era trabalhador, que era traficante. Já chegaram acusando, me mandou calar a boca e me chamou de vagabunda”, conta uma moradora da região, sob condição de anonimato. “Pedi para ele mostrar a droga que ficaria quieta e ele pegou um saco preto vazio que estava do lado e disse ‘ó aqui, ó’. Sabe quando você pega um saco plástico e fica com ar dentro? Era assim, não tinha nada”, relembra.

A versão da comunidade é a de que Fábio não tinha nenhuma droga, nem mochila, item apresentado pelos PMs no DP e que baseou a condenação por tráfico, com agravante por “maus antecedentes”. À Justiça, o homem disse que viu a mochila dentro da viatura dos PMs e entendeu que a prisão em flagrante por tráfico “seria forjada”. Quem vive na travessa dá versão similar. “Na hora que colocaram o Fábio na traseira da viatura, o policial tirou uma bolsa da parte de traz da viatura e colocou no banco do passageiro. O Fábio não estava com bolsa, ela já estava na viatura. Ele olhou para a minha cara e disse: ‘tem droga, eles vão fazer alguma coisa, corre para a delegacia'”, conta a moradora.

Fábio mostra um presente que ganhou para o segundo filho de Elaine, que o tem como pai | Foto: Arquivo pessoal

Na sentença, o juiz Fabrizio Sena Fusari, da 12ª Vara Criminal de São Paulo evidencia que o histórico de Fábio pesou na decisão. Há passagens por roubo e furto e condenações anteriores por estes crimes, época em que ele era usuário de crack na região da Saúde, como os próprios familiares contam. Mais do que relembrar um passado sem perspectiva, destacam a superação do homem que, antes de ser preso, estava trilhando um caminho limpo, como dizem.

Robson Barbosa é uma das pessoas que defendem Fábio, tanto em conversas com jornalistas quanto no processo que ele responde. Os dois têm uma amizade pelo menos 25 anos. Ou seja, o vendedor de churrasco sabe bem os rumos da vida de Fábio. “Ele foi mesmo dependente químico. Isso aconteceu quando sumiram as rodas de um carro no lava-rápido que ele trabalhava. Por ser mais preto, acusaram ele, que se afastou mesmo com o apoio que recebeu do dono do lugar e entrou para as drogas. Ficava dias sem voltar para casa, embaixo de uma ponte aqui na Saúde, consumindo drogas”, relembra.

Os amigos afirmam que o início da superação veio com a morte de uma irmã, em 2013, quando ele estava preso. Ele não conseguiu ir ao enterro, ficou muito abalado e, tudo isso, somado à rotina de idas e vindas do sistema prisional, o fizeram mudar. “Quando saiu, ele decidiu que ia parar com tudo. A gente não tinha mais esperança, não confiava mais. Sentamos e conversamos: ‘você tem que ser um homem correto ou vai viver uma vida fora daqui e esquece que você tem família, não vamos te ver em cadeia e o que acontecer lá fora, ficará lá fora. Sua mãe perdeu um filho, não quer perder outro’. E ele falou: ‘não quero mais essa vida'”, relembra uma parente, que pediu anonimato por medo de represália dos policiais.

Fábio ajudava Elaine a vender açaí e recentemente, em mais um passo para melhorar de vida, ele e o amigo Robson estavam prestes a começar uma parceria: um forneceria carnes e o outro venderia churrasco num ponto próximo à estação de metro e, também, em uma feira de rua que acontece na região. No entanto, a prisão abortou o projeto. Robson está tão ligado à história de Fábio que os PMs entraram em sua casa no dia em que o amigo foi preso e acusado por tráfico.

Ele lembra com carinho do amigo, a quem define como sendo um “cara ingênuo, às vezes tímido”, e esforçado, já que estava procurando trilhar um caminho bom. “Quando saiu dessa vida [das drogas], o bairro todo o admirou. Ele não retrucava quando era acusado das coisas ou enganado. Teve uma vez, lembro bem, que ele entrou numa loja para comprar um tênis caro, um Mizuno de R$ 1,2 mil. Ele estava com um amigo que é branco e a vendedora o ignorou, perguntou para o cara do lado dele. Ele foi, pegou o tênis e pagou à vista com o dinheiro que tinha juntado”, afirma.

Mas a fala de Robson teve o mesmo peso do depoimento de Fábio para o juiz: nenhum. Na sentença, Fabrizio Sena Fusari, além de condenar Fábio por tráfico, determina que Robson e outras duas testemunhas de defesa sejam investigadas por “eventual prática do crime de falso testemunho”. Segundo o advogado Leandro Romeu, que defende o ex-dependente químico, a Justiça também ignorou a versão de mais de 83 pessoas além dos três, cujo nome consta em um abaixo-assinado enviado ao juiz sustentando a inocência de Fábio. Elaine é uma delas.

“No caso do Fábio são 86 pessoas depondo a favor dele contra a palavra de dois policiais. Foram 80 assinaturas sobre seus antecedentes e apenas os lideres da comunidade que viram a abordagem tiveram coragem de contar o que viram, pois todos têm medo e desconfiança da Justiça. Mesmo assim, o juiz desconsiderou as palavras das testemunhas e todos os pedidos de provas da defesa. É um julgamento sumário onde o direito de ampla defesa e contraditório foram espoliados”, sustenta o defensor. “Parece que no Brasil a voz do povo não tem vez e a autoridade deve ser mantida acima de tudo”, segue.

Abaixo assinado de 86 moradores da Mauro 2 em que sustentam a inocência de Fábio | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

De março até agora, Elaine tem tentado manter a base intacta. “Tem sido difícil, tanto porque ele estava sempre com a bebê, que tem pouco tempo de vida, está com 9 meses… Ela sente falta dele, tenho outro filho, de 2 anos, que também sente falta do Fábio porque se apegou muito. Financeiramente, ele me ajudava muito, cuidava dos dois”, explica. Além dos gastos com comida, roupa e demais itens básicos, ela paga aluguel de R$ 800. “O pequeno de dois anos ficou até doente, teve febre. É muito apegado ao Fábio, o tem como um pai”, diz.

Histórico de truculência policial

Quem vive na Mauro 2 considera polícia sinônimo de problema. Não por estarem envolvidos em crimes, mas pela forma como a polícia os vê. Citam sem pensar duas vezes episódios de truculência na comunidade. Um deles envolve a festa junina feita pela comunidade em 2016. Eles dizem que tinham autorização para terminar as festividades pontualmente meia-noite, mas PMs chegaram às 21h cobrando que eles acabassem com tudo. E, como não pararam porque o acordo era outro, os policiais resolveram forçar o fim da festa.

“Já tivemos outros casos de violência policial, inclusive em uma festa junina aqui no bairro em que jogaram spray e apavoraram todo mundo. Não acontecia tantos casos assim, agora acontece muito. Se querem fazer um bom trabalho, ótimo, um bom trabalho sim, não uma banda podre”, lembra Cida de Abreu, integrante da Pastoral Famílias da Arquidiocese de São Paulo. “Foi muito assustador. Os moradores que compraram coisas para vender na festa perderam o investimento que fizeram”, diz Leila Oliveira Francisco, que vive na região há 35 anos.

Este não é o único caso que revela rotina de medo para quem vive além da biqueira instalada na travessa que dá acesso para a comunidade. Quando a PM entra ali, contam, o medo é de perderem alguém. “A violência policial aqui é uma história de anos que tem ficado pior. Eles entram dando tiro, tem criança pequena saindo da escola. Já ouvi PM me dizer ‘quero que se foda, vira estatística’ quando reclamei”, conta Robson Barbosa. Até um cachorro acabou vítima da polícia. “A verdade é que as pessoas tem mais medo do que proteção quando vêem a polícia. Acontece abuso, tapa no rosto… Meu marido já tomou tiro de raspão e um PM entrou em casa e matou um cachorro meu. A PM não nos traz segurança de forma alguma”, relembra Leila.

Ela conhece Fábio desde pequena e considera uma grande violência o que foi feito com ele. “Fiquei com o coração partido com a prisão do Fábio, sei da luta dele. Além de violentos, os PMs o pegaram aleatoriamente, só por estar na favela e ser preto. O caso gerou uma comoção muito grande das pessoas que moram na Mauro 2, ele não tem envolvimento com coisas erradas. Por que os PMs fizeram isso?”, pergunta.

Ninguém faz a mesma pergunta com tanta intensidade quanto Elaine Maria do Nascimento. São sete meses sem ver o companheiro. Pelo pai dos outros filhos ter sido preso, ela passou por um processo de retirar o nome como visitante dele para incluir na lista de parentes de Fábio. Só depois de 5 meses conseguiu os papéis e não por completo, porque ainda falta a autorização do diretor do CDP (Centro de Detenção Provisória) de Guarulhos.

Se ela está com saudade? “Sim! Nos víamos todo dia. Muda toda a vida, tive que adaptar tudo. É complicado. “Não imagino como será o futuro. Sei que será difícil, mas a gente espera que tenha justiça, né?! Que ele saia de lá logo porque está complicado. Torço todo dia”, diz Elaine, tentando manter a esperança do reencontro e não afetar os filhos que sentem muito a ausência de Fábio.

Outro lado

A SSP-SP (Secretaria de Segurança Pública de São Paulo) informou, em nota, que a morte de Wesley Xavier do Nascimento Soares é investigada por meio de inquérito policial instaurado pelo DHPP. “A Polícia Militar também apura as circunstâncias dos fatos por meio de IPM. Denúncias sobre a conduta dos policiais envolvidos podem ser formalizadas junto à Corregedoria da instituição para apuração dos fatos”, diz trecho do texto oficial.

Com relação à prisão de Fábio, a pasta confirma que no dia 21 de março um rapaz foi preso suspeito de tráfico de drogas e afirma que, na ocasião, foi ouvido no 16º DP acompanhado de um defensor. “Testemunhas também foram ouvidas e o material apreendido foi encaminhado ao Instituto de Criminalística (IC), cujo laudo confirmou que as substâncias eram entorpecentes. O autor foi indiciado e encaminhado para audiência de custódia no dia seguinte. Sobre o relato da moradora, a Corregedoria da PM está à disposição para formalização de denúncia e a apuração dos fatos”, concluiu.

A Ponte também procurou o Tribunal de Justiça de SP para falar com o juiz Fabrizio Sena Fusari sobre a decisão, mas, em nota, a assessoria afirmou que o magistrado “não pode se manifestar sobre decisões já proferidas porque são vedados pela Lei Orgânica da Magistratura (Loman)”.

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