Movimentos negros protestam contra loja da Kopenhagen por discriminar músico de rua

Segundo o músico de rua Thiago Morrinho, loja da Avenida Paulista distribuía café em degustação gratuita, mas quis cobrar R$ 1 dele; protesto ocorreu neste sábado, na Avenida Paulista

Protesto na Avenida Paulista | Foto: Gil Luiz Mendes/Ponte

O racismo não tem preço, mas para o músico negro Thiago Morrinho apresentou-se na forma de R$ 1 — o preço que lhe foi cobrado por um café que estava sendo oferecido gratuitamente durante uma degustação da loja Kop Koffe, da rede de chocolates Kopenhagen, na Avenida Paulista, na cidade de São Paulo, em 21 de agosto. O café era oferecido sem custo a pessoas brancas que passavam, mas, conforme o relato de Thiago, quando se aproximou para pedir uma dose, os funcionários resolveram que ele deveria pagar.

Há cerca de dez anos, Thiago se apresenta, como artista de rua, a poucos metros da entrada da loja. “Nesse dia eles estavam distribuindo café e tinha uma fila grande formada só por pessoas brancas. Quando foi a minha vez de pegar o café, o funcionário disse que custava R$ 1. Se para todas as outras pessoas, que eram brancas, o café era de graça, por que para mim tinha preço? Estava claro que era um caso de racismo”, conta.

Segundo o músico, após ele reclamar, o funcionário falou que era apenas uma brincadeira e o responsável pelo estabelecimento teria pedido desculpas. “Em momento nenhum o gerente estava preocupado comigo, ele apenas estava se preocupando com a imagem da empresa”, relata Thiago. 

O músico Thiago Morrinho, que denuncia prática racista pela Kopenhagen| Foto: Gil Luiz Mendes/Ponte

Dois homens negros estavam na porta do Kop Koffe Kopenhagen neste sábado (11). Ambos funcionários do local, olhavam a manifestação realizada por movimentos sociais e amigos de Thiago Morrinho, denunciando para todos que passavam pela Avenida Paulista que o estabelecimento teria sido palco de um crime de racismo semanas antes.

Os poucos clientes que estavam dentro da loja deixaram o estabelecimento assim que começaram as palavras de ordem. A socióloga Rose Almeida é amiga de Thiago Morrinho e foi uma das primeiras pessoas para quem o músico pediu ajuda depois do ocorrido. No protesto, ela era uma das mais indignadas com o episódio.

“Não tem mais espaço para desculpas nessa história. Racismo é crime. Definitivamente a gente precisa criar mecanismos efetivos na sociedade para o enquadramento dsses crimes. Todas essas empresas, que cometem esses crimes todos os dias, têm que saber que não adianta fazer ações pontuais como forma de reparação. A gente é discriminado todos os dias em supermercados, porta de bancos. Isso tem que acabar”, disse a socióloga.

A socióloga Rose Almeida durante o protesto: “isso tem que acabar” | Foto: Gil Luiz Mendes/Ponte

Integrante do movimento de educação popular UNEafro, Wellington Lopes, também presente ao protesto, ressaltou a importância da mobilização dos negros nesses momentos: “Esse não é o primeiro caso, nem será o último. A gente precisa operar numa lógica de suporte para todas as pessoas pretas. Eles precisam ter garantia que elas não estão sós para denunciar e cobrar quem pratica esses atos racistas”.

Racismo X injúria racial

Thiago Morrinho registrou um boletim de ocorrência sobre o fato no mesmo dia, 23 de agosto, no 78º DP (Jardins). Os policiais civis registraram o caso como injúria racial, considerado um delito mais leve do que o de racismo.

A injúria racial ocorre quando alguém ofende a honra de outra pessoa usando elementos referentes a raça, cor, etnia, religião ou origem ou a condição de pessoa idosa ou portadora de deficiência, conforme o artigo 140 do Código Penal. Já o racismo afeta uma coletiva de indivíduos, discriminando toda a integralidade de uma raça, conforme a Lei n. 7.716, de 1989. Enquanto o crime de racismo é inafiançável e imprescritível, com penas que vão de um a cinco anos de reclusão, as penas para injúria racial são de até três anos.

Protesto na Avenida Paulista | Foto: Gil Luiz Mendes/Ponte

Tramita no Senado Federal um proposta de autoria do senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP) que aumenta as penas referentes a condutas criminosas de injúria preconceituosa e discriminação. No novo texto o crime passaria a ser punido com pena de reclusão de três a cinco anos.

O que diz a Kopenhagen: ‘experiência ruim’

Em resposta à reportagem, a assessoria de imprensa da rede Kopenhagen afirmou que tomou conhecimento sobre o episódio de racismo e que tomou “medidas cabíveis”, sem dizer quais. A empresa chamou de “experiência ruim” a violência sofrida por Thiago Morrinho:

A Kopenhagen repudia qualquer tipo de atitude discriminatória, não tolera distinção entre os clientes e deixa essa premissa evidenciada em todos os treinamentos e políticas de conduta dos colaboradores.
Lamentamos profundamente que o Thiago não tenha tido uma experiência agradável conosco naquele dia específico e esperamos, de verdade, que as experiências anteriores que ele teve conosco, uma vez que ele sempre foi assíduo na nossa loja da Paulista, possa aplacar ao menos um pouco a experiência ruim que ele teve nesse fatídico dia e que ele possa nos dar outras oportunidades para provarmos o quanto ele é especial para nós.

Reportagem atualizada em 12/9, às 10h50, para inserir o posicionamento da Kopenhagen

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