MP denuncia quatro homens por massacre em Suzano (SP)

04/06/19 por Arthur Stabile

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Órgão considerou que eles são diretamente responsáveis pelas mortes ao venderem armas utilizadas no ataque à Escola Estadual Professor Raul Brasil; em março, dois jovens mataram 8 pessoas e cometeram suicídio

Homenagens prestadas às vítimas em frente à escola Raul Brasil | Foto: Renan Omura/Ponte Jornalismo

O MPE (Ministério Público Estadual) de São Paulo denunciou à Justiça quatro homens pelo massacre ocorrido na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, cidade na Grande São Paulo. Em 13 de março de 2019, dois atiradores invadiram o local e mataram dez pessoas.

Agora, a Justiça analisará o material e tornará, ou não, os denunciados réus por oito homicídios consumados e por 11 tentativas de homicídios – total de pessoas que se feriram na ação da dupla, entre alunos e funcionários.

O promotor de Justiça Rafael Ribeiro do Val considerou que Cristiano Cardias de Souza, Adeilton Pereira dos Santos, Geraldo de Oliveira Santos e Marcio Germano Masson devem ser responsabilizados por venderem a arma e as munições que os dois jovens utilizaram no ataque ao tio de um deles, a cinco estudantes e duas funcionárias – e, depois, se mataram.

Segundo o órgão, Cristiano negociou diretamente a venda das munições e intermediou que o assassino, ex-aluno da Raul Brasil, adquirisse a arma com Geraldo. Esse armamento utilizado tinha numeração raspada. A dupla ainda usou uma besta, uma espécie de arco e flecha, e um machado no ataque. Marcio e Adeilton estão denunciados por terem vendido uma outra arma, de calibre 38, aos dois jovens.

Val ainda pede a prisão preventiva dos quatro denunciados. Para ele, a ação visa garantir a ordem pública “quando toda a sociedade trava uma batalha contra o aumento indiscriminado da violência, exigindo (…) uma resposta rápida e eficaz do Judiciário”.

Em 13 de março, dois jovens entraram na escola armados. Ambos haviam estudado no local, um de 17 e outro de 25 anos, e atacaram quem estava em sua frente. Membros de fórum misógino e racista comemoraram o crime, apontando que o modelo do ataque é similar aos de incels – celibatários involuntários, homens que não conseguem fazer sexo e culpam as mulheres e o mundo por isso: são racistas, misóginos, homofóbicos e compartilham conteúdo pornográficos com predileção a pedofilia, além de incitarem o estupro.

Os dois ainda tinham em planos humilhar as garotas durante o ataque, mas, durante a ação, um dos assassinos recebeu golpes de uma aluna, que é lutadora. A informação surgiu em conversas de WhatsApp de um terceiro jovem, também de 17 anos, considerado “mentor intelectual” do plano.

As vítimas do massacre são: a coordenadora pedagógica Marilena Ferreira Veira Umezo e a funcionária Eliana Regina de Oliveira Xavier, e os estudantes Pablo Henrique Rodrigues, Cleiton Antonio Ribeiro, Caio Oliveira, Samuel Melquiades Silva de Oliveira e Douglas Murilo Celestino morreram, que tinham entre 15 e 16 anos. O tio de um dos assassinos, Jorge Antonio Moraes, foi morto antes da ação na escola.

Um dos sobreviventes, José Vítor, de 18 anos, andou aproximadamente 400 metros sem receber ajuda até o hospital de Suzano, onde recebeu atendimento. Conforme explica a mãe do jovem, Sandra Regina, à Ponte, uma demonstração de racismo. “As pessoas viram que ele estava com uma machado cravado e pensaram ‘O que ele fez para ter sido machucado?’, pensando que ele teve culpa da machadada”, explicou, à época.

O enterro coletivo motivou pedidos por paz e contra a liberação de armas, ação promovida pelo governo do presidente Jair Bolsonaro (PSL). “Meu irmão tinha 23 anos quando foi assassinado em Poá [cidade vizinha a Suzano]. Depois disso, minha mãe nunca mais foi a mesma pessoa. Ficou doente e permaneceu na cama por 14 anos, vindo a falecer em novembro do ano passado”, contou Rosi Ribeiro, um dos populares que prestou homenagem às vítimas. “Fico triste por todas as mães, até mesmo a mãe dos atiradores, que não puderam realizar um enterro digno para seus filhos”, concluiu aos prantos.

Já o governador de São Paulo, João Doria, propôs aos familiares das vítimas um acordo de indenização “em torno de R$ 100 mil”, colocando entre as condições que os parentes não processassem o Estado pelas mortes ocorridas dentro de um ambiente público cuja responsabilidade é do governo. Uma coletiva de imprensa nesta quarta-feira (4/6) anunciará o resultado do grupo formado para definir os acordos. Especialistas consideram a cláusula inconstitucional.

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