Musical de Elza Soares mostra que, apesar de tudo, ela ‘escolheu falar e existir’

03/08/19 por Mariana Ferrari, especial para Ponte

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Em cartaz no Teatro Sérgio Cardoso, em São Paulo, musical expõe as diversas ‘mortes em vida’ pelas quais a cantora passou e desperta inúmeros sentimentos

Musical está em cartaz em São Paulo | Foto: Daniel Barbosa/Leo Aversa/Divulgação

“Elza, o musical” poderia ser mais uma peça de teatro sobre a biografia de uma cantora carioca, que ficou conhecida nos quatro cantos do Brasil depois de dizer ao locutor Ary Barroso que vinha do “planeta fome.” Poderia ser a narrativa de uma mulher negra, da favela Moça Bonita, que conquistou a fama com o seu talento inimaginável.

Poderia, mas não é. A peça que tem mais de duas horas de duração é sobre a morte em vida. E sobre mortes simbólicas, Elza é referência.  

Janamô, Júlia Tizumba, Késia Estácio, Khrystal, Laís Lacôrte, Verônica Bonfim e a atriz convidada Larissa Luz vislumbram o público nos segundos iniciais da apresentação. No primeiro timbre, Larissa Luz assusta com a incrível semelhança sonora com Elza Soares. O palco ganha som e ritmo com o famoso samba de Paulo Vanzolin: “Volta por cima”. Quem estava sentado nas cadeiras do Teatro Sérgio Cardoso, na zona central de São Paulo, não sabia a potência do musical. Era só o começo.  

Antes de Elza soltar a voz na falecida rádio Tupi, em 1953, ela conheceu de perto a afronta que é existir. Aos 12 anos casou-se com um homem que havia lhe despertado desprezo. Obrigada pelo próprio pai, Elza acabou enjaulada por um documento no cartório. Seria uma das suas primeiras mortes. Aos 13 anos a menina de Moça Bonita pariu pela primeira vez.   

Sem pausa, o espetáculo provoca diferentes sentimentos a cada minuto. É impossível não se arrepiar com as potências vocais do elenco. O choro é consequência de ver a morte tão de perto. O desacerto é como descoberta, de como uma mulher chamada Elza Soares esteve dentro de um relacionamento tão conturbado quanto midiático. Sobre Garrincha, a peça esclarece a paixão, a cegueira e o desacerto. Fala também sobre coragem.  

A famosa relação entre a cantora e o jogador de futebol Mané Garrincha tornou-se pública em 1962, quando o casal embarcou rumo ao Chile. Ele para representar a seleção brasileira e ela para ser Madrinha da Copa. Voltaram com o bicampeonato mundial e manchetes estampando o novo amor descoberto. A paixão dos dois foi como uma galinha de ovos de ouro para a imprensa brasileira. Garrincha era o herói, enquanto Elza passou a ser culpada pelo baixo rendimento do jogador, que surgiria pouco depois. Ali, Elza morreu mais uma vez. Morreu por descobrir que ser mulher em uma relação midiática era sinônimo de culpa. Mais para frente, ela morreria ao sair de casa após o marido lhe levantar a mão.  

O tempo passa e a cada nova cena mais mortes são apresentadas. Elza é a personificação da famosa frase da escritora Conceição Evaristo: “Eles combinaram de nos matar, mas nós combinamos de não morrer.” Ainda que a vida tenha tentando, Elza Soares sabia que precisava permanecer viva. “Escolhi falar e existir”, entoa Larissa Luz. Não bastava existir, era necessário falar. Gritar. Enquanto vida, Elza é palavra que move. E para mover é necessário incomodar. Isso, o musical soube fazer brilhantemente.  

Encerramento da peça acontece com “A carne”, música imortalizada na voz de Elza, que trata do genocídio da população negra e periférica todos os dias, em todos os lugares | Foto: Mariana Ferrari/Ponte Jornalismo

Já perto do fim, as atrizes encenam não só sobre Elza. Mas sobre a vida dos negros. Sobre a morte como um fato consumado. Sobre a venda de uma carne. Juntas, elas cantam um hino dos anos 2000. Sobre quando Elza, novamente, soube existir pela fala. Aquela que incomoda, machuca, fortalece e ressignifica. “A Carne” é uma das últimas músicas da peça. Em forma de resistência, as atrizes, todas mulheres negras, levantam o braço com o punho fechado e despertam o mesmo movimento no público negro presente. É o ápice da apresentação. Ali, elas ressignificam a canção para 2019. “A carne mais barata do mercado ERA a carne negra”, cantam em coro, enquanto, ao fundo, aplausos e gritos chegam a disputar o volume com as caixas de som. “Parem de nos matar” é um pedido. É falar e existir. Assim como Elza Soares sempre fez ao longo de todas as suas mortes em vida.  

Elza da Conceição Soares é uma mulher que morreu e mataram. Mas que escolheu existir. Resistir e viver. E continuará até o corpo, literalmente, morrer.  

A peça fica em cartaz até o dia 11 de agosto, no Teatro Sérgio Cardoso (Rua Rui Barbosa, 153). Os ingressos custam a partir de R$ 15. A direção do espetáculo é de Duda Maia. Vinícius Calderoni assina o texto e a direção musical é composta por Pedro Luís, Larissa Luz e Antônia Adnet. Os arranjos musicais são de Letieres Leite. Andréa Alves idealizou e assina a produção. Somente mulheres compõem o elenco e a banda.  

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