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“Não foi incidente, foi massacre”, gritam moradores de Paraisópolis em ato

14/12/19 por Daniel Arroyo e Caê Vasconcelos

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Movimento sociais, culturais e estudantis se unem à favela para marchar contra as 9 mortes em baile funk de Paraisópolis

Paraisópolis contra a repressão do Estado | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Duas semanas depois do massacre de Paraisópolis, onde 9 jovens foram mortos em uma ação da Polícia Militar no Baile da Dz7, mais famoso baile funk da favela, um novo ato aconteceu em Paraisópolis, zona sul da cidade de São Paulo, neste sábado (14/12). Jovens de 14 a 23 anos, que não eram moradores da favela de Paraisópolis, morreram na madrugada do dia 1º de dezembro.

Dessa vez, moradores se articularam com movimentos sociais, culturais e estudantis para marchar por dentro da comunidade. O ato começou em frente à Casas Bahia, na rua Ernest Renam, às 17h, e terminou por volta das 21h na rua onde acontece o Baile da Dz7, depois de rodar a favela.

Ao final do ato manifestantes acendem sinalizadores | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Versos do funk “Eu só quero é ser feliz”, da dupla Cidinho & Doca, foram cantados durante todo o ato, que também contou com gritos de “não foi incidente, foi massacre”, “chega de repressão, a favela quer saúde e educação”, “não acabou, tem que acabar, eu quero o fim da Polícia Militar” e “comunidade, pega a visão, esse protesto é contra a opressão”. O nome dos 9 jovens mortos foi lembrado durante o ato, com gritos de presente.

Maria Betânia Ferreira Mendonça, 61 anos, pedagoga aposentada que vive na favela desde 1973, explicou à Ponte que falar do massacre é falar da opressão nas periferias.

Maria Betânia Ferreira Mendonça: “Existe uma ditadura camuflada aí” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Existe uma ditadura camuflada aí. A gente tem que acordar, principalmente a juventude, a juventude não é o futuro, a juventude é hoje, temos que fazer agora, pois amanhã pode ser as nossas crianças. O jovem tem que lutar, ir à luta, pedir por paz, mas paz por ideais, por melhores condições de vida, por uma educação digna, por uma saúde digna”, indaga Betânia, que foi a primeira mudar a assumir a presidência de uma associação de moradores em Paraisópolis.

Ela também conta que o que aconteceu no massacre é só a ponta de um iceberg que já vinha de antes. “Não é de hoje que a comunidade sofre com repressão. Parece que é um alerta de que precisamos acordar. É muito triste perdemos 9 jovens, ter diversas pessoas machucadas. Não queríamos que a nossa comunidade tivesse na mídia por uma situação dessa, já que temos tanta coisa boa aqui dentro”, aponta.

Rapper brasiliense GOG: “É importante prestarmos solidariedade e termos empatia” | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

O ato contou com o apoio de representantes do movimento hip hop e teve um mini show do rapper brasiliense GOG, que conversou rapidamente com a Ponte. “Eu não venho representando o rap, mas um cantor de rap, como um morador de periferia. Periferia é periferia, eu venho de Brasília para dar esse abraço em Paraisópolis, em todas as periferias acontecem as mesmas cenas, seja no Rio de Janeiro como tivemos a Cláudia, que teve o seu corpo e rosto negro arrastados pelas ruas. É importante prestarmos solidariedade e termos empatia”.

O rapper Guga Brown, 38 anos, nascido e criado em Paraisópolis, uma das lideranças da juventude, explicou a importância da juventude assumir o papel de protagonista na luta. “A juventude tá se unindo para ir para cima e saber realmente a verdade sobre o que aconteceu aqui dentro no dia do massacre. Esse ato é para mostrar a força da juventude, mostrar que o funk é cultura, eles querendo ou não”, disse à Ponte. “Essas duas semanas foram bem dolorosas para a comunidade e para as famílias que estão em força, mas nós da comunidade recebemos eles de braços abertos, estamos juntos na luta com eles”, completou.

Produtor cultural e militante, Guga Brown | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Um dos movimentos presentes no ato foi a Rede de Proteção e Resistência contra o Genocídio. Katiara Oliveira, integrante da Rede, relembrou que a criminalização que hoje acontece com o funk já aconteceu com outras culturas das periferias.

“É importante mostrar que a comunidade tem consciência de que foi um massacre, de que não é um despreparo, que na verdade é um preparo para nos massacrar, para criminalizar a cultura de periferia. Aqui é o funk, mas em outras quebradas já foi batalha, já foi sarau. É importante responsabilizar o governo municipal pela ausência de investimento de cultura e de lazer, pelo governo estadual pela polícia violenta e pelo governo federal pelo discurso que legitima essa violência”, critica Katiara.

Policiais do Baep estiveram no começo do ato em Paraisópolis | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Morador de Paraisópolis, o MC Recoba, funkeiro desde 2008 e que tem seu som tocado no Baile da Dz7, argumenta sobre a importância do baile para a comunidade. “Muita gente consegue sua renda com o baile. É importante ver as nossas músicas tocando aqui no baile, que é uma forma da gente se divertir e esfriar a cabeça. A forma de lazer é ir para o baile. Quem tem que vir aqui conversar com a gente é a secretaria de cultura, não a repressão. É gratificante morar aqui e ouvir meu som tocando no baile”.

Manifestantes caminham pela favela de Paraisópolis | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Gabi Santana, 21 anos, produtora cultural, uma das moradoras que cuidou da organização do ato, explicou a dinâmica da marcha. “O maior intuito da marcha era mostrar para os moradores da importância de isso estar acontecendo, criar esse diálogo com quem mora aqui. Por isso o trajeto aconteceu só aqui dentro. Queríamos que as pessoas entendessem que o que aconteceu é responsabilidade do Estado”, argumenta Gabi, que conta que, no começo do ato, policiais do Baep (Batalhões da Polícia Militar do Estado de São Paulo) estiveram no local. “Eles chegaram sem falar com a gente, fotografaram e foram embora”.

Manifestante leva faixa com os dizeres “Parem de nos matar” durante ato| Foto: Daniel Arroyo/Ponte

O líder comunitário José Maria, que mora na favela desde 1976 e é integrante da União em Defesa de Moradia, conta que nunca imaginou ver um massacre como esse em Paraisópolis. “A gente espera que o nosso filho faça o nosso enterro, mas agora os pais fazem o enterro dos filhos. Eu não estou culpando o policial que fez, que também é assalariado. A ordem vem de cima. O que aconteceu aqui dentro da comunidade é não atirar, é matar”. 

Ele conta que tem medo da presença da polícia no local. “Eu quero ter coragem de passar por um policial quando eu ver ele aqui, mas eu vejo um policial e tenho que correr. Eu vou confiar nele? Não vou confiar nele. Eu fico contrariado. Por isso temos que juntar o povo. O funk dá emprego para as pessoas aqui dentro”, critica.

Faixa estendida próximo ao local onde ocorre o Baile da Dz7 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

Para Jonathan Gregório, 30 anos, nascido e criado na favela, que também é voluntário do Projeto Chance, cursinho comunitário de Paraisópolis, o que aconteceu no massacre foi uma ação criminosa da PM que acontece também em outras periferias.

“Eu sempre falo que você consegue desenhar o rosto de uma pessoa que é assassinada por uma polícia sem precisar olhar foto, somente pelo perfil. E o perfil qual é? Negros e negras, residentes da periferia, de baixa renda e jovens. A gente não aceita isso”, crava Jonathan.

Manifestantes ao final do ato em Paraisópolis | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

“Quando a juventude se reúne para criar um espaço para se divertir é tratada dessa forma, é criminalizado e paga com a própria vida. Não é criminalizando o funk que vai resolver alguma coisa, não é pisoteando, atirando para depois saber o nome que vamos resolver. Mas essa é a política que vem sendo praticada secularmente pelo Estado”, critica.

Ato terminou por volta das 21h na rua onde acontece o Baile da Dz7 | Foto: Daniel Arroyo/Ponte

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