‘Não tem como perdoar’, diz mãe de catador assassinado pela PM

Ato em memória ao assassinato do catador Ricardo Silva Nascimento | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Durante missa de sétimo dia da morte de Ricardo Nascimento, familiares do carroceiro, artistas e ativistas realizaram ato de repúdio à violência policial nas escadarias da Catedral da Sé, em São Paulo

Ato em memória ao assassinato do catador Ricardo Silva Nascimento | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

“Em outros dias, em outros tempos, fizemos aqui a memória de Vladimir Herzog, como fizemos a memória de Santo Dias, assim como hoje fazemos a memória de Ricardo Nascimento, catador que foi executado friamente pela polícia militar de São Paulo. E que representa dezenas de pessoas. Lembramos também os dois moradores de rua que morreram entre o final da noite de ontem e esta madrugada: um na Dr. Arnaldo, diante da Faculdade de Saúde Pública, e outro na avenida do estado, na região do Bom Retiro. Não aceitamos que nenhuma vida seja atingida, que nenhuma vida seja destruída. Que moradores de rua sejam tratados com dignidade e respeitados”, sentenciou o padre Julio Lancellotti, da Pastoral do Povo da Rua, diante de centenas de pessoas, dentro da Catedral da Sé, minutos antes da bênção final na missa de sétimo dia da morte de Ricardo, assassinado em Pinheiros, zona oeste da capital paulista, no dia 11/7.

Lancellotti convocou os presentes, ao final da celebração, a seguirem até as escadarias da catedral para um ato de repúdio à violência policial e à invisibilidade das pessoas em situação de rua. “Que bom seria se já tivesse chegado o dia que a gente pudesse dizer assim: essa foi a última celebração que fizemos por causa de uma morte violenta. Bom seria se a paz e a justiça existissem. Que bom seria se não precisássemos lembrar o quanto de gente tem na rua e o quanto ainda vai morrer. Mas exatamente porque isso não é uma realidade, nós continuamos aqui, para não nos calar diante de fatos como esses”, pontuou o bispo Devair Araújo da Fonseca, no encerramento da missa celebrada por ele.

Padre Julio Lancellotti conforta a mãe de Ricardo, Aristides Santana | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

A empregada doméstica Aristides Silva Santana, de 54 anos, mãe de Ricardo, foi confortada por Lancellotti e, emocionada, falou à Ponte Jornalismo: “Ele era um bom filho”, disse, fazendo uma longa pausa, interrompida pelo choro contido. “Eu não tinha como reclamar dele. Mas simplesmente aconteceu, fazer o quê? Todo mundo gostava dele”, continuou. Ela afirmou que não gostava de saber que o filho morava na rua, mas procurava entender que era uma opção dele. “Não acordei ainda, estou dormindo. Eu estou na base do calmante. Vivo assim, dopada. É difícil”, desabafou.

A mãe de Ricardo disse ainda que participar da missa e daquele protesto, de certa forma, acalmam o coração, que está muito apertado. “Eu fico mais feliz, mais contente, né? Porque voltar ele não vai, mas esse apoio, essas pessoas estarem aqui eu fico mais feliz”. E sobre perdão, foi taxativa: “Perdoar a gente não vai perdoar, quem vai perdoar é aquele lá”, disse, apontando para o alto, em referência a Deus. “Não tem como perdoar uma pessoa dessa. Não é justo uma pessoa fazer isso com outra. Essas pessoas que catam papelão na rua são iguais a qualquer um de nós”.

Tanto Padre Julio Lancellotti, quanto outros participantes, repudiaram a ação da zeladoria da Prefeitura de São Paulo, que, no início da manhã, disparou jatos de água, para suposta limpeza da praça da Sé, molhando cobertores de alguns moradores, lembrando que os termômetros registravam 10 graus, em média.

Aristides segura a foto que guarda na carteira do filho Ricardo | Foto: Maria Teresa Cruz/Ponte Jornalismo

Negão, como era conhecido Ricardo, era muito querido na região onde vivia e onde foi assassinado, o que ficou expresso na presença de moradores de Pinheiros na missa em sua homenagem. O grafiteiro e ativista Mundano, um dos idealizadores do movimento Pimp My Carroça, que luta pela visibilidade dos catadores de papelão, conhecia Negão há cerca de 4 anos e tinha um carinho enorme por ele: “Encontrava o Ricardo toda semana, sempre trabalhando. Ele tinha 3 carroças, que sempre estavam cheias. Ele era um cara que gostava da liberdade. Ele nunca quis ter a carroça grafitada porque ele dizia: ‘Mundano, eu quero continuar invisível, tenho medo de chamar a atenção, tenho medo da policia’ e eu respeitei a opinião dele. Sempre encontrava, batia um papo, ele era super generoso, sempre oferecia a comida, podia ser do pouco que tinha”, recorda.

Mundano chegou ao local do crime 15 minutos depois de a polícia ter disparado duas vezes contra Ricardo. “Pude ver a polícia mexendo, alterando a cena do crime. Foi um crime atrás do outro,. Primeiro a execução, depois o sumiço das provas. Acho que eles foram ameaçando comerciantes, porque não entregam as imagens. A verdade é que independente da forma com que os policiais abordaram ele, nada vai justificar uma execução a sangue frio. E isso não é um caso isolado. Acontece todos os dias. Vale sempre lembrar que a população pobre preta invisível, como os catadores, não tem nenhum dos direitos garantidos”, afirmou Mundano, ao lembrar que, após a morte de Ricardo, o Pimp May Carroça grafitou a carroça dele como uma homenagem póstuma e acorrentou-a na esquina onde ele foi assassinado durante a manifestação que aconteceu na semana passada. “Aqui em são Paulo o ser humano está sendo tratado como lixo, como sujeira. Não existe cidade linda sem os catadores, eles que estão todos os dias limpando as ruas, fazendo reciclagem”, alfinetou Mundano, em referência ao programa da gestão Doria, o “Cidade Linda”.

A cerimônia reuniu centenas de pessoas e se transformou em um manifesto com a participação de moradores de rua, de artistas como Sergio Mamberti e Letícia Sabatella, que definiu o protesto como um ato de resistência à barbárie. “A gente tem experimentando essa violência arbitrária e segregação humana diariamente. A violência da polícia tem que acabar. Não é assim que se faz uma sociedade plena. Realmente comovente e revoltante o que aconteceu. É algo para parar e se repensar como sociedade”, disse a atriz à Ponte.

Também estiveram presentes o jornalista Juca Kfouri, o desembargador Dr. Antônio Carlos Malheiros e o Ouvidor das Polícias de São Paulo, Júlio César Neves. Após a missa, as escadarias da Catedral foram palco de uma série de discursos. O primeiro a falar foi o jornalista Audálio Dantas. Na sequência, Ana Christina Domineghetti responsável pela organização da missa e representante dos moradores de Pinheiros. Dantas, que há 42 anos fazia um comovente discurso denunciando as torturas cometidas pelo regime militar no culto ecumênico em homenagem ao jornalista Vladimir Herzog, voltou a denunciar a violência do Estado. Audálio Dantas concedeu o seguinte depoimento à Ponte:

“Esse movimento nasceu de maneira espontânea pelo moradores do bairro de Pinheiros. E para mim, este é o dado mais importante. A rotina de assassinatos de pessoas pobres, negras e que vivem nas favelas está longe dos olhos da classe média. Essas mortes não comovem a nossa sociedade. Mas neste caso, como aconteceu na cara dessas pessoas, chocou. Houve uma indignação imediata e uma reação que eu nunca vi.
Uma amiga, Monica Soutello, me pediu ajuda para organizar a missa na Catedral e eu me prontifiquei a ajudar. Houve uma grande mobilização nas redes sociais convocando as pessoas a participarem. Foi tudo muito rápido. Artistas doaram seus trabalhos como o Maringoni que fez a arte das camisetas e dos cartazes. Para imprimir esse material foi feita uma vaquinha entre os participantes. Tudo absolutamente espontâneo e sem participação de partidos políticos.
O resultado disso foi uma Catedral lotada, o que é muito significativo porque tinha gente de todas as cores, mas a maioria era branca e de classe média. Eu espero que essa reação seja permanente, seja um despertar para a realidade de violência em que vivemos.
Há 42 anos, no culto ecumênico celebrado para o Herzog, a catedral também tinha nos seus bancos uma maioria de pessoas de classe média e aquele foi um despertar para as atrocidades cometidas pelo regime militar. Ali nasceu o movimento que deu início a queda da ditadura. Naquele momento, com a redemocratização, as pessoas acharam que a violência do Estado chegava ao fim. Agora, essas pessoas estão vendo que a violência não terminou, está voltada contra pessoas negras e pobres que são assassinadas nos becos e em favelas todos os dias. Esses crimes cometidos na maioria das vezes pela polícia tem o aval da sociedade. Um homem ser morto em plena rua, levar tiros sem necessidade alguma e a sangue frio chocou. Há 42 anos nossa resistência era contra a ditadura militar. Agora, falamos de uma vítima da violência, de uma herança deixada pelos militares.
Que esse movimento seja o começo de uma tomada de consciência por parte da sociedade.”

O ouvidor das polícias, Julio César Fernandes Neves, voltou a reforçar as ilegalidades cometidas pelos policiais no que diz respeito à resolução 5 de 7 de janeiro de 2013, que proíbe policiais de alterarem cena do crime e exige prestação de socorro via Samu. E aproveitou para mandar um recado ao deputados estaduais. “Vocês precisam cobrar a Assembleia Legislativa, porque eles estão querendo acabar com a ouvidoria da polícia, com a independência da ouvidoria com um projeto de lei capitaneado pela bancada da bala”, afirmou Neves ao microfone, fazendo alusão ao PL de autoria do deputado Coronel Camilo (PSD), que extingue a lista tríplice e transfere toda a responsabilidade de nomear o ouvidor ao governador Geraldo Alckmin (PSDB).

A atriz Letícia Sabatella participa de ato em memória de Ricardo | Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

Em entrevista à Ponte, o representante do Comitê dos Catadores do Estado de São Paulo, Cleiton Emboava, afirmou que a luta por visibilidade de catadores é antiga e árdua. “Morremos de frio, morremos de fome, morremos de tiro, morremos de atropelamento, de tantas coisas, menos de causas naturais, já reparou?”, disse. Em todo o estado, são aproximadamente 30 mil catadores de materiais recicláveis pelas ruas. Na cidade de São Paulo, o número está em pouco mais de 15 mil.

“A gente não vai generalizar a polícia. Eu acredito que a maioria são bons policiais. Temos catadores que tem familiares da polícia. São pessoas idôneas, corretas e íntegras. Mas infelizmente essa minoria que faz o uso dessa farda cometer crimes, mancha mesmo a imagem. É como se você tivesse um vestido lindo pra ir num casamento e de repente caísse uma gota de café. Ou você dobra a manga e continua na festa ou você troca o vestido”, concluiu Cleiton.

Foto: Sérgio Silva/Ponte Jornalismo

 

Outro lado

Muito criticada durante a celebração, a Prefeitura de São Paulo foi procurada pela Ponte Jornalismo e enviou a seguinte nota:

A Prefeitura determinou que as empresas prestadoras de serviços apurem se houve intercorrência [na ação de zeladoria que molhou pertences e cobertores de moradores de rua]. O procedimento é sempre o mesmo: as pessoas são abordadas, informadas sobre a ação e é solicitada a retirada dos pertences do local que será limpo. A coordenação das Prefeituras Regionais solicitou que todos os prefeitos reforcem o procedimento junto às contratadas.

O prefeito João Doria chegou a falar no assunto ainda ontem, definindo como ‘desastrado’ o fato de pertences de moradores terem sido molhados: “hoje pela manhã nós fomos informados que uma empresa terceirizada da Prefeitura de São Paulo, procedendo a sua ação de limpeza na Praça da Sé e no Pátio do Colégio, de forma inadvertida ao fazer a limpeza desta área, alguns cobertores foram molhados pelas duas empresas que são terceirizadas da Prefeitura de São Paulo. O Bruno Covas que é o nosso secretário e vice-prefeito já orientou todas as Prefeituras Regionais para que redobrem o cuidado com as empresas terceirizadas para que ao realizarem a limpeza”.

Na continuação da nota, a administração municipal informa que: “Na madrugada desta quarta (19), equipes da Defesa Civil, Assistência Social e da Guarda Civil Metropolitana entregaram mais de mil cobertas em diversas regiões da cidade. A ação deve ocorrer até o final da semana com a entrega de oito mil cobertores. Paralelamente, as equipes de Assistência e Desenvolvimento Social intensificaram as abordagens durante o frio para convencer as pessoas em situação de rua a aceitarem o acolhimento nos equipamentos da rede“. Mas, conforme mostrado pela Ponte Jornalismo, os moradores não receberam exatamente bem a presença de Doria, como pode ser visto nesse vídeo:

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Sobre o assassinato de Ricardo Nascimento, a Polícia Militar afastou o PM José Marques Medalhano, como mostrou a Ponte Jornalismo na semana passada, além de outros policiais da Força Tática que atuaram na ocorrência, que tirados das ruas e realocados para serviços administrativos. O caso está sendo apurado em inquérito policial no 23º BPM. Além disso, a SSP, através da assessoria de imprensa CDN Comunicação, informou à imprensa que “o DHPP (Departamento de Homicídio e Proteção à Pessoa) instaurou inquérito, ouviu testemunhas e encaminhou a arma do PM envolvido na ocorrência para perícia. A polícia irá analisar imagens de câmeras a segurança da região”.

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