Nilton morreu dentro da prisão à espera de soltura após cumprir 30 anos de pena

Certidão de óbito afirma que causa da morte foi asfixia por enforcamento. Família tem dúvidas sobre a versão dada pela direção da penitenciária de Avaré que preso teria cometido suicídio

Nilton Carlos Alves Barreira morreu após passar 30 anos dentro do sistema penitenciário paulista | Foto: Reprodução / Arquivo Pessoal

Nilton Carlos Alves Barreira morreu à espera da Justiça. Pouco mais de um mês após completar 30 anos dentro do sistema carcerário, o tempo máximo que uma pessoa por lei pode ficar privada de liberdade no Brasil, ele morreu dentro da Penitenciária de Avaré, no interior do estado de São Paulo. Consta em seu atestado de óbito que o motivo da morte foi asfixia provocada por enforcamento. A Secretaria de Administração Penitenciária garante que o custodiado tirou a própria vida. A viúva põe em xeque esta versão.

“Fui informada pela direção do presídio que meu marido se enforcou pendurando a calça ao pescoço. Isso não faz sentido porque o único lugar onde ele poderia se amarrar seria na janela da cela, que em Avaré são bem baixas, batendo na altura do peito. Outra coisa que eu me questiono é o porquê ele faria isso estando prestes a ser solto a qualquer momento”, indaga Ana Paula Rodrigues dos Santos, de 53 anos, viúva de Nilton que conheceu o marido ainda na adolescência e passou três décadas visitando-o na prisão.

“Me falam que quando ele foi preso eu fui junto. Porque em todos esses anos eu nunca deixei de ir a um dia de visitas. Enquanto minha família passava Natal, Páscoa e outros feriados juntos, eu estava com ele em alguma cadeia do estado. Posso dizer que minha vida se resumia a visitá-lo aos finais de semana, e quando chegava segunda-feira, começar a comprar as coisas para ele e me preparar para a próxima visita”, analisa Ana Paula.

Ela, junto com os dois filhos, um de 25 e outro de 23 anos, aguardavam ansiosos a libertação de Nilton e faziam planos para os dias que finalmente o pai e marido estivesse em casa. “Como nossos filhos estão grandes, a gente falava que iria aproveitar esse tempo para viajar e fazermos coisas que sempre sonhamos, mas infelizmente não foi possível”.

Ana Paula afirma que além da dor da perda do homem com quem esteve junto por mais da metade da vida, carrega um sentimento que a atordoa: a dúvida. “Eu não consigo acreditar que ele pudesse fazer isso que estão falando. Por que ele se mataria agora, depois de 30 anos presos e prestes a sair. Por outro lado, me pego pensando que, se realmente ele fez isso, foi muita covardia da parte dele, porque a gente esperou muito por esse momento e não seria justo ser tão egoísta e não pensar na gente, na nossa família”.

Filho barrado e falta de autópsia

As incertezas sobre a morte do marido rondam os pensamentos de Ana Paula por conta de episódios ocorridos nos dias que antecederam o falecimento. Ela relembra que o marido tinha problemas de insônia e que com a falta de uma resposta clara da justiça sobre quando ele poderia deixar a prisão depois de cumprir sua pena, teria agravado as noites mal dormidas dentro da cela.

De acordo com a versão da viúva, Nilton passou mal durante uma das poucas horas de banho de sol que tinha dentro da penitenciária de Avaré por conta do forte calor que faz na região do presídio no mês de abril. Devido ao mal estar, o custodiado passou alguns dias dentro da enfermaria.

Na terça-feira, 12 de abril, Nilton mandou uma carta para o seu filho, à qual a Ponte teve acesso, pedindo para que o filho fosse o visitar e dando instruções do que levar de alimentos no dia da visita. “Estou te esperando, sábado, dia 16, pela manhã. Fala para mãe que está tudo bem comigo. Segunda passada falei com a dra. Paula. Ela disse que até junho estarei livre desse lugar”, escreveu Nilton.

No dia da visita, o filho mais velho do casal cruzou a primeira portaria da penitenciária de Avaré, após ser revistado. Passou por uma nova inspeção ficando por último na fila e quando pensou que iria entrar para encontrar o pai, foi informado por funcionários do presídio que não poderia entrar por uma solicitação do próprio Nilton, que teria dito que não queria ver o rapaz.

“Isso não faz nenhum sentido. Como ele não queria ver o meu filho se dias antes ele mandou uma mensagem dizendo que iria encontrá-lo? E as informações foram desencontradas. Meu filho disse que era porque ele não queria vê-lo e teve gente falou que era porque ele estava na enfermaria”, informa a viúva.

Na segunda-feira (18/4), Ana Paula recebeu uma ligação da direção da penitenciária de Avaré informando da morte do marido. Na certidão de óbito consta que Nilton Carlos Alves Barreira morreu no dia de 17 de abril, às 17h30. “Só fui ver meu marido na hora de reconhecer o corpo. Ele já estava na gaveta e tinha marcas roxas ao redor do pescoço”, relembra.

O que restou

A expectativa de Ana Paula e seus dois filhos era finalmente ter uma vida comum ao lado de Nilton, mas hoje têm que conviver com a frustração e a ausência. Trinta anos de uma família que nunca dividiu o mesmo teto traz marcas que deixam sequelas. O fim trágico de uma espera tão grande atingiu o emocional da viúva e dos rapazes.

“Eu estou tendo que fazer acompanhamento psicológico e vou começar a tomar remédios. Eu não choro na frente dos meninos para não abalar ainda mais eles, mas é uma dor muito forte que eu não estou suportando. Um dos meus filhos sempre foi mais na dele e está super retraído e outro tenta esconder, querendo mostrar que está bem, mas não está”, desabafa Ana Paula aos prantos.

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A família lamenta que até hoje os filhos não tenham nenhuma foto ao lado do pai. Buscam esperança de dias melhores na chegada do primeiro neto de Ana Paula , mas mesmo assim a chegada da criança remete ao marido falecido. “Ele estava muito empolgado com a notícia de que iria ser avô. Era tudo que ele mais queria. Coincidentemente soubemos da notícia que meu filho iria ser pai no dia 11 de março, que foi o dia que ele completou 30 anos dentro da cadeia e era para ter saído.”

Outro lado

A Ponte procurou a Defensoria Pública do Estado de São Paulo, a Secretaria de Administração Penitenciária e o Tribunal de Justiça de São Paulo pedindo um posicionamento dos órgãos sobre a morte de Nilton Carlos Alves Barreira, mas até a publicação desta matéria não recebeu nenhuma resposta.

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