No processo dos 18 do CCSP, só falta uma testemunha: o Balta

Justiça encerrou a fase de instrução do processo contra os jovens detidos antes de uma manifestação ‘Fora, Temer’, no Centro Cultural São Paulo, em 2016

Manifestantes no Fórum Criminal da Barra Funda durante audiência dos 18 do CCSP | Foto: Fausto Salvadori/Ponte

Só falta ele: o major de inteligência do Exército Willian Pina Botelho – também conhecido como Balta Nunes, nome falso com que atuou como infiltrado em encontros e manifestações de movimentos sociais durante pelo menos dois anos, até se envolver na controversa prisão de 18 jovens, em 4 de setembro de 2016, antes de uma manifestação ‘Fora, Temer!’.

De todas as testemunhas arroladas no processo, em que os 18 são acusados de associação criminosa e corrupção de menores, falta apenas um nome para ser ouvido. E é ele mesmo, o major Botelho, que ainda era capitão quando os jovens foram presos e que, no Natal do ano passado, ganhou uma promoção “por merecimento”.

Motivo da demora? É que Botelho passou a trabalhar a 4.000 quilômetros de São Paulo, no Comando Militar da Amazônia, depois que sua atuação como infiltrado do Exército foi exposta por reportagens da Ponte e El País.  Arrolado pela defesa dos réus, o major deve ser ouvido por carta precatória no Fórum Ministro Henoch da Silva Reis, em Manaus (AM).

A juíza Cecília Pinheiro da Fonseca, da 3ª Vara Criminal do Fórum Criminal da Barra Funda, encerrou nesta terça-feira (12/12), a fase de audiências de instrução e julgamento do processo, ouvindo as testemunhas que restavam e os 18 réus. A próxima fase, que deve ficar para 2018, é a dos memoriais, com as alegações finais do Ministério Público e da defesa. Depois, vem a sentença da juíza.

Balta podia estar longe, mas as testemunhas arroladas pela defesa falaram bastante dele ontem. O professor da USP (Universidade de São Paulo) Pablo Ortellado relatou uma conversa que teve no Facebook com Balta, logo após a prisão dos 18, em que o major fazia questão de afirmar a identidade falsa e garantir que não era um infiltrado. Outra testemunha, o socorrista Alexandre Morgado, do Gaap (Grupo de Apoio ao Protesto Popular), contou uma conversa semelhante que manteve com o militar no mesmo dia, com um agravante: para explicar por que não havia sido preso junto com os jovens no CCSP, Balta relatou a Alexandre que havia subornado um delegado.

Um testemunho bastante aguardado era o do delegado Fabiano Fonseca Barbeiro, do  Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), responsável pela prisão dos jovens, que havia faltado às duas audiências anteriores, mesmo intimado. Por causa das repetidas ausências, a juíza decretou que o delegado fosse conduzido coercitivamente – por meio de força policial, “sob vara”, no linguajar dos tribunais –, mas desistiu da ordem depois que Barbeiro garantiu que, dessa vez, não daria um bolo.

No depoimento, Barbeiro reafirmou sua convicção de que os 18 jovens e os três adolescentes detidos no CCSP pretendiam cometer “atos de vandalismo” na manifestação – o inquérito contra os menores de idade acabou arquivado pelo Ministério Público por falta de provas. Um ponto controverso da fala de Barbeiro, que a defesa pretende explorar, foi quando admitiu que ouviu os jovens informalmente quando estavam detidos na delegacia, incomunicáveis, com familiares e advogados impedidos de entrar.

Na saída da sala de audiências, procurado pela Ponte, Barbeiro disse que não tinha autorização para dar entrevistas.

Dos réus, 17 eram manifestantes que se preparavam para participar de um protesto contra o presidente Michel Temer (PMDB) na Avenida Paulista, junto com mais três adolescentes. Um outro é um estudante que havia ido à biblioteca do CCSP para pesquisar um livro sobre vinil e acabou preso junto com os demais.

Segundo a denúncia do MP, os jovens haviam se reunido com o objetivo de destruir patrimônio público e privado e de ferir policiais militares. Entre as provas apreendidas pela Polícia Civil com os 18 jovens e as três adolescentes, estão equipamentos de primeiros socorros, vinagre, máquinas fotográficas, celulares, um chaveiro do Pateta, um disco metálico e uma barra de ferro – que os manifestantes afirmam ter sido “plantada” por policiais militares.

Professora Lisete Arelaro dá aula pública no gramado da avenida diante do Fórum | Foto: Fausto Salvadori/Ponte

No horário da audiência, parentes e amigos do jovens, além de estudantes secundaristas e militantes de diversas entidades, realizaram uma manifestação, como haviam feito nas audiências anteriores. Além de batucada e palavras de ordem, os manifestantes apresentaram uma aula pública conduzida pela professora Lisete Arelaro, da Faculdade de Educação da USP.

Sobre o canteiro da Avenida Doutor Abraão Ribeiro, diante da entrada do Fórum, a professora falou sobre Escola sem partido, repressão e liberdade. A poucos metros dela, policiais militares, postados na entrada do prédio público, barravam a entrada de diversas pessoas.

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