“O Bope está entrando nas favelas pra matar”

Dois jovens foram mortos por PMs e outras seis pessoas foram baleadas durante ação do Bope na Cidade de Deus, zona oeste do Rio, nesta segunda-feira (10/07). Moradores relatam agressões e invasões de casas sem mandado pelos policiais

Parede de casa perfurada por projétil durante operação do Bope na CDD hoje. | Foto: enviada ao DefeZap

“Os policiais do Bope entraram aqui de madrugada, bateram em morador no meio do baile, chutaram morador e saíram matando. Um menino aqui, estava todo mundo correndo e só porque ele não parou, meteram um tiro nas costas dele. E ainda comemoraram: ‘ai, tombou, tombou!’”, relata à Ponte uma moradora da Cidade de Deus, sobre a violenta operação do Bope (Batalhão de Operações Especiais da Polícia Militar) que resultou na morte de Luiz Felipe da Silva Alves, de 23 anos, e Igor Batista dos Santos, deixando dez pessoas baleadas nesta segunda-feira (10/7) na favela, localizada na zona oeste da cidade do Rio de Janeiro.

Testemunhas afirmam que os policiais invadiram o baile funk aproximadamente 4h15. “Já chegaram metendo bala, tacando bomba. Foi um corre-corre, eles batendo em morador, chamando as mulheres de puta, xingando as mulheres de tudo quanto é nome, batendo na cara dos meninos e as meninas era só bicão. Muitos moradores sofrendo”, relata uma moradora. “O Bope está entrando nas favelas pra matar. Eles estão aterrorizando os moradores”, revolta-se.

Luiz Felipe da Silva Alves foi abordado pelos PMs próximo à saída do baile, na localidade conhecida como 15, segundo uma testemunha. “Ele estava indo embora, e quando todo mundo correu, ele também correu. Mas aí o pegaram, colocaram ele sentado, ficaram repetindo que ele era traficante, ele dizendo que só estava lá pra curtir. Estava usando chinelo com meia, tinha ido de rolé só, como tantos meninos fazem”, conta.

“Aí mostraram uma arma pro menino, disseram que iam forjar [flagrante]. Ele ficou com medo e tentou correr. Quando ele correu, só deu pra escutar traa-traaa e ele caindo. E o policiais dizendo ‘tombou, tombou, tombooou!’, comemorando. Estouraram a cabeça do menino toda”, completa.

Na mesmo região, um casal a bordo de uma moto foi abordado e os policiais ordenaram que os dois entrassem em um beco que dá no Jardim do Amanhã, afirmam moradores. “Botaram a menina de joelho e bateram muito nela. Só bicão. O joelho dela está todo ralado, de tanta porrada que deram nela. E xingando a todo momento de vagabunda, de puta, que fica à mercê de traficante. E ela tava com o namorado dela, trabalhador”, conta uma testemunha à Ponte.

Relatos enviados por moradores ao DefeZap, ferramenta que recebe vídeos-denúncias de violência de Estado e encaminha casos aos órgãos competentes, dão conta de que policiais invadiram casas sem mandado judicial, inclusive entrando pelas janelas e roubando pertences de moradores.

“Foi um absurdo. Nós estamos vivendo dias de luto aqui. É menino morrendo, menino tomando tiro, uma senhora tomando tiro. Todo mundo está superassustado. E eles estão entrando nas nossas casas, quebrando tudo, levam furadeira porque falam que dentro da parede tem droga”, diz uma moradora, indignada, à reportagem.

“Dá tapa na cara de morador, fala que é bandido. E quem somos nós pra falar que não somos? Moramos na favela”, encerra ela.

Uma das pessoas baleadas na operação é Elydia Roberta de Ramos, de 82 anos, atingida no peito quando estava no portão de sua casa, na área conhecida como Praça dos Garimpeiros. Seu filho, Carlos Alberto, postou em seu Facebook um pedido de ajuda na manhã de hoje (abaixo).

Por volta das 16h, em uma nova postagem (abaixo), afirmou que Elydia encontra-se no Hospital Lourenço Jorge, e aguarda saber se passará por cirurgia. “Ela está lúcida, graças a Deus”, escreveu.

O prejuízo foi ainda dos estudantes das comunidades que integram a Cidade de Deus, já que a ação do Bope começou de madrugada e ainda não terminou, se estendendo por todo o horário escolar. Segundo a Secretaria Municipal de Educação, nove escolas, duas creches e três EDIs (Espaços de Desenvolvimento Infantil) foram fechadas em função da operação, deixando 3314 alunos sem aulas.

Outro lado

A reportagem enviou à PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro) os seguintes questionamentos:

  1. Qual o motivo da operação? A que horas teve início e quando terminou?
  1. Em que circunstâncias duas pessoas morreram e outras dez ficaram feridas após serem baleadas durante a operação?
  1. Houve prisões? Se sim, por que motivo?
  1. Há relatos de agressões a moradores durante um baile ainda durante a madrugada e também de invasões de casas. Como a PMERJ se posiciona a esse respeito?

Por meio de sua assessoria de imprensa, a instituição enviou a seguinte nota:

“O Batalhão de Operações Policiais Especiais (BOPE) iniciou operação por volta das 04h30 desta segunda-feira (10/07) na Cidade de Deus. A ação teve como objetivo checar denúncia sobre o local de esconderijo de armas e das lideranças do tráfico de drogas local. Na chegada das equipes, houve intenso confronto. O Batalhão de Ação com Cães (BAC) reforça a ação, realizando grande vasculhamento na área. Há informações de 04 feridos, socorridos por populares, ao Hospital Lourenço Jorge. Até o momento, duas pessoas foram presas e foi apreendido um fuzil 5,56, duas pistolas e drogas. A ação continua. As ocorrências serão apresentadas na 32ª DP (Jacarepaguá)”.

À Polícia Civil, a reportagem enviou as seguintes perguntas:

  1. A Divisão de Homicídios foi acionada para apurar as circunstâncias em que duas pessoas foram mortas por policiais? Quais as identidades das vítimas?
  1. Também houve moradores baleados que foram socorridos. Que informações a Polícia Civil tem a esse respeito?
  1. Foram registradas ocorrências na 32ª DP?

Por meio de sua assessoria de imprensa, a instituição respondeu que “a DH investiga as mortes de Luiz Felipe da Silva Alves e Igor Batista dos Santos, ocorridas nesta segunda-feira na Cidade de Deus”, que “agentes da unidade realizam diligências para apurar o caso” e a ocorrência está em andamento na 32ª DP (Jacarepaguá).

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