‘O Corinthians luta por democracia e liberdade. E as duas estão sob ataque’

08/08/19 por Paloma Vasconcelos

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Chico Malfitani, um dos fundadores da Gaviões da Fiel, fala do combate à ditadura há 50 anos e faz um alerta: lutar pela democracia voltou a ser urgente

Bandeira usada pela Gaviões em um dos jogos para protestar contra o racismo | Foto: Acervo Gaviões

O time do povo. É assim que o Sport Club Corinthians Paulista é conhecido. Desde a sua fundação, em 1º de setembro de 1910, as lutas populares fizeram parte da história do time, um dos maiores clubes de futebol do país.

Em 1982, durante a ditadura militar (1964-1985), a luta popular do Corinthians, que antes era vista de dentro para dentro, se tornou conhecida nacionalmente. A luta pela queda do presidente do time, pedindo eleições diretas, também era uma luta pelo fim do período militar no Brasil. O movimento, que ficou conhecido como Democracia Corinthiana, foi encabeçado pelos próprios jogadores. Sócrates, Wladimir e Casagrande eram alguns desses importantes nomes que misturavam futebol com política – dentro e fora de campo.

Jogadores do Corinthians que lideravam o movimento “Democracia Corinthiana” (da esq. para dir.: Sócrates, Casagrande e Wladimir) | Foto: Acervo Gaviões

Alguns anos antes, em 1969, um pequeno grupo de jovens, que na época tinham entre 16 e 19 anos, decidiram lutar pelo futuro do Corinthians. Em uma pequena garagem emprestada, na casa do avô de um dos corintianos, surgia a maior torcida organizada do país: a Gaviões da Fiel.

O anfitrião dessa primeira reunião foi Chico Malfitani, que pediu para seu avô liberar o espaço para que ele e mais 11 amigos começassem a conversar sobre a saída do atual dirigente do Corinthians, o então deputado estadual Wadih Helu, que presidia o clube desde 1961 e integrava a Arena, partido pró-ditadura.

Chico Malfitani é um dos fundadores da Gaviões da Fiel, torcida organizada do Corinthians | Foto: arquivo pessoal

Hoje, aos 69 anos, Chico conversa com a Ponte sobre os 50 anos da Gaviões, em que luta e política andaram lado a lado, dentro e fora de campo. Na entrevista, entre outros temas, o corintiano analisa o episódio da retirada da camiseta usada pelo armador Gustavinho, capitão do time de basquete do Corinthians, com a frase “Quem matou Marielle?” do Memorial do Corinthians, em homenagem à vereadora Marielle Franco, assassinada em 14 de março de 2018. Além disso, fala sobre a agressão por parte da PM paulista contra o torcedor corintiano Rogério Lemes, algemado depois de protestar contra Bolsonaro no início do jogo Corinthians x Palmeiras, no último domingo (4/8).

Confira a entrevista:

Ponte – A trajetória do Corinthians sempre esteve ligada às lutas populares, desde a fundação do clube em 1910. Como você essa relação entre futebol e política?

Chico Malfitani – O Corinthians foi fundado por operários, né? Tem essa ligação com o povo. O Corinthians é o time povão, time da periferia. Falar do Corinthians sem falar do povo é falar do Vaticano e não falar do Papa. O Corinthians sempre esteve ligado às lutas populares. A luta pela democracia, a luta pela liberdade, a luta pelos direitos dos cidadãos, a luta pelo torcedor ser respeitado. A fundação da Gaviões foi um exemplo disso. Nós fundamos a Gaviões para lutar contra um ditador que existia no Corinthians, que era o Wadih Helu, que era deputado naquela época da Arena, que era o partido que apoiava a ditadura militar. Ele usava o nome do Corinthians pra obter prestígio e a gente resolveu montar um movimento da arquibancada para dentro do clube para derrubá-lo. De uma certa maneira nós fomos aprendendo, enquanto garotos de arquibancadas da geral do Pacaembu e do Morumbi, como o sistema estava censurado no poder. Fomos perseguidos porque ele era um cara ligado à ditadura, porque a justiça estava sempre do lado dos poderosos e não dos “de baixo”.

Bandeira usada pela Gaviões durante período da ditadura militar | Foto: Acervo Gaviões

Ponte – Então podemos dizer que a Gaviões já surgiu na luta?

Chico Malfitani – A consciência política dos Gaviões da Fiel veio da nossa luta pelos nossos próprios direitos. O Corinthians sempre participou de tudo que envolve a democracia. Nós, da Gaviões, fomos quem levamos a primeira faixa a favor da anistia, em um grande evento de massa que tinha 100 mil pessoas no Morumbi, no jogo do Corinthians e Santos. Depois tivemos a Democracia Corinthiana, comandada pelo Adilson Monteiro Álvares, pelo Sócrates, Ataliba, Wladimir, Casagrande, que lutavam por democracia na época que não tínhamos direito a votar para presidente. Também tivemos a campanha “Presidente quem escolhe é a gente”. Recentemente, os Gaviões participaram das ocupações das escolas, estamos com o MTST (Movimento dos Trabalhadores Sem Teto). O Corinthians sempre esteve ligado às lutas populares. 

Ponte – Como foi o surgimento da Gaviões?

Chico Malfitani – Eu sou corintiano desde os nove, dez anos de idade. Quando eu tinha por volta dos 18 anos, tínhamos um grupo de amigos, de diversos bairros de São Paulo, que se reunia sempre na parte central da arquibancada do Estádio do Pacaembu. Com essa história do Wadih Helu no Corinthians, e o Corinthians sem ganhar títulos, a gente resolveu formar uma torcida organizada. A ideia foi do La Selva [Flávio Tadeu Garcia], nosso primeiro presidente, que já não está mais aqui entre a gente, e do Joca [Alcides Jorge de Souza Piva, segundo presidente da Gaviões]. A gente se reuniu para fazer um movimento da arquibancada para dentro do clube, assim como havia o movimento no Brasil de levar das ruas para dentro do Congresso Nacional. Eu pedi para o meu avô para usarmos a garagem da casa dele, na Alameda Santos, num sábado. Ali, cerca de 12 corintianos se reuniram, como o Artur Timerman, o Joca, o Mancinha, entre outros, para fundar essa torcida. A gente nem imaginava, com todo mundo na faixa dos 17, 18 anos de idade, que a Gaviões teria a dimensão que tem hoje. Mas se a gente não sonhar e não correr atrás das utopias elas não acontecem, né? Ali foi um sonho, uma utopia que a gente acabou realizando, com a potência que é a Gaviões da Fiel, maior organizada do Brasil e que está presente nas lutas sociais do país também.

Ponte – A bandeira central da luta da torcida sempre foi a democracia?

Chico Malfitani – Nós, da Gaviões, temos um espaço democrático, somos o reflexo do que é a população brasileira. Tem gente de todas as ideologias, tem gente de direita, tem gente de esquerda, de centro, tem gente que não gosta de política, mas o que todo mundo luta hoje, por unanimidade, é por democracia e liberdade. O Corinthians sempre lutou por democracia e liberdade. Essa liberdade não existiu no jogo passado, quando o nosso torcedor corintiano foi abordado pela polícia porque estava gritando palavras de ordem contra o Bolsonaro.

Ponte – Qual é a importância do Corinthians e da Gaviões relembrarem essa luta pela democracia e liberdade?

Chico Malfitani – Na última eleição, a Gaviões apoiou publicamente a campanha “Ele Não”. A gente não podia, de maneira alguma, apoiar um candidato à presidência que negava e apoiava a ditadura, se nós fomos perseguidos pela ditadura. Foi uma discussão muito ampla dentro da Gaviões, tanto no primeiro quanto no segundo turno, e nós decidimos que apoiaríamos qualquer candidato que não fosse o Bolsonaro. A gente vê que há um recrudescimento geral no país, um pensamento de extrema-direita. 

Ponte – A retirada da camiseta “Quem matou Marielle?” do Memorial do Corinthians não vai contra essa luta?

Chico Malfitani – Quando o Gustavinho, jogador de basquete do Corinthians, ao comemorar o título colocou a camiseta “Quem matou Marielle?” estava coerente com aquilo que a gente sempre pensou, estar do lado das lutas populares. Foi lamentável um grupo de conselheiros fazer esse movimento para retirar essa camisa do memorial. Pior ainda, foi a diretora ter acatado isso. Por isso, teve uma vigília lá contra isso, porque isso é o recrudescimento. 

O armador Gustavinho com a camiseta em homenagem à Marielle Franco, levantando a taça da Liga de Ouro de 2018 ao lado do time de basquete do Corinthians | Foto: Arquivo/Corinthians

Ponte – Isso nos leva ao episódio do Rogério, que foi abordado com truculência na Arena Corinthians depois de gritar contra o presidente?

Chico Malfitani – Agora tivemos esse episódio, em que ele foi algemado e agarrado pelos policias, levado para a delegacia lá dentro. O crime que ele cometeu era protestar contra Bolsonaro. Mas pera aí, não foi no estádio de futebol que saíram os gritos contra a Dilma [Rousseff] na época da Copa do Mundo? Então contra a Dilma podia e contra o Bolsonaro não pode? É sinal de que a ditadura é aqui, está cada vez mais próxima. A Gaviões foi perseguida pela polícia na época que tentaram vincular a gente com drogas. O Alexandre de Morais, que agora é ministro do STF (Supremo Tribunal Federal), invadiu a nossa sede, só porque no fundo a gente protestava contra o ladrão da merenda, que era Fernando Capez [ex-deputado estadual do PSDB-SP], contra a CBF (Confederação Brasileira de Futebol), que são os grandes ladrões, contra o horário que a Rede Globo coloca o futebol pensando apenas na sua grade de programação e não no conforto do torcedor, quando se termina o jogo tarde demais, o metrô não funciona depois de determinado horário e os torcedores tem que trabalhar no dia seguinte. Então, a Gaviões está sempre na luta e sempre está sendo perseguida, mas não termina. Nós somos o povo, não dá para aniquilar o povo.

Ponte – O estádio ainda é um ambiente muito machista e LGBTfóbico. Como a Gaviões combate isso?

Chico Malfitani – Há muito tempo a gente discute isso na Gaviões. [O grito de bicha nas arquibancadas] É algo ultrapassado, o país está evoluído, isso é um atraso cultural muito gigante. Antigamente o time do São Paulo era conhecido como “bambi” e quando o Rogério Ceni ia bater o tiro de meta, a torcida gritava “bicha”. Hoje isso se perdeu, perdeu completamente o sentido. A orientação da torcida organizada é que isso não deve ocorrer. Você pode ver em qualquer jogo do Corinthians que não existe mais isso. Cada vez mais temos que ter diversidade nas arquibancadas. Quando eu comecei a ir em jogo de futebol, lá no Pacaembu, quando entrava uma mulher pelo portão principal ela era xingada. Hoje você vai no estádio e está cheio de mulher de mulheres. Na Gaviões tem muitas mulheres e LGBTs. O futebol sempre foi conservador, mas nós, Gaviões e Corinthians, com a campanha “Respeita as mina”, tentamos estar na vanguarda para quebrar essa imagem machista e atrasada do futebol brasileiro.

Ponte – Falando nisso, agora é obrigatório que todos os times tenham uma equipe feminina. Mas a equipe do Corinthians já vem antes dessa obrigatoriedade. Como a Gaviões enxerga isso?

Chico Malfitani – Isso é abertura. O Corinthians sempre teve abertura e isso tem que continuar. Por isso me preocupou muito essa atitude de alguns conselheiros do clube de tirar a camiseta da Marielle. É muito absurdo. Por que tirar a camisa escrita “Quem matou Marielle?”? Essas pessoas acham que a gente não deve descobrir quem mandou matar Marielle? Não se deve saber? São a favor do assassinato de uma parlamentar com quatro tiros na cabeça? Em toda história a gente nunca viu isso, foi um crime bárbaro a morte de Marielle e do Anderson. Essas pessoas se indignaram com isso? Elas envergonharam o Corinthians com essa situação. Como brasileiros temos que querer descobrir quem mandou matar Marielle. Isso mostra também como o Corinthians valoriza as mulheres. Isso tem que continuar dentro do Corinthians.

Ponte – Mas isso foi atacado pela diretoria…

Chico Malfitani – Eu não esperava isso do Andrés [Sanchez, presidente atual do Corinthians], foi uma atitude errada. O Corinthians tem que agir como agiu agora, com esse rapaz que foi detido pela PM. Ele agora vai poder ir ao jogo e ficar no camarote. O clube convidou, o Corinthians convidou, porque o estádio de futebol tem que ser um espaço democrático. A gente já está vivendo em um regime que se fecha cada vez mais. Se dentro do estádio você não tiver a liberdade de falar… temos que respeitar a Constituição. A livre expressão está na lei, eu posso falar o que eu penso. Eu achei muito ruim essa atitude do Andrés, ele errou.

Ponte – Falando no estádio como algo democrático, como você enxerga os valores dos ingressos cobrados na Arena Corinthians?

Chico Malfitani – O valor afasta o povo corintiano dos estádios. O estádio tem que representar o que é a condição social de um país. Países como Espanha, Inglaterra ou França são formados por uma grande classe média, então você pode ter preços mais altos. Mas aqui nós temos 10% de uma elite que ganha dinheiro e 90% de trabalhadores que ganham até dois salários mínimos, então não se pode cobrar um ingresso que custa R$ 180 ou R$ 200. Até do ponto de vista do marketing isso é um erro. O Andrés também está falhando com essa questão. Nada contra quem pode ter mais conforto e pode pagar ficar em um lugar melhor, com uma cadeira estofada, mas isso é uma minoria, a maioria tem que estar com o povo. A pobreza que existe no país também está refletida nas arquibancadas, onde o torcedor mais pobre fica isolado. 

Ponte – Essa criminalização da torcida corintiana está refletida nessa luta?

Chico Malfitani – A minha consciência política surgiu sendo corintiano, ver como a elite desprezava o povo. Tanto na arquibancada como fora de campo. Tem uma visão muito das quebradas dentro da Gaviões e nós temos que estar unidos. Os nossos interesses que nos unem são muito maiores do que aquilo que nos separa. O torcedor corintiano tem um interesse comum, um interesse de um ingresso mais barato, um interesse de ser respeitado pela Polícia Militar, porque não somos bandidos, somos cidadãos. A PM quando entra no estádio nos encara como marginais. É contra isso que temos que lutar, contra esse futebol moderno que afasta o povo do estádio e contra esse regime que estamos vivendo hoje no país, que é totalmente retrógrado e nos remete aos tempos do nazismo.

Ponte – Personalidades como o Sócrates fazem falta no futebol?

Chico Malfitani – Nossa senhora, claro. Mas isso é reflexo dos tempos que vivemos. Naquela época, o Brasil inteiro gritava por liberdade e por democracia. O país inteiro estava cansado do regime militar. Na década de 80 havia um movimento forte de intelectuais, artistas e do povo pela liberdade. Hoje estamos em um movimento inverso, parece que as pessoas querem mais violência, mais fechamento, mais restrição. Então fazem muita falta jogadores como Sócrates, Vladimir, Casagrande, Reinaldo, Afonsinho, que eram jogadores progressistas, que transmitiam que através do futebol era possível fazer política para mudar a vida de todo mundo. Futebol e política sempre estiveram misturados. Estamos hoje na fase da celebridade, o que importa não é mais o coletivo, é o individual. Então hoje em vez de ter Sócrates, temos Neymar. 

Ponte – Qual o caminho para sair do fascismo?

Chico Malfitani – Temos que resistir. Quem tiver oportunidade para falar sobre isso tudo, que fale. Quem não pode falar para a mídia, que fale para o seu amigo, para o seu pai, na esquina, na escola. Temos que discutir essa situação que o país está vivendo e se contrapor, não podemos nos calar. Se ficarmos calados esse retrocesso vai prejudicar muito o povo brasileiro. Estamos saindo da CLT para trabalhar em aplicativos como Uber e iFood. Temos que falar, temos que ser contra, temos que ir para as ruas protestar. Se a gente se calar, uma minoria toma conta e afunda o país. Se um amigo fala uma bobagem, temos que combater essa bobagem. Lá atrás éramos garotos querendo fundar uma torcida que hoje é uma potência. Temos que seguir sonhando.

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