“O objetivo da desaparição é gerar terror na população”

02/06/15 por Especial para a Ponte

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Caravana com pais dos 43 estudantes desaparecidos de Ayotzinapa, no México, chega ao Brasil. Em entrevista, professor e pesquisador Universidade Nacional Autonoma do México, Carlos Fazio, destaca a importância da solidariedade sul-americana perante a grave escala de desparecimentos forçados no México

Débora Prado, especial para a Ponte

México, 26 de outubro de 2014. Em San Cristóbal de las Casas, no Estado de Chiapas, as luzes das viaturas de polícia que rondam as ruas iluminam cartazes e frases espalhadas por postes, paredes de casas e comércios: “Vivos se los llevaram, vivos los queremos” (“se com vida foram levados, vivos os queremos”, na tradução livre).

caravana43

Foto: Débora Prado

Nas ruas, essa reivindicação é geral e o desaparecimento dos 43 estudantes de Ayotzinapa durante o massacre realizado pelo governo em Iguala, estado de Guerrero, gera um clima de luto coletivo e indignação sem precedentes. Dois dias depois, em Oaxaca, um sindicato de telecomunicação realiza um ato em apoio às famílias dos desaparecidos em que os trabalhadores cobram respostas do Estado. Uma senhora, de passagem pela rua, me diz: “Nós sabemos que foi o Estado que sumiu com os estudantes, eles levam nossos filhos, eles têm que devolvê-los”.

Outra senhora, que vende tacos na rua, lamenta “É muito triste o que fizeram com essas famílias”, estampando um cartaz em seu pequeno comércio em que também exige a apresentação dos 43 com vida. A ela, se somam outras tantas das tradicionais barracas de comida de rua, mercados, bancas de jornais, universidades, sindicatos, movimentos sociais e praças que servem de estandarte para solidariedade à principal reivindicação das famílias: ter seus filhos de volta com vida.

Cidade do México, 02 de novembro de 2014. No tradicional dia dos mortos mexicano, as festas são marcadas pelo desalento do desparecimento. “Todos são nossos mortos”, dizem as oferendas espalhadas pela cidade, em solidariedade não só aos estudantes, mas às milhares de pessoas desaparecidas no país a cada ano. Na passagem de outubro para novembro, as comemorações marcam um momento de comunhão dos mexicanos com seus mortos, expressas por muitas homenagens e ofertas. Marcam também a dor de quem não tem a certeza da morte ou a lápide do ente querido para enfeitar neste dia, de quem vive uma ferida aberta permanente.

“O objetivo da desaparição não é tanto a vítima, mas, através do desaparecimento, gerar terror na população, em seus familiares. É uma tecnologia repressiva que não só espalha o terror, mas impede que se viva o luto no velório, no enterro. Fica um trauma constante e permanente e isso se dissemina entre os familiares e os companheiros da vítima”, aponta o professor e pesquisador Universidade Nacional Autonoma do México, Carlos Fazio.

São Paulo, 01 de junho de 2015. Em maio, completaram-se oito meses do massacre e os 43 estudantes seguem desaparecidos. Depois de passarem por Argentina e Uruguai, seus familiares desembarcam em São Paulo para a primeira das três etapas brasileiras de uma caravana, organizada por coletivos e movimentos sociais autônomos.

“Mesmo com as mentiras e com a indiferença do Estado mexicano, e contando com um fortíssimo apoio nacional e internacional, os familiares seguem lutando por justiça e pela apresentação com vida dos estudantes normalistas desaparecidos”, informam os organizadores.

Chamada de Caravana 43 Sudamérica, o objetivo é mostrar solidariedade com a luta dos familiares e fazer ecoar suas demandas por justiça e pela apresentação com vida dos desaparecidos na América do Sul.

A Caravana começou no dia 16 de maio e percorrerá 7 cidades, passando por Argentina e Uruguai, e agora no Brasil, onde terá atividades em São Paulo nos dias 2 e 3 de junho, seguindo para o Rio de Janeiro e Porto Alegre. (ver box com serviço).

Para o professor Carlos Fazio, a solidariedade é um passo fundamental para expor a grave questão do desaparecimento. “Durante o sexênio do Felipe Calderón [mandado presidencial de seis anos] houve 150 mil mortos e mais de 30 mil desparecidos. Isso não é mostrado no continente e o povo mexicano não recebe solidariedade”, problematiza.

Em entrevista à Ponte*, o professor explica a grave violação de direitos humanos que acontece em nível continental pelo desaparecimento forçado, muitas vezes, pelas mãos do próprio Estado. Aponta ainda as raízes desta “tecnologia repressiva” em tempos de guerras, e sua transposição para o controle da população civil pelas mãos das ditaduras militares no Cone Sul. E destaca: “Precisamos que Brasil e Mercosul mostrem solidariedade”.

Confira a entrevista:

O senhor afirmou em seus artigos que os crimes em Iguala são parte de uma sistemática perseguição classista e racista contra os estudantes normalistas de Ayotzinapa por parte das três esferas de governo (federal, estadual e municipal). Poderia nos contextualizar como e por que se dá essa perseguição no México?

Carlos Fazio- Os estudantes de Ayotzinapa são parte de uma associação de estudantes e campesinos socialistas do México, é uma federação que surge nos anos 1930/1940 e agrupa todas as escolas normais rurais [espécie de escola de magistério]. E o desaparecimento dos 43 estudantes não foi o primeiro caso de repressão contra eles.  Em 12 de dezembro de 2011 , por exemplo, já houve uma repressão contra os estudantes de Ayotzinapa em Guerrero, como eu cito em um dos meus textos, e morreram dois jovens nas mãos da polícia [Gabriel Echeverría de Jesús e Jorge Alexis Herrera Pino, assassinados pela polícia estadual e federal em um bloqueio] e outros tantos foram presos e torturados. Em outra Normal Rural no Estado de Michoacan também houve uma repressão no ano passado pelo governo estadual e federal e houve vários meninos detidos e torturados física ou psicologicamente.

Ou seja, estamos falando de uma repressão sistemática e contínua contra esses estudantes, porque são estudantes que procedem de famílias campesinas pobres e querem se tornar professores rurais para ensinar justamente o campesinato pobre. Este tipo de estudante participa de grupos de estudos e aulas onde discutem e aprendem o método do marxismo dialético. É um tipo de estudante que difere da média dos estudantes mexicanos, porque são formados como professores, mas também como militantes para dar formação social. E do ponto de vista da lógica capitalista, eles não são produtivos. Por sua formação política, eles não concordam com a exploração das maiorias, e, pelo contrário, tem um pensamento crítico e transformador e, por isso, os empresários, e no caso do México os governantes também, os vêem como ‘sobrantes’, ou, como se diz na Colômbia , são “matáveis” – se pode matá-los.

Por que os crimes de Iguala podem ser considerados de lesa humanidade? Como ele impacta nos campos dos direitos humanos no México?

Carlos Fazio- Eles são crimes de lesa humanidade segundo os parâmetros humanitários internacionais. A prática da tortura no caso do jovem Mondragón [Julio César Mondragón, um dos seis jovens assassinados no ataque que deixou os 43 desaparecidos] que foi torturado antes de ser assassinado. Também a desaparição forçada de pessoas está tipificada como um delito contra a humanidade. O ataque continuado contra um grupo nacional – nesse caso os estudantes normalistas de Ayotzinapa – configuram também um crime de lesa humanidade segundo os parâmetros internacionais. São crimes que nos afetam a todos, que espalham o terror.

 Sendo este um crime de Estado, o que é esperado do governo mexicano nesse momento? Que ações o Estado deveria tomar para assumir sua responsabilidade nesse grave crime e violação de direitos humanos?

Carlos Fazio- Não esperamos muito do governo mexicano, o Comitê contra o Desaparecimento Forçado da ONU já declarou que no México há um padrão de conduta das autoridades – da polícia e do Exército – e o país já havia sido advertido por essa comissão em 2011.

Em 2011, o governo de Calderón recebeu 33 recomendações, e no começo desse ano se fizeram 176 recomendações. O governo admite formalmente, de maneira discursiva, essas recomendações, mas não as colocam em prática. A tortura se aplica de maneira sistemática, assim como a desaparição forçada, por policiais. E justamente o que destaca o caso de Ayotzinapa é que ele não é a exceção, mas a regra. O México é um país de valas comuns, o território mexicano é um cemitério de cadáveres e restos mortais de pessoas não identificadas.

E os diferentes governos do México, de 1968 até hoje, nunca assumiram sua responsabilidade por estes crimes de Estado.

 O senhor define a desaparição forçada como uma tecnologia repressiva do poder instituído. Poderia explicar este conceito? O que a desaparição pelas mãos do Estado e da polícia representa para uma sociedade?

Carlos Fazio- O objetivo da desaparição não é tanto a vítima, mas através da desaparição gerar terror na população, em seus familiares.   Esse conceito remonta a um decreto Alemanha nazista, um decreto de 1941 de Hitler, que dizia que quando se fuzilava, se matava um prisioneiro, ele poderia converter-se num mártir e seu lugar de morte poderia ser feito um símbolo de resistência por seus familiares e conhecidos. Com esse decreto, em 1941, se dá as instruções para desaparecer com as pessoas e se explícita que se trata de manter uma ferida permanente em seus familiares e na população.  Com isso, não só se espalha o terror, mas se impede que o luto seja vivido no velório, no enterro. Fica um trauma constante e permanente e isso se dissemina entre os familiares e companheiros da vítima.

Essas técnicas de repressão são ensinadas, então, nas academias militares. No Brasil, foram ensinadas nos anos 1960 pelo policial estadunidense Dan Mitrione, que logo foi ensinar o mesmo no Uruguai, colaborando com as ditaduras.

São técnicas de terror que se ensinam aos policiais e militares.

No caso do México, a desaparição e a tortura servem para gerar um clima de terror, como no caso do jovem Mondragon – já que quem o matou, lhe arrancou os olhos e a pele da cara e logo subiu a fotografia na internet, porque o objetivo era justamente gerar terror.

A tortura e o desparecimento podem ser consideradas um legado das Ditaduras para América Latina então?

Carlos Fazio- A guerra suja começou com os franceses na Argélia e logo os Estados Unidos a colocaram em prática no Vietnã. E através dos EUA, isso chegou a Guatemala, Brasil, Uruguai e Argentina. Mas, a tortura vem sendo utilizada ao largo, inclusive pela igreja católica na época da inquisição. É uma ferramenta de poder que, no caso dos nossos governos nos anos 1970, e atualmente no México exibem uma face clandestina, uma cara oculta do Estado, que atua de duas maneiras – de uma maneira institucional, com aparência legal, e de outra que é clandestina , que aparece toda vez que é necessária uma reconversão do sistema capitalista. No Brasil, Uruguai, Argentina e Chile, as ditaduras vieram para impor politicas neoliberais e combater a ‘ameaça comunista’.

Atualmente, o México acaba de aprovar uma série de medidas de reformas neoliberais no governo de Enrique Peña Nieto [atual presidente], onde um dos principais focos é a reforma energética, que tem a ver não só com o petróleo, carvão e os hidrocarbonetos, não só com o setor de mineração, mas também com a terra, porque os recursos minerais e energéticos estão embaixo da terra. Então, muitas dessas terras das quais as grandes transnacionais de energia irão desfrutar a partir de 2015 estão em propriedades comunais. Então, é preciso eliminar toda forma de resistência e, em particular, esses estudantes e outras forças campesinas, indígenas, que estão resistindo nessa guerra que tem a ver com o território, com a exploração da terra e dos recursos energéticos.

Houve uma tentativa de mostrar o caso dos 43 como um ‘exagero’ ou creditar a responsabilidades desses atos aos policiais que estavam em serviço, que teria ‘perdido o controle’. No Brasil, o mesmo aconteceu em um caso que tomou grande repercussão na opinião pública, do desaparecimento do pedreiro Amarildo pelas mãos da polícia brasileira. Nesse e em outros casos, como em Ayotzinapa, o Estado tenta imputar o crime ao policial individualmente e não ao sistema repressivo como um todo. Essa é uma forma de garantir um certo grau de impunidade para manutenção dessa tecnologia repressiva?

Carlos Fazio- O governo federal deveria ter atuado de imediato por conta do caráter desses crimes, que são crimes contra a humanidade. Para diminuir suas responsabilidades, o governo o focalizou no município de Iguala. Peña Nieto diz que não foi o Estado, diz que o crime aconteceu em um município e que tem um responsável, que seria o ex-prefeito de Iguala, Sr. Abarca, e que se tivesse outro responsável seria o governador.

Mas, o que nós lembramos é que o lugar dos acontecimentos, Iguala, não é um descampado. Houve quatro acontecimentos no período de três horas e há 5 minutos de qualquer dos quatro lugares está o Batalhão de Infantaria. No Estado de Guerrero, tem controle territorial há 50 anos e a zona militar é que está a cargo do controle territorial.

Então, nada do que acontece em Iguala ou em Guerrero está desconhecido pelo serviço de inteligência do exército.

Além disso, em Guerrero está a policia federal e os agentes do CISEN [Centro de Investigação e Seguridade Social], que é a policia política do México. Lá tem ainda um operação que se chama Guerrero Seguro, de atuação conjunta entre policiais e militares e que, normalmente, fica sob responsabilidade de um militar. Os policiais municipais de Iguala não poderiam atuar com autonomia, sem informar o exército.

Então, o Estado é responsável, seja por ação ou omissão. Não dizemos que foi Peña Nieto que ordenou a execução, mas que pela cadeia de mando dos organismos de segurança do Estado, ele também é responsável, por ação ou omissão.

Então, é preciso investigar também porque não atuaram, se foi esse o caso. Mas há testemunhos de estudantes que estavam lá que dizem que sim, que o exercito esteve lá. Que o exército foi visto em uma clínica em que foi levado um estudante, por exemplo, e também nas ruas junto com a polícia e com civis.

Ou seja, até agora não está claro qual foi a participação do exército nos acontecimentos de Iguala.

 

A conexão do governo com o narcotráfico é sistêmica?

Carlos Fazio– Sim, há uma relação estrutural e sistêmica. Os vínculos entre governo, empresários, entre a classe politica e os banqueiros com os grupos da economia criminal se origina no final dos anos 1980 e começo dos 1990. É a cara oculta de uma economia que gera divisas para o país e foi o que permitiu nos 32 anos de governo neoliberal que a economia mexicana não tivesse colapsado.

Para que os negócios da economia criminal sejam rentáveis, é preciso que o dinheiro seja lavado na economia formal, e se lava essencialmente por meio dos bancos, da indústria de construção, em mega projetos, empresas legais e ilegais que pertencem a estes grupos, que estão integrados não somente pela parte operacional, mas também por esquadrões da morte, grupos de limpeza social, que são a parte operacional que levam a cabo uma regulação pela via do terror, da violência. Há empresários da criminalidade que nunca são tocados.

E o que reivindicam os familiares?

Carlos Fazio- A demanda dos pais é a busca dos estudantes desaparecidos, de seus filhos, com vida e também a responsabilização dos responsáveis. Se queixam que o governo buscam mortos em valas comuns, enquanto o que querem é seus filhos com vida.

Também não confiam nas autoridades mexicanas, inclusive nos peritos forenses, e por isso tem tido apoio da equipe forense argentina, que estão trabalhando no México desde outubro.

O governo urge em encerrar o caso, porque isso prejudicou toda a imagem que o governo de Peña Nieto vinha criando, de que ele seria o grande reformador do México. Em setembro, ele foi nomeado em Washington como o Estadista do ano e também saiu na capa da revista Times como o salvador do México. E estes crimes de Iguala implodem isso, então o governo quer fechar esse caso o quanto antes para recuperar essa imagem que vinha sendo fabricada.

 

Serviço:

Mais informações sobre a Caravana:

http://caravana43sudamerica.org/

 

Programação pública completa

2 de junho (terça), às 14h – Coletiva de imprensa com os familiares

Kiwi Cia de Teatro: Rua Frederico Abranches, 189

 

2 de junho (terça), às 18h, intervenção teatral na Praça da Sé. Coletivo de Galochas.

às 19h – Debate público – Caravana 43: familiares de Ayotzinapa, Mães de Maio e suas resistências

Quadra dos bancários: rua Tabatinguera, 192

https://www.facebook.com/events/1590417024574899/

 

3 de junho (quarta), às 20h – Ayotzinapa somos todxs – Sarau do Binho com outros saraus

Espaço Clariô: Rua Santa Luzia, 96 – Taboão da Serra

https://www.facebook.com/events/698285870299696/

 

Coletivos que compõem a Caravana em São Paulo: 

Mães de Maio

Movimento Passe Livre – SP

Casa Mafalda Espaço Autônomo

Coletivo Autônomo dos Trabalhadores Sociais CATSO

Rede 2 de Outubro

Espacio de Lucha Contra el Olvido y la Represión (ELCOR) – Red Contra la Repression (México)

Margens Clínicas

Comboio Moinho Vivo

Rizoma Tendência Estudantil Libertária

Coletivo DAR (Desentorpecendo a Razão)

Rede Extremo Sul

Comissão Yvyrupá

 

 

* Entrevista realizada em novembro de 2014

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