O rap de Paz: justiça trans mapuche

21/01/19 por Ulises Rojas, da Cosecha Roja

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Indígena e não-binária, a rapper argentina Cumelen Berti começou sua carreira no Brasil e voltou a Buenos Aires para expandir sua mensagem de luta e respeito para os povos originários e comunidades dissidentes, apresentando ritmos novos e ancestrais

Depois de viver muitos anos no Brasil, onde se formou como cantora de rap, Paz voltou a Buenos Aires, capital da Argentina, já consagrada como uma artista da dissidência sexual e de gênero, com novos trabalhos, recitais e projetos. Descendente de mapuches (um povo originário da região centro-sul do Chile e do sudoeste da Argentina) por parte de mãe, difunde uma mensagem de igualdade e respeito para com seu povo indígena e para a comunidade trans. Está promovendo Patagônia Emergente, disco que conta com dez canções em que utiliza instrumentos ancestrais mapuches. O ativismo se transforma em arte e performance para dar visibilidade a outras vozes e histórias.

Suas letras falam de novas subjetividades, de outra humanidade possível, mas também da luta por justiça de um povo ancestral, da vida em bairros humildes muito longe dos grandes centros urbanos, da opressão do patriarcado e da resistência pela arte.

Paz Berti faz rap em espanhol, português e mapundungún (língua mapuche) de mini-short ou saia, poncho ou blusas no estilo cropped. Dança ao ritmo do funk ou trap enquanto move seu longo cabelo preto-carvão. “Na escola me fizeram dividir entre homem e mulher e eu não vou dividir”, canta.

Foto: Xiomara Wissocq

“Sou uma pessoa trans-bicha que nasceu num bairro periférico de Allen, em Rio Negro (província ao sul da Argentina). Aos doze anos fiz minha árvore genealógica para um trabalho da escola. Foi quando descobri que minhas descendências eram mapuche”, disse à Cosecha Roja. Desde pequena sempre gostou de cantar e se expor, oferecendo-se a participar em todos os eventos. Começou estudando canto. “Todo mundo me dizia que canto não era minha praia, que não dava para escutar a minha voz. Como acontece com muitas identidades dissidentes, nossas vozes não podem ser escutadas, não são vozes para falar, para dizer, para cantar”, disse Paz. Em vez de a derrubar, esses comentários a empoderaram.

“A arte me salvou num povoado de 35 mil habitantes onde as vozes dissidentes sempre eram silenciadas. Onde eu não tinha uma referência que se comparasse a minha subjetividade. O único espaço que tinha as bichas e as travestis-trans: a rota 22 [rodovia que liga as províncias de Buenos Aires, La Pampa, Río Negro e Neuquén]. A única vida possível: marginalidade. Tenho a lembrança de passar de noite pela rota e ver todas as travas morrendo de frio, com o frio patagônico de inverno, trabalhando para ganhar seu dinheiro”, disse.

Uma vez, quando tinha 13 anos, estava numa balada com suas irmãs e viu entrar Paloma, uma trava de cabelo longo amarelo. “É aqui”, disse Paz.

Para Paz, tudo tem a ver com a música e o corpo. Não há nenhuma canção sua que já não seja pensada com uma representação audiovisual, tudo parte de um corpo que se expressa: um corpo trava, bicha, originárix e em contínua relação com a música. “Te vejo em mim, me vejo em você e assim começa a transição”, canta numa de suas canções mais simbólicas enquanto soam os instrumentos originários.

A primeira cidade para que migrou foi Buenos Aires. Ali, um montão de interesses despertaram para ela. Mas a grande cidade nunca lhe abriu as portas, nas quais ela teve que bater sozinha. Chegou e se virou com tudo contra ela, sem apoio da família (sua mãe foi a única, que lhe presenteou uma mochila para viagem). Começou a estudar psicologia e teatro até que foi para o Brasil. Sua primeira cidade foi a Florianópolis (SC), onde as amigas travas e bichas a receberam e a fizeram sentir confortável com a noite, com o gueto. Foi ali que escutou pela primeira vez um estilo musical que a cativou por seus tambores elétricos até o ponto em que se perguntou: “O que é isso que eu estou escutando?”. Migrou para essa cidade enorme. Terminou vivendo numa favela e cantando com um coletivo artístico de músicos chamado “Anarko-Fanki”.

Começou sua carreira musical só com cinco canções. Já Patagonia Emergente é um disco que teve um processo de três anos. “Conheci o Cristian, ‘Cristo Reventón’ [projeto-performance de Cristian Püschel, músico, compositor e produtor de La Plata, capital da província de Buenos Aires] nos conectou uma pessoa em comum, ficamos super amigas, gravamos primeiro a canção ‘Camino Auténtico’, até que me propôs gravar um álbum inteiro. A música nos conectou de uma forma tão intensa até que viramos irmãs. Começamos a produzir o que queríamos mas sem ter um nome, eu já tinha o conceito do disco, que era poder empoderar as bichas originárias, da periferia, marginais”.

“Com meu trabalho quero poder dizer: ‘sou bicha, sou não-binária, sou originária”. E isso transmite Patagonia Emergente: poder trava bicha. São dez canções, no início do disco se escuta um kultrun que é um instrumento musical do povo mapuche, símbolo do povo, e que Paz leva tatuado no corpo.

“É tão lindo que o que representa meu povo seja um instrumento musical ancestral. Que o toquem as Machi, que são autoridades espirituais, identidades que não podem nem ser homens em mulheres, totalmente anticoloniais”.

O álbum foi gravado em Buenos Aires e pensado no Brasil. Atualmente, Paz está promovendo sua nova canção “Temblor”, gravada na Argentina. O vídeo foi realizado em Florianópolis. Já está disponível em seu canal do Youtube.

(Tradução: Olavo Barros)

A Cosecha Roja é uma rede de comunicação, intercâmbio e formação de jornalistas que se propõe a pensar a violência e a segurança a partir de uma perspectiva ampla, valorizando os direitos humanos e a igualdade de gênero. 

(*) Diferente de outras reportagens publicados pela Ponte Jornalismo, o conteúdo dessa matéria não está sob licença Creative Commons CC BY-ND e não pode ser reproduzido sem autorização de seus autores

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