O rock é feminista

Bandas como Clandestinas, Manaminamona e Bioma representam a nova geração do gênero que protesta contra o patriarcado e a LGBTfobia

Mana Rock feminista
As bandas Clandestinas, Manaminamona, Bioma e a DJ Fernanda Offner reunidas no palco do “Mana Rock” festival feminista em Jundiaí, em abril | Foto: Vinícius Vieira

As mulheres sempre tiveram presentes na história do rock, aliás, não é errado afirmar que gênero nasceu praticamente das mãos de uma mulher negra. A norte-americana Sister Rosetta Tharpe (1915 – 1973) empunhou uma guitarra elétrica lá nos anos 1930 e influenciou nomes como Elvis Presley, Jerry Lee Lewis, Little Richard, Johnny Cash e os Beatles, através do seu som que mesclava música gospel com um blues acelerado. Tal junção se tornaria popularmente conhecida mais tarde como Rock and Roll.

E foi no dia 14 de abril de 2018, justamente no mesmo dia que a história tratou de reconhecer a importância de Sister Rosetta Tharpe para a trajetória do Rock, incluindo a mesma no Hall da Fama do Rock and Roll, que o Aldeia Rock Bar, localizado na cidade de Jundiaí, interior de São Paulo, recebia a primeira edição do festival Mana Rock, contando apenas com bandas femininas. O line-up era composto pelos grupos Manaminamona (Piracicaba – SP), Bioma (São Paulo), além das anfitriãs Clandestinas (Jundiaí) e das DJs Maravilha e Fernanda Offner.

Surgida no ano de 2016, as Clandestinas vieram do seio da militância feminista e é muito comum elas afirmarem “Nós não somos artistas, somos militantes”, no início de toda apresentação do grupo. “A gente entende a música como uma ferramenta para divulgar as reflexões da militância, tanta feminista quanto LGBT”, explica Natália Benite, percussionista da banda. “É claro que a gente tem preocupação com o arranjo das músicas, mas as letras, a mensagem, vem em primeiro lugar”, completa. Além da Natália, a banda Clandestinas é formada por Aline Maria (percussão e backing vocal), Alline Lola (guitarra e backing vocal), Elaine Moraes (violão e vocal) e Camila Godoy (voz e baixo), sendo ela o elo de ligação com as demais integrantes: “Nos conhecemos na militância feminista e LGBT. No ano de 2016, eu fui participar do Sarau das Minas, em Jundiaí, organizado pelo Coletivo Coisarada, no qual a Natália e Aline fazem parte. Levei o meu violão e toquei algumas músicas timidamente”, relembrou Camila, sendo esse evento o grande catalisador para a carreira da banda que vem crescendo ano a ano, se apresentando em eventos de grande expressão e visibilidade, como a Parada do Orgulho LGBT nas cidades de Jundiaí e Piracicaba, ambas no ano de 2017, além de conquistar uma imensa parcela de admiradoras sedentas pelos seus discursos inflamados contra o machismo e patriarcado, como diz a canção de autoria das garotas, Manifesto, que inicia com as palavras de ordem:

“Segura, segura, segura seu machista
A América Latina vai ser toda feminista
Segura, segura, segura seu machão
Na banda Clandestinas só tem bi e sapatão”

Mulher trans, Camila relembra como iniciou o seu processo de transição e como a música foi fundamental para a sua aceitação pessoal. “Hoje há uma confusão imensa no que é identidade de gênero e o que é orientação sexual. Dentro da cultura machista qualquer atributo feminino só tem uma função para existir, que é de servir e desejar homens”, ressalta Camila, que hoje continua se relacionando afetivamente com mulheres. “Assumir a minha identidade feminina publicamente significa que agora eu posso usufruir de uma linguagem muito mais confortável e adequada para expressar aquilo que eu sempre fui, como as palavras que eu uso, as roupas que eu visto, como eu movimento o meu corpo e a música que eu faço”, afirma.

A música feita pelas Clandestinas é um enorme caldeirão de referências, reunindo desde a energia e a simplicidade do punk rock, passando pela brasilidade de movimentos musicais como a Tropicália, até findar na estética soturna/solar dos anos 1980 representados por Joy Division e The B-52s, respectivamente. No entanto, as inúmeras influências citadas não tiram a originalidade da banda: “As pessoas que assistem a nossa apresentação, elas têm dificuldades de classificar o nosso som dentro de uma caixinha mais óbvia, mas o que acontece é que nós trazemos os nossos gostos musicais diversos, trazendo coisas muito diferentes, como a inclusão de um instrumento novo, um modo de tocar diferente, isso molda o nosso som de forma natural, sem estar preso a uma fórmula”, salienta Camila. “O nosso estilo de som é experimental”, traduz Natália. “Essa é a palavra que contempla bastante o que a gente faz, pois experimentamos sons, instrumentos e a melhor forma de passar a nossa mensagem”, explica.

Banda Clandestinas rock feminista
Banda Clandestinas | Foto: Vinícius Vieira

No palco do Mana Rock, as Clandestinas apresentaram todo o seu repertório autoral, com destaque para Anátema: “A palavra Anátema já remete a violência”, explica Camila. “Trata-se de um tribunal da igreja católica que gera a excomunhão da pessoa. E a música gira em torno dessa questão, do quanto à ignorância, o desconhecimento e o não querer enxergar e compreender o outro, nos leva a violentar o próximo”.

Feminicídio em pauta

Outro destaque do repertório é a punk raivosa Boceta de Pandora, que faz uma forte crítica à cultura machista enraizada na sociedade: “Na mitologia greco-romana nós aprendemos que o Mito da Pandora trata-se de um universo supostamente irreal, bem resolvido, harmônico e sem problemas. E os deuses, machos, confiam a Pandora uma caixa onde estariam reunidos todos os males da humanidade, mas que ela não poderia abrir essa caixa em hipótese alguma, para os males não se espalharem. Entretanto, sendo Pandora uma mulher curiosa, mas não de curiosidade boa de homem desbravador, mas uma curiosidade maligna, típica da mulher, ela abre essa caixa e liberta todos os males”, exemplifica a compositora Camila. A palavra boceta, de origem grega, tem o significado de caixa, na qual as gregas guardavam a suas joias de valor: “Portanto, na visão machista, bastou a Pandora abrir a sua boceta, para que todos os males entrassem para a história da humanidade”, enfatiza.

Porém, foi durante a execução de Por Que, Para Que? que os presentes, assim como a própria banda no palco, foram às lágrimas. No meio da canção, as integrantes foram relembrando e homenageando vítimas de feminicídio, como Anne Mickaelly, de Brasilia (DF), que foi assassinada a facadas pelo pai da namorada, em janeiro de 2018. Aline Francisco Souza, de 30 anos de idade, que foi assassinada a facadas pelo marido na cidade de Várzea Paulista, vizinha de Jundiaí, na mesma semana que acontecia o Mana Rock. Luana Barbosa dos Reis, que há dois anos morreu espancada por policiais em Ribeirão Preto (SP). E, por fim, a vereadora assassinada Marielle Franco, foi a última homenageada, sob os gritos de “Marielle, Presente”!

O Mana Rock também contou com as bandas Manaminamona e Bioma, abrindo e fechando o festival, respectivamente.

Apesar de ser uma banda relativamente nova, com apenas sete meses de atividade, as integrantes da Manaminamona tem uma grande trajetória dentro da militância feminista e LGBT. Formada na cidade de Piracicaba (SP), a Manaminamona conta com Bianca Coré nos vocais, Marcela Teixeira nas guitarras, Marina Santana no baixo e Luiza Kame Miahira na bateria, a última, aliás, já teve passagem, como baixista, na banda Dominatrix [famosa banda paulistana de punk rock, formada nos anos 1990, e disseminadora do movimento feminista], além de ser uma das organizadoras do Ladyfest, tradicional festival de bandas femininas, que teve a sua última edição em 2012. O Manaminamona nasceu após uma brincadeira musical que envolveu até uma versão punk para um sucesso da cantora Deborah Blando. “Certo dia eu cheguei em casa e encontrei a minha esposa Luiza tocando com a Marcela, e elas me convidaram pra participar cantando daquela jam session”, relembra Coré, que faz questão de frisar: “Elas já tinham esse envolvimento com a música, faziam parte da cena punk, ao contrário de mim que não tinha nenhuma relação”. Ela só foi ter conhecimento de uma cena punk formada por mulheres graças ao seu engajamento com o feminismo.

Com apenas três meses de existência, a banda já se apresentava na Parada do Orgulho LGBT de Piracicaba, ao lado das Clandestinas e da rapper Karol Conka: “Pra gente foi um marco imenso, tinha mais de três mil pessoas”, relembra Marcela que logo brinca: “Todas pra ver a Karol Conka”, e as meninas gargalham no volume máximo.

E foi justamente essa energia, atitude e ativismo que a Manaminamona descarregou no palco do Mana Rock. À primeira vista, a referência sonora e estética que vem a cabeça, de imediato, é o grupo de Washington (EUA) Bikini Kill [o grande disseminador do movimento feminista, o Riot Grrrl no final dos anos 1980 e início dos anos 1990], muito pelo som simples, mas urgente, e pela abordagem crítica com pitadas de sarcasmo nas letras, como é o caso da canção As Bichas do Reich, que faz uma severa crítica à ala LGBT conservadora que chega até a apoiar os ideais e a candidatura à presidência da República de Jair Bolsonaro. “Essa canção é um manifesto em tom de repúdio, mas também procura compreender por que esses homossexuais têm agido dessa maneira. Será que é por medo ou é uma forma de serem aceitos na sociedade?”, questiona Coré.

Outro destaque no repertório foi a canção Ave Maria. Antes da execução, Coré discursou no microfone: “A violência doméstica tem um ciclo vicioso, no qual o marido espanca a mulher e depois, arrependido, lhe proporciona uma período de lua de mel. Porém as estatísticas afirmam que as agressões aumentaram, a lua de mel diminuiu, e isso tudo tem acarretado em feminicídio”. Os fortes discursos de Coré, aliás, deram o tom da apresentação. Durante a canção Vênus em Escorpião, que exalta a visibilidade lésbica, a vocalista reproduziu, em tom irônico, a falácia masculina sobre o assunto: “Mas o que é esse monte de lésbicas atualmente? Veja se existe alguma com mais de 70 anos?”, foi uma das frases proferidas pela cantora, até encerrar dizendo em alto tom: “Que a nossa forma de amor não seja apenas uma busca nos sites de pornografia”.

A Manaminamona fez questão de unir funk e rock ao fazer uma versão punk do hit Envolvimento, da Mc Loma, encerrando a sua apresentação.

Banda Manaminamona Rock Feminista
Banda Manaminamona | Foto: Vinícius Vieira

“Fazendo as contas aqui, podemos dizer que o nosso bebê nasceu, meninas! Afinal são nove meses de banda”, brinca a baixista Julia Kaffka, ao falar do tempo de existência da Bioma, banda paulistana que encerrou as apresentações do Mana Rock. Além de Júlia, a Bioma é formada por Natália Pinheiro (voz), Mayra Vasconcelos (guitarra) e Letícia Figueiredo (bateria). Apesar do som do conjunto ser um hardcore enérgico e rápido, muito semelhante às grandes representantes do gênero como Dominatrix, Bulimia e Anti-Corpos, as influências do conjunto, segundo as integrantes, são diversas: “Eu vim da cena indie e grunge do final dos anos 1990, chegando até o real emo”, conta Júlia. Letícia, por sua vez, é aficionada por heavy metal, chegando a dividir a função de baterista na banda Kultist, que soa com uma exceção à regra no gênero, por contar com instrumentistas mulheres e um homem como vocalista, quando é mais comum o inverso.

O vocal dilacerante de Natália se conecta com o instrumental furioso da banda, capitaneados pela guitarra de Mayra, que relembra os riffs precisos de Greg Ginn, guitarrista da célebre e influente banda de hardcore californiana Black Flag. O que não deixa de ser uma grande influência para a guitarrista, que tem o logo da banda tatuado no seu pulso. Mas ser fã não tira a originalidade e a pegada de Mayra. A baterista Letícia conta que, após uma apresentação, a banda foi saudada com um ataque machista que pretendia ser um elogio: “Vocês tocam tão bem que até parecem homens”. Natália completa: “Eu fico impressionada com a autoestima masculina. Porque o homem acha que ele é um termômetro”.

‘Garota, seu lugar é aqui: no palco’

Os preconceitos enfrentados pelas meninas da Bioma, dentro de um cenário musical tão machista quanto o punk rock, são vários, começando pela fetichização da plateia masculina ao se deparar com uma banda feminina no palco: “A sensação que eu tenho é que eles olham pra gente e dizem: ‘Humm, mulheres tocando. Que tesão!’”, diz Júlia. Até provocações vindas de técnicos de som: “No nosso primeiro show junto com as Clandestinas, o técnico de som disse que o som do meu instrumento estava baixo, porque eu não estava palhetando com força. Sendo que falta de força não foi o problema, já que eu saí com os dedos ralados”, relembra a baixista. Natália faz questão de exaltar a força feminina dentro da própria cena. “Uns quatro anos atrás, teve um marasmo na cena. Hoje as minas voltaram com força total, como técnicas de som, à frente de selos musicais, produzindo músicas, gravando, produzindo shows, organizando festivais como o Maria Bonita Fest, o Apoia Mútua. A gente não precisa dos caras para criar uma cena, nós criamos a nossa própria cena”, reforça.

E foi justamente no Mana Rock, um festival feminista organizado por mulheres, que o Bioma desfilou o seu repertório que mescla as suas próprias composições, como Violência Invisível, Nosso Corpo, Falsas Causas e 77 Cobaias, com uma sequência de covers das bandas que proliferaram o ideal feminista no punk brasileiro como Tempo Livre do Bulimia e Apoia Mútua do Anti-Corpos, além de uma versão de Cuida da Tua Vida da banda Teu Pai Já Sabe, que teve o seu famoso refrão “Puta, viado, travesti é engraçado” alterado para “Puta, sapatão, travesti é engraçado”. Apesar do clima de festa, Natália fez questão de lembrar algo pertinente: “Nos 13 dias do primeiro mês de 2018, 13 garotas lésbicas se mataram. Isso não foi suicídio, isso foi um genocídio lésbico proporcionado por uma sociedade que não nos aceita”.

Banda Bioma rock feminista
Banda Bioma | Foto: Vinícius Vieira

Antes de tocar a última canção do repertório, a urgente Descontrolar, as palavras letais de Natália se fizeram presentes mais uma vez: “Essa música é uma forma de se rebelar contra uma cultura que incentiva o homem a ter uma banda de rock logo na infância, quando o pai presenteia o filho com uma guitarra, mas que julga uma mulher por querer fazer o mesmo”. A vocalista faz questão de reforçar que a mensagem dessa canção vai muito além: “Essa música fala do aspecto de você descontrolar dentro de uma sociedade que te oprime de todos os lados e de todas as maneiras possíveis”.

A DJ Fernanda Offner, que ficou responsável pela discotecagem do evento, reproduzindo canções apenas de bandas femininas, como L7, Runaways, Bikini Kill, entre outras, enfatizou a importância de um festival como o Mana Rock, que reverencia e divulga o trabalho de bandas autorais com a massiva presença feminina. Fernanda, que também é musicista, sendo baixista e a única mulher da banda de surf rock Burt Reynolds, também da cidade de Jundiaí, reforçou o discurso de Natália, sobre a presença feminina em bandas. “Eu nunca me vi como a única menina da banda. E mesmo sabendo que eu tinha uma responsabilidade, eu sentia que essa preocupação vinha muito mais de fora do que de mim mesmo. Até porque, no fundo eu estava fazendo o que eu sempre queria fazer”, diz Fernanda, que revelou que a sua presença feminina despertou o interesse em outras garotas. “Muitas vezes eu desci do palco e vinha meninas falar pra mim: ‘Nossa, eu estou aprendendo baixo também, foi animal ver você em cima do palco. Acho que posso estar lá também’, e eu dizia: ‘Vem, garota, o seu lugar é aqui!’”

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