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Mortes em operações da polícia do RJ aumentam 92% em 2019, segundo levantamento

22/01/20 por Caê Vasconcelos

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Balanço da Rede de Observatórios da Violência mostra que operações policiais deixaram 201 mortos no período de 10 meses de 2018 e, no ano passado, foram 387 casos

Operação em junho de 2019 no Complexo da Maré | Foto: Divulgação/Redes da Maré

Desde que assumiu o governo do Rio de Janeiro, há um ano, Wilson Witzel (PSC) adotou uma postura pública com relação à política de segurança pública de “atirar na cabecinha“. O resultado foi que a polícia matou 92% a mais no ano passado em comparação com 2018, segundo levantamento da Rede de Observatórios da Segurança.

O aumento é relativo aos dez meses analisados, de março a dezembro de 2018 e 2019. A escolha do período, de acordo com o Observatório, é para conversar com os dados gerados pelo relatório do Observatório da Intervenção, que começou em fevereiro de 2018.

Outro dado alarmante é o aumento no número de operações policiais no estado do Rio de Janeiro. De acordo com o estudo, de janeiro a dezembro de 2019, 1.296 operações foram realizadas, com um total de 387 mortes. Ou seja, uma morte a cada 3,3 operações. Em 2018, foram 201 mortes em 711 operações.

O número de mortes em ações da polícia também subiu. Segundo dados do ISP (Instituto de Segurança Pública), em 2018, o número de mortes na capital do Rio de Janeiro foi de 558 e subiu para 724 no último ano, aumento de 29,7%. Na Grande Niterói, o aumento foi de 45,2%: foram 241 mortes, em 2018, e 350, em 2019.

O levantamento mostra que as polícias atuaram separadas na maior parte do tempo em 2019: 91% das operações envolveram apenas uma força policial. Das 1.296 operações, 63 utilizaram helicópteros, que em mais de um momento contou com apoio in loco do governador.

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Denúncia contra ‘política de massacre’ de Wilson Witzel chega à ONU

Em maio de 2019, Witzel já havia sido denunciado à ONU (Organização das Nações Unidas) pela pela Comissão de Direitos Humanos da Alerj (Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro) por sua “política de massacre“.

À Ponte, em junho de 2019, a presidente da Comissão de Direitos Humanos da Alerj, a deputada estadual Renata Souza, relatou as dificuldades de enfrentar o projeto que ela define como assassino do governador do Rio. Um estudo anterior do Observatório, divulgado em julho de 2019, analisou os primeiros seis meses de Governo Witzel e já apontava para uma crescente violência nas operações policiais.

A cientista social Silvia Ramos, coordenadora da Rede de Observatórios de Segurança Pública, do CESeC, da Universidade Cândido Mendes, explica que o aumento da letalidade policial no Rio de Janeiro é resultado de uma política de segurança sem inteligência, investigação e prevenção, baseada apenas em operações policiais.

“O que observamos no Rio de Janeiro, desde o ano da intervenção em 2018, é que uma parte muito grande das políticas de segurança passaram a ser operações policiais. Com o governo Witzel, temos uma impressão de que toda política de segurança é operação policial. Restaram poucas ações policiais com estratégias e iniciativas que não sejam operações. Quando a gente vê a polícia ela está fazendo operação policial”, aponta a pesquisadora.

Ramos conta que o aumento de 92% na letalidade policial surpreendeu a Rede de Observatórios da Segurança. “O ano anterior tinha sido o ano da intervenção [federal], e o ano da intervenção tinha se caracterizado por essa coisa que era o exército na rua, com milhares de efetivos novos chegando. Tínhamos tido a impressão de que essa política de operação policial tinha chegado ao seu ápice. Mas, para a nossa surpresa, ela aumentou em números de operações e letalidade policial. A cada três operações policiais temos um morto”.

Para Silvia, uma política centrada em operações policiais vai contra os princípios da própria polícia. “No mundo inteiro as polícias usam uma premissa: maior produtividade com a menor letalidade. No Rio de Janeiro parece que as polícias transformaram esse lema em muita letalidade independentemente de produtividade”, critica.

O principal motivo para o aumento da letalidade, afirma Silvia, está no comportamento do governador Wilson Witzel. “Começa com o lado mais ideológico, em que o governador diz essas coisas [como atirar na cabecinha], e depois tem uma cena performática que é o governador sobrevoando Angra dos Reis em um helicóptero de onde saía tiros”, argumenta

“Isso é muito grave, é como se o governador tivesse participando dessa operação, que usa helicópteros como plataforma de tiros sobre populações civis. Isso vai crescendo até o caso da Ágatha [Félix, menina de 8 anos morta no Complexo do Alemão durante operação policial], em que vão aumentando o número de mortes de crianças”, crava Ramos.

A prevenção, argumenta a pesquisadora, é o melhor caminho para diminuição da letalidade policial. “Uma em cada três mortes é causada pela polícia. A média é de 30%. Será que nós estamos seguindo uma política de segurança em que policiais serão responsáveis por tantas mortes no estado? É isso que esse governo tem que responder”, provoca.

A Ponte questionou o governo do Rio de Janeiro sobre os dados apresentados pela Rede de Observatórios da Violência, mas não obteve retorno até a publicação da reportagem.

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