Os medos das mães alojadas na maior universidade do país durante a pandemia

Estudantes denunciam más condições em alojamento da maior universidade do Brasil; algumas afirmam que são consideradas “mães irregulares” e temem ser despejadas

Juliana e a filha na Cidade Universitária, antes da pandemia | Foto: arquivo pessoal

Foi a violência doméstica que levou Juliana Lopes a morar no Crusp (Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo), moradia estudantil oferecida pela universidade a alunos de baixa renda. Construído em 1963 com o intuito de receber os atletas para os Jogos Pan-Americanos, o conjunto de prédios hoje abriga cerca de 1.200 alunos, vindos de várias regiões do país e de outros países, incluindo estudantes mães que buscam conciliar o estudo e a maternidade e que, em meio à pandemia de coronavírus, se dizem negligenciadas pela instituição.

Aos 32 anos, mãe de uma menina de 5, Juliana, carioca do subúrbio do Rio de Janeiro, reside no chamado bloco das mães, espaço localizado no térreo do prédio A, que conta com 12 moradias destinadas a estudantes que são mães. Aluna do curso de letras, foi em 2018 que ela passou a ocupar o local, após ser agredida com um skate e um cavalete de pintura pelo pai da sua filha.

“Eu escrevi uma carta para a assistente social, de mais de três folhas, frente e verso, explicando tudo o que eu estava vivendo dentro da minha casa, para que a universidade pudesse me acolher”, conta.

Juliana e sua filha acabaram acolhidas no alojamento da universidade. No entanto, o acolhimento trouxe a ela, e às outras mães que lá residem pelos mais diversos motivos, os desafios de lidar com os problemas de convivência em uma moradia coletiva, junto com uma série de problemas do prédio que se tornaram mais evidentes com o avanço da pandemia da Covid-19 e com a realização da quarentena.

Fogões danificados impedem os estudantes de cozinhar | Foto: Crusp Transparência

Há mais de 50 dias em isolamento, as estudantes já protocolaram na reitoria da universidade dezenas de solicitações, que vão desde acesso à internet até a disponibilização de bocas nos fogões para que possam cozinhar. No Crusp, as cozinhas são coletivas, uma por andar, cada andar com 11 apartamentos. Alguns prédios não possuem encanação de gás e em outros os fogões estão danificados. Sem falar da presença de ratos e entulho.

“Além de termos um problema institucional, em que a maior universidade da América Latina nos negligencia, temos problemas de fator psicológico gravíssimo, que vão se agravando cada vez mais, pela ausência da instituição na nossa moradia”, explica Juliana.

A pandemia levou a USP a interromper as refeições no Bandejão Central, que fica dentro do Crusp, e a passar a distribuir marmitas no bandejão da Faculdade de Química, onde as estudantes preferem não ir para evitar aglomerações que, segundo elas, costumam se formar ali. A pedido delas, a universidade passou a distribuir marmitas no Crusp, inicialmente apenas para as crianças, excluindo suas mães. Depois os alimentos passaram a ser entregues para todas as mães dos prédios.

Instalações do prédio revelam falta de manutenção | Foto: Crusp Transparência

“As mães que estão em outros blocos [fora do bloco das mães] não têm respaldo legal de morarem lá, não são respeitadas e nem reconhecidas como mães, não conseguem gozar do mesmo direito que as mães do bloco das mães gozam, que é o direito de ter paz, de não ter alunos batendo na porta da casa perguntando se tem vaga. A maioria delas são estrangeiras, são de outros estados. A USP não gosta de escândalos, não gosta de mostrar os pobres que tem, foi a última a aderir ao sistemas de cotas. Os problemas ultrapassam a logística estrutural do bloco das mães”, relata.

Em uma página, construídas com o intuito de mostrar para a sociedade a realidade vivida dentro do Crusp, os estudantes publicam imagens das marmitas distribuídas, que, segundo eles, estariam com alimentos estragados.

Alimento estragado que teria sido distribuído aos estudantes | Foto: Crusp Transparência

Outro problema apontado foi em relação à disponibilização de internet, de baixa qualidade, que não permite acompanhar as aulas online. “Por que temos que passar por tantos problemas dentro da universidade, já que é uma instituição de pesquisa, cultura e extensão?”, diz Juliana.

Estudantes contaminados

O Crusp já conta com aproximadamente dez casos de alunos contaminados pelo novo coronavírus, de acordo com estudantes. Segundo eles, a iniciativa de testar os moradores partiu da mobilização dos alunos da área de saúde residentes no alojamento estudantil. Para isso, foi criada a Frente Universitária de Combate à Covid-19, que, além de se posicionar sobre o avanço da doença no Crusp, analisou a situação de vulnerabilidade vivida pelas estudantes mães.

Em carta destinada à comunidade de alunos, a Frente pontuou a preocupação com as estudantes e com as crianças que lá residem. Segundo a Frente, 24,5% das mulheres do Crusp possuem algum tipo de transtorno mental. Dentre os moradores no geral, 11% possuem depressão, 10,6% ansiedade, além de diagnósticos de TDAH (transtorno de déficit de atenção e hiperatividade), bipolaridade, estresse, insônia, borderline, síndrome pós-traumática e síndrome do pânico.

Mãe não reconhecida

Aos 41 anos de idade, uma estudante, que prefere não dizer o nome, reside em um dos dois prédios destinados aos alunos da pós-graduação. Aluna do mestrado, ela faz parte do grupo de dezenas de mães consideradas irregulares e, dessa forma, não são reconhecidas pela universidade. A estudante tem uma filha de dois anos e, na companhia da filha e do marido, ocupa um dos apartamentos reservados para moradia coletiva.

Ao engravidar, solicitou à instituição o direito de permanecer no alojamento sem ter que dividi-lo com outra pessoa, direito que já é garantido às estudantes que vivem no bloco das mães, contudo, ela não teve a sua solicitação atendida. Em um universo de mais de mil estudantes moradores, 12 apartamentos do bloco das mães têm autorização para serem ocupados por crianças que, na maioria das vezes, são filhas de estudantes que já chegam à universidade sendo mães. No caso das mulheres que engravidam no percurso, a recomendação é que desocupem a moradia, retirem a criança ou aceitem o compartilhamento, opções recusadas pela estudante. “Se colocarmos um desconhecido dentro do apartamento, não teremos essa segurança”, explica.

As más condições do prédio do Crusp | Foto: Crusp Transparência

Desempregada, ela dependia financeiramente do marido, que, com as demissões provocadas pela quarentena, também perdeu o emprego. Atualmente, a estudante depende integralmente das refeições cedidas pela universidade e pelas doações angariadas pela Comissão de Mães, que visa acolher as moradoras no Crusp.

Segundo a estudante, chegar ao mestrado sendo negra e nordestina fez dela uma das poucas a ocupar esse espaço na Universidade São Paulo e, para ela, resistir no local é uma forma de enfrentamento ao racismo e ao machismo. Ela conta que grande parte das mulheres que estão na mesma situação também são negras, africanas, mulheres de outros estados ou latinas, “mulheres estrangeiras que não vão deixar seus filhos”.

Condições de um corredor do Crusp | Foto: arquivo pessoal

“Eu não posso abrir mão da minha filha, também não posso abrir mão do meu estudo. Esse diploma vai dar uma vida melhor pra minha filha. É ascender por meio da educação”, diz. Segundo ela, “se a universidade não tiver nenhum programa de permanência para uma mulher que engravida durante o processo de escolarização, a mulher não tem como seguir em frente”.

Além da possibilidade constante de sofrer uma ação de despejo, as mães irregulares enfrentam outras dificuldades. Para receber a irmã no período do parto e puerpério, ela conta que teve que “enfrentar uma batalha”.

“Eu tenho uma filha, eu não posso deixar a universidade fazer o que quiser comigo. Eu vou continuar estudando na medicina da USP, porque é assim que eu quero. E tudo o que passamos aqui dentro é reflexo do racismo e da discriminação de gênero. É complicado pedir para uma mulher que escolha entre a carreira e o direito de ser mãe”, conclui.

Comissão de mães

À frente da Comissão de Mães, junto com Juliana Lopes, Cintia Silva, além de mãe e moradora do CRUSP, é a responsável por mediar os conflitos, acolher as estudantes mães e reivindicar melhorias na moradia e na vida das estudantes. Graduanda de pedagogia, aos 31 anos ela é a mãe de uma menina de 8.

Cintia Silva e a filha, de 8 anos, diante de um dos prédios do Conjunto Residencial da Universidade de São Paulo | Foto: arquivo pessoal

Foi Cintia, junto com a Comissão, que solicitou à universidade um auxílio financeiro para as mães em situação de vulnerabilidade, pois, segundo ela, muitas estão sem emprego, têm filhos que fazem tratamento médico, perderam as bolsas e não têm como se manter. Mas a universidade não respondeu.

Também foi Cintia a responsável por solicitar a desratização do prédio, que estava com uma infestação de ratos provocada “pelo entulho espalhado nos corredores”. O procedimento foi realizado duas semanas após o seu pedido, porém não diminuiu por completo os conflitos.

“Eu pedi que a universidade emitisse um documento pedindo para que os corredores fossem desocupados, pois estamos em uma situação de pandemia e precisamos limpar. Toda hora fazemos uma solicitação, ontem tivemos que chamar a assistente social, para ela chamar a guarda universitária e mediar a briga, porque precisávamos que os moradores colocassem suas coisas para dentro de casa”, conta.

Segundo ela um dos grandes problemas é a falta de dialogo com a universidade, pois dentro dos prédios há pessoas alunos com os mais diferentes perfis, pessoas com problemas psiquiátricos, álcool, drogas e demais situações que “fogem da capacidade de mediar” dela, mas que atrapalham a convivência pacífica e a manutenção do local.

“Minha filha faz fisioterapia diariamente, e precisa passar pelo corredor diariamente para fazer a fisioterapia. Ela respira 50% menos. Ela tem uma diferença de quase um centímetro de uma perna para a outra e eu ainda tenho que brigar para manter minha filha viva”, relata.

Uma das maiores preocupações de Cintia em relação à filha é devido ao contágio da Covid-19. Com a necessidade de passar pelo corredor e buscar as marmitas de alimentação, elas acabam expostas à doença. Inicialmente era ela quem fazia a distribuição das marmitas, mas, com o aumento da quantidade, cada um ficou responsável por buscar as suas, inclusive os estudantes infectados.

“A gente não pode nem morrer. Eu tenho uma criança que depende de mim. É a vida dela que está me motivando a entrar nessa luta, entrar nessa briga com a universidade”, afirma.

O que diz a USP

Em resposta à Ponte, a USP, por meio de sua assessoria, informou que existe um projeto para reformar o prédio, no entanto devido à quarentena, essa reforma não pode ser realizada no momento. Sobre a alimentação, a assessoria informou que não tem como fazer a distribuição das marmitas e que os estudantes precisam se organizar para efetuar a distribuição. A respeito da situação das “mães irregulares”, a assessoria não se manifestou até o momento.

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