Os primeiros dias da vida de Patrick, recém-nascido morador de uma ocupação em SP

08/06/19 por Willian Novaes, especial para Ponte

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A reintegração de posse de uma casa abandonada na zona leste de SP não foi concluída, mas terminou na delegacia depois de uma confusão entre moradores e PMs

Taina de Jesus e o filho Patrick na ocupação | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

Patrick chegou na sua casa, na tarde de fria do último domingo (2/6), e dormiu no colchão colocado no chão. O menino nasceu de uma cesariana realizada no último dia de maio, num hospital público, na zona leste da cidade de São Paulo. Na quarta (5/6), às 8h da manhã, recebeu a sua primeira visita.

Ninguém trouxe um pacote de fraldas ou muito menos uma caixa de bombons para a sua mãe, a desempregada Taina de Jesus, de 29 anos, que é mãe de outros 3 filhos. Os visitantes eram policiais militares e todos entraram sem nenhum tipo de cordialidade. Fardados, no meio da chuva que caia na manhã paulistana, gritaram que a moleza tinha acabado e que era para todos saírem do local.

Fachada da ocupação | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

Essa foi a primeira visita do pequeno Patrick. Mas nem todo o barulho feito pelos PMs foi capaz de despertá-lo do sono profundo. O recém-nascido só acordou de noite, para ser amamentado. Seu pai, que também se chama Patrick e tem 23 anos, ocupou a casa sem uso da rua Valdemar Doria, no bairro do Belém, na Zona Leste, um dia antes do seu primogênito nascer.

PM chega em ocupação na zona leste | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

“Estamos no movimento por uma moradia para cada família, estamos pulando de ocupação em ocupação. Não podemos ficar desse jeito. Meu filho nasceu e somos obrigados a ir para rua? Não tem cabimento isso”, protesta o pai, que não teve direito aos dias de folga porque não tem trabalho.

A casa ocupada é grande, provavelmente foi um lar de gente poderosa. A reportagem andou por todo o terreno e notou que o local está abandonado há anos. O casarão tem mais de 10 cômodos e um quintal imenso. A casa está parcialmente destruída, parte do teto está caindo e o que um dia foi um jardim hoje está tomado pelo mato.

Na frente da casa foi colocado um tapume. O proprietário enviou três funcionários, que se disseram ser seguranças, para acompanhar a ação de despejo da PM. Parecia que um deles gerenciava o trabalho dos agentes de segurança do Estado, já que toda hora algum policial ia conversar, sempre no pé do ouvido, com um desses homens.

Algumas crianças moravam na ocupação | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

Um anjo na chuva

Quando parte dos pertences das cerca de 15 pessoas, entre adultos e crianças, já estava na calçada, por volta das 10h da manhã, o padre Julio Lancellotti chegou, convocado pelos moradores. Com a sua calma habitual, conversou com os policiais.

No primeiro momento, houve uma confusão sobre a data em que as pessoas ocuparam o imóvel. Patrick e o restante dos homens informaram que foi na madrugada de quinta-feira (30/05) e que a mudança chegou na madrugada de sábado (1/6). Com isso, já teria passado o prazo das 72 horas que os policiais militares alegavam para reintegrar o imóvel ao dono sem o mandato judicial.

Os PMs ficaram inconformados com a informação do pároco que confirmou que os moradores entraram no local na quinta-feira, ou seja, já havia passado das 72 horas e a reintegração precisaria de um mandato. Os policiais passaram a investigar, por conta própria, o dia e o horário em que aquelas pessoas ocuparam o imóvel abandonado.

Os policiais pediram as imagens da câmera de segurança de um imóvel que fica na frente do local ocupado. Depois de alguns minutos analisando as imagens, um policial informou, com certa empolgação, que viu a mudança chegar às 3h da madrugada de sábado (1/6). Segundo eles, em poucos minutos, conseguiram analisar as imagens de vários dias e ninguém havia entrado antes da madrugada do primeiro mês de junho.

Diante disso, os policiais voltaram a pensar na ideia de retirar todas as pessoas, inclusive o pequeno Patrick, que nesse momento era amamentado por sua mãe, ambos deitados num colchão sujo, colocado no chão do imóvel.

Pertences do pequeno Patrick | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

Taina, depois do susto de quase perder o recente lar, perto das 10h30, foi fazer a sua primeira refeição do dia: um pão com manteiga que o seu companheiro trouxe. Na sequência, levantou, com muita dificuldade, e mostrou a cesárea e os pontos, além de dois pacotes de fraldas e um de lenços umedecidos.

Andando lentamente, contou que o filho foi gerado na rua e está junto com o pai do garoto há 4 anos. Seus outros três filhos, de 12, 8 e 6 anos moram com o ex-marido, pai das crianças. Ela explicou que passou a gravidez nas ruas e os últimos dias antes de dar à luz esteve casa de sua mãe, que fica no centro da cidade. “A gente vive sofrendo demais. Fizemos esse filho debaixo da ponte, colocávamos um pano e esse era o jeito que dava, mas ninguém merece isso não. Não vejo a hora de conseguir uma casa”, conta friamente.

Interior da ocupação | Foto: Willian Novaes/Ponte Jornalismo

A confusão entre os PMs, o padre e os membros da ocupação foi parar o 12º Distrito Policial, do Pari, distrito do Brás, na zona central, onde foi registrado o boletim de ocorrência. Foi determinado, ali, que apenas a Justiça tem o poder de emitir o mandato de reintegração de posse.

Naquela noite, o pequeno Patrick e as outras crianças terão um teto para dormir, mesmo que ele esteja caindo. Uma criança de uns 6 anos, mandou os policiais irem embora da casa dele.

De acordo com a Secretaria Municipal de Habitação de São Paulo informou que atualmente existem 218 ocupações em São Paulo, com cerca de 40 mil famílias.

“Nós estamos caminhando para um caos social. Não sei o que vai acontecer nessa cidade”, disse o padre Julio, no meio da tarde, ao chegar, na paróquia São Miguel Arcanjo e ver mais uma série de outros problemas em cima da sua mesa.

Outro lado

À Ponte, a Secretaria de Segurança Pública de São Paulo informou, em nota, que o caso foi registrado no 12º DP como invasão de propriedade (esbulho possessório).

A autoridade policial aguarda a representação do proprietário do imóvel para o prosseguimento das investigações. Eventuais denúncias sobre a ação dos policiais militares durante a ação podem ser registradas na Corregedoria da PM, para a apuração dos fatos.

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