Palestra de PM armado em escola infantil de Trindade (GO) revolta pais

Em discurso, policial afirma que “o papel da mãe é cuidar da casa e dos filhos” enquanto o pai trabalha “para prover o sustento da família” e que “a única família correta é a aceita por Deus”, relatam pais de alunos. Diretora responsável pelo evento foi afastada

Os pais do CMEI (Centro Municipal de Educação Infantil) Abadia José, no município de Trindade, na Região Metropolitana de Goiânia, não podiam imaginar que uma festa cultural, denominada “O Pai que Sou”, teria como palestrante um policial armado, dedo em riste e “voz de pregador agressivo”, no dia 26 de agosto, um sábado. O convite para palestra partiu da diretora, Cleisimar Fernandes de Souza Alves, afastada no início desta semana pela SMEC (Secretaria Municipal de Educação e Cultura).

Durante os quase 20 minutos que durou a palestra, parte dela registrada em vídeo por um dos pais indignados, o cabo Sidney Alves de Sousa, da PMGO (Polícia Militar do Estado de Goiás), ensina: “Deus em primeiro lugar, em tudo o que você for fazer”. Antes disso, como atestaram pelo menos três pais de crianças com até quatro anos de idade, o policial foi contundente ao falar sobre “formatos de famílias que vão contra a Bíblia”.

Uma das mães que falou à Ponte Jornalismo conta que decidiu se juntar a outros pais porque se sentiu excluída por ser solteira. Uma funcionária da unidade disse que o “preconceito aos pais homoafetivos foi a gota d’água”. As pessoas que teceram críticas à palestra do policial não quiseram ser identificadas porque temem pelas vagas dos filhos na escola.

“As falas do policial podem levar à reprodução de discursos homofóbicos, promovendo o ódio e autorizando nossos filhos a desrespeitarem uns aos outros e incitando pais e familiares a discriminarem outros tipos de família”, diz um trecho da nota de repúdio elaborada pelo grupo de pais, que circulou pelas redes sociais e pode ser lida abaixo, na íntegra:

 

A comunidade de Pais do C.M.E.I. Abadia José dos Santos, vem por meio dessa nota, manifestar total repúdio ao acontecimento lamentável ocorrido no ultimo sábado, 26/08/2017, durante a “Mostra Cultural” dos alunos. No evento, presenciamos uma palestra com o título “O pai que sou”, ministrada pelo cabo Sidney da Polícia Militar de Goiás. Nessa palestra o cabo Sidney faz falas discriminatórias aos modelos de família que não sejam tradicionais.

Fardado e de porte de arma de fogo, o cabo Sidney defendeu, de forma bastante enfática, que “a única família correta e aceita por Deus” é a família que tem um pai, uma mãe e seus filhos. CONSIDERANDO que, nossa comunidade é constituída por vários arranjos familiares, sendo grande maioria monoparental. CONSIDERAMOS infeliz e excludente a colocação sobre o tema. Usando sua própria vivência como padrão.

Disse ainda que o papel da mãe é cuidar da casa e dos filhos e que o pai deve sair para trabalhar para prover o sustento da família. O que não corresponde com nossa realidade e configura uma fala machista e discriminatória. EXPRESSAMOS nosso repúdio a essas falas e nosso imenso respeito a todas as mães que trabalham fora e sustentam seus filhos, muitas vezes sozinhas. RESPEITAMOS também todos os pais que, em decorrência do destino, criam seus filhos sozinhos, porém com amor e dedicação. e que assumem seu papel com responsabilidade, que vai além dos atos diários de alimentar e trocar fraldas.

ENTENDEMOS que o principal papel da Escola é possibilitar espaços de diálogo que respeitem as etnias, credos, religião, crenças, gênero e orientação sexual.  Visto que a Carta Magna Brasileira prevê, no Art. 3.º, inciso IV, que constituem objetivos fundamentais da República Federativa do Brasil, dentre outros, promover o bem de todos, sem preconceitos de origem, raça, sexo, cor, idade e quaisquer outras formas de discriminação.

RESSALTAMOS também a fala discriminatória e ostensiva sobre a questão da homossexualidade. CONSIDERAMOS que as falas do Policial, pode levar a reprodução de discursos, homofóbicos, promovendo o ódio e autorizando nossos filhos a desrespeitarem uns aos outros e incitando pais e familiares a discriminarem outros tipos de família.

QUEREMOS também que o C.M.E.I. respeite a Laicidade da Escola pública, estabelecida na Constituição Federal de 1988. Onde obtivemos conquistas na educação, para o exercício de uma cidadania: dialógica, plural, laica, contextualizada, crítica e emancipatória. Pois ENTENDEMOS não ser correto que, uma escola pública receba um convidado para fazer doutrinação religiosa específica, ao contrário, um espaço público deve respeitar todas formas de crença.

Diante dos fatos e considerações realizadas, SOLICITAMOS e ESPERAMOS, que o C.M.E.I. Abadia José dos Santos, reveja seu posicionamento em respeito à trajetória de cada família, de cada criança, independentemente se o núcleo familiar, seja seus avôs, tios, irmãos etc. E principalmente aos pais que se sentiram não representados. REIVINDICAMOS que a unidade, publique uma retratação; Seja por via de palestra com Profissional da ÁREA de Educação, ou Psicologia. Seja por nota de retratação.

CONSIDERANDO o Art. 2º da LDB sobre o princípios e fins da educação nacional onde é explicitado que; A educação, é dever da família e do Estado, inspirada nos princípios de liberdade e nos ideais de solidariedade humana, e tem por finalidade o pleno desenvolvimento do educando, seu preparo para o exercício da cidadania e sua qualificação para o trabalho.

REIVINDICAMOS, baseados no princípio da gestão democrática Art. 3º item VIII da LDB que haja uma construção COLETIVA, composta por (Pais, Mães, Funcionários, Professores e Alunos) sobre a organização e definição das programações da unidade, bem como na participação ativa da construção dos projetos políticos pedagógicos. Tal atitude é prevista no direito democrático, pelo qual a educação é pautada.

SOLICITAMOS também, que a Secretaria de Educação e Cultura se posicione sobre tal acontecimento.

ATENCIOSAMENTE, a comunidade de pais e Moradores.

O PM Sidney Alves de Sousa durante palestra no CMEI Abadia José. | Foto: Reprodução Vídeo

Antes de ser afastada, a diretora do centro educacional disse para a reportagem que “solicitou ao comandante do cabo para que ele fosse palestrar”, que o cabo é um conhecido palestrante e que “não teve exclusão”.

“A gente tem vários formatos de pais, as pessoas são livres, mas somos cristãos, acreditamos num só Deus”, afirmou Cleisimar Fernandes de Souza Alves. Indagada se o convite ao PM que “palestrou sobre a Bíblia” não teria ferido a laicidade garantida pela Constituição Federal de 1988, a diretora foi enfática. “Não foi pregada religião”, disse.

Segundo o porta-voz da PM goiana, coronel Marcelo Granja, “a instrução é de o PM sempre andar armado, em qualquer lugar, mas que averiguaria” porque ali tinha crianças. Depois, por telefone, afirmou que “é normal PM andar armado, inclusive em ambientes infantis, para segurança do policial”.

Ele disse ainda que não vê problemas no fato de o cabo usar a Bíblia, pois na própria PM há um grupo que, segundo ele, se chama UniCristo. “É uma entidade dentro da PM que presta assistência religiosa, indo na Academia, nos presídios militares, nos quartéis. Tem que ver se ele pertence e o motivo de ele estar lá no CMEI. Os PMs levam uma palavra de afeto”, afirmou.

A reportagem procurou a SMEC (Secretaria Municipal de Educação e Cultura), que apenas confirmou o afastamento da gestora, sem maiores explicações. Depois de afastada, Cleisimar não atendeu à Ponte.

O cabo Sidney Alves de Sousa não foi encontrado pela reportagem.

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