Patrimônio de Cidade Tiradentes, coletivo Pombas Urbanas é símbolo de resistência cultural

O quarto episódio da série Cultura de Periferia em Tempos de Pandemia conta os esforços do coletivo que une o teatro e o circo nas periferias da zona leste de São Paulo há 32 anos

Fugindo da ditadura militar peruana, o diretor e ator Lino Rojas (1942 – 2005) chegou ao Brasil na década de 1970. Se tornou professor da Universidade de São Paulo (USP) e criou o projeto Semear Asas, levando oficinas de arte e dramaturgia aos jovens nas periferias. Foi assim que em 1989 nasceu o coletivo Pombas Urbanas, em São Miguel Paulista, zona leste de São Paulo. A trajetória dos 32 anos do projeto idealizado pelo artista é contada no quarto episódio de Cultura de Periferia em Tempos de Pandemia, série da Ponte em parceria com o Todos Negros do Mundo disponível no YouTube e exibida aos sábados na Rede TVT.

Marcelo Palmares, integrante do coletivo e aprendiz de Rojas, conta à apresentadora Stephanie Catarino que diante da falta de espaços culturais fixos, o grupo ocupou praças, parques e ruas. As peças teatrais retratavam o cotidiano e o perfil dos moradores mais marcantes de São Miguel Paulista. Em 2004, o grupo se fixou em Cidade Tiradentes, extremo da zona leste, transformando um galpão abandonado na principal avenida do bairro no Centro Cultural Arte em Construção.

O nome Pombas Urbanas, segundo Marcelo, foi escolhido como uma crítica a esta realidade marginalizada. “O Lino cantava a canção mexicana ‘Cucurrucucu Paloma‘ e a gente sentiu uma identificação, pois assim como os nossos familiares que vieram do Norte e Nordeste do Brasil para tentar uma vida melhor em um grande centro urbano que era São Paulo, as pombas, que eram consideradas um símbolo de paz, também tiveram que se adaptar a vida urbana e acabaram virando ratos com asas, que proliferam doenças e reproduzem em larga escala”, explica.

O coletivo criou laços com a Cidade Tiradentes a partir dos espetáculos de teatro, de dança e circo. Marcelo diz que os moradores da região não se sentiam pertencentes a uma cidade como São Paulo, tamanha a desigualdade que o bairro tem de outros pontos da capital e pela falta de políticas públicas que pudessem proporcionar atividades e locais culturais.

Com os obstáculos impostos pela pandemia de Covid-19, o Pombas teve que adaptar suas atividades para o ambiente virtual. A adesão do público, apesar das dificuldades de conexão, foi muito boa, conta o representante do coletivo na entrevista. “Estamos com o apoio da Lei Aldir Blanc que tem mantido a estrutura da nossa sede em atividade, conseguimos manter as pessoas colaboradoras com salários e o pagamento de artistas”, relata.

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Guiado pelos ensinamento do filósofo e pedagogo Paulo Freire, o Pombas tem tirado forças do coletivo e acredita no ‘esperançar’, estar em luta na perspectiva de dias melhores. “Acho que isso vai caber muito aos artistas no pós-pandemia, de reconstruir esse tecido humano, de trazer as pessoas novamente para ocupar os espaços públicos. Estamos com muita esperança de que esse momento chegue, sabendo que esse não é o novo normal, porque vão faltar mais de 400 mil pessoas”, lamenta Marcelo sobre as vidas que a pandemia e violência ceifaram no último ano. “O teatro é a festa. E essa festa só acontece com a comunidade presente”, reforça.

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