PF prende líder de fórum racista, misógino e homofóbico denunciado pela Ponte

Marcelo Valle Silveira Mello era um dos participantes mais ativos no Dogolochan, espaço virtual de disseminação de ódio e onde extremistas defendem ideias como terrorismo

Marcelo faz saudação em referência ao nazismo | Foto: arquivo pessoal

Por anos, a impunidade motivou as ações de membros no fórum Dogolachan, incitando abertamente e orgulhosamente o racismo, a pedofilia, a prática de feminicídio, o extermínio da comunidade LGBT e de quem eles chamavam de “comunistas”. Na última quinta-feira (10/5), a PF (Polícia Federal) prendeu o principal disseminador de ódio da plataforma, também chamada de “chan”: Marcelo Valle Silveira Mello. A Ponte revelou ações no grupo entre o fim de 2017 e início deste ano. Os participantes dos tais fóruns se identificam como ‘incels’, que significa celibatários involuntários, ou seja, pessoas que não fazem sexo e culpam quem está a sua volta por isso, principalmente mulheres. Os integrantes falam em supremacia racial, manifestam preferência por garotas brancas e novas e também se definem como ‘mascus’ e ‘sanctus’. Não raro discutem as diferenças entre os termos que eles mesmo usam para se definir, mas no final das contas, a ideia é uma só: propagar livremente o racismo, a misoginia e a homofobia.

Mello estava em sua casa em Curitiba, no Paraná, e se tornou figura central da Operação Bravata pelos crimes de incitação e ameaça feitos na internet. O agravante da ação da PF se deu pela suposta prática de terrorismo dos investigados, que culminou na prisão temporária de Marcelo. Foram membros do Dogolachan que enviaram um e-mail à USP (Universidade de São Paulo) no ano passado com uma ameaça terrorista, conforme revelou a Ponte em reportagem publicada em dezembro.

O grupo também é responsável pela criação do site Rio de Nojeira, onde propagava conteúdos racistas, misóginos e homofóbicos e tentavam culpar criminalmente um desafeto. Esta era uma prática comum do Dogolachan: a fim de disseminar seu discurso de ódio sem punição, colocava como responsáveis pelos seus sites pessoas pelas quais nutrem ódio, como a blogueira e militante feminista Lola Aronovich, professora da UFC (Universidade Federal do Ceará).

Justamente a UFC virou alvo de uma ameaça do grupo. Em conversas no Dogolachan, um dos integrantes do fórum de extrema direita fez a profecia de uma “rebelião global dos betas”, ao se referir a um possível ataque terrorista a tiros às 14h do dia 27 de abril no campus da universidade. Nada houve na data, porém, a postagem serviu como mais uma prova para a Operação Bravata.

A luta de Lola para colocar os seus algozes na prisão dura anos. No blog dela, a notícia da operação da PF teve grande destaque. “Gente querida, estou tão feliz! Incrivelmente feliz! Sorrindo de orelha a orelha! É uma sensação de alívio indescritível! Eu não havia perdido a esperança totalmente (dependia do dia, mas costumo ser uma otimista incorrigível). Mas é que foram cinco anos de total impunidade! E cinco anos de ataques sem parar é muita, muita coisa!”, escreveu a professora. Foi por causa do caso dela que a Lei no. 13.642, também conhecida como Lei Lola, foi aprovada e passou a vigorar em abril deste ano. O projeto de lei da deputada federal Luizianne Lins (PT-CE) prevê “acrescentar atribuição à Polícia Federal no que concerne à investigação de crimes praticados por meio da rede mundial de computadores que difundam conteúdo misógino, definidos como aqueles que propagam o ódio ou a aversão às mulheres”.

Os oito mandados de busca e apreensão foram expedidos para Marcelo Valle Silveira Mello e Emerson Eduardo Rodrigues Setim (Curitiba-PR); Armando de Freitas Nobrega Júnior (Cascadura-RJ); Suzana Raquel de Oliveira Barros (São Paulo-SP); Eduardo Siqueira Tenório de Vasconcelos (Recife-PE); Rafael Rissetti Ilha (Santa Maria-RS); Vitor Fernandes Valença (Jacarepaguá-RJ) e Felipe Vargas Frauches (Vila Velha-ES).

Além de buscas, a PF conduziu coercitivamente Emerson, Vitor, Eduardo, Rafael e Felipe para prestarem depoimento. Marcelo Mello teve a prisão temporária decretada “para garantia da ordem pública. “Trata-se de investigado violento que, mesmo após sua condenação e prisão no âmbito da Operação Intolerância, voltou imediatamente a cometer inúmeros crimes via internet, mediante postagens destinadas a disseminar o ódio, o racismo e a discriminação”, sustenta o juiz federal Marcos Josegrei da Silva.

Segundo a PF, os investigados vão responder pelos crimes de associação criminosa, ameaça, racismo e incitação ao crime, tendo em vista que “nos sites e fóruns mantidos na internet incentivam a prática de diversos crimes, como o estupro e o assassinato de mulheres e negros”,  aponta, em nota divulgada no site da corporação. “Há evidências de que os investigados também foram responsáveis por ameaças de bomba encaminhadas a diversas universidades do país. A soma das penas dos crimes investigados pode chegar a 39 anos de prisão”, prossegue.

Inspiração no Canadá

Os membros do Dogolachan são cópias de grupos vindos do exterior e copiam a referência até mesmo quando se referem uns aos outros: ‘incels’. Aqui no Brasil, também são conhecidos como ‘mascus’ ou ‘sanctus’.

O homem que cometeu um atentado no Canadá, em abril deste ano, que deixou dez mortos, virou referência para os seguidores brasileiros se autodenominava um ‘incel’. Alek Minassian, de 25 anos, foi identificado por colegas como estudante com necessidades especiais. Em mensagem deixada no facebook do jovem, ele fazia referência a outro jovem que se intitulava ‘incel’: Elliot Rodger, de 22 anos, que matou seis pessoas em Isla Vista, quatro anos atrás. Nas promessas de ataque à UFC havia referências aos incels – por ora, as ações no país se limitam ao campo virtual.

Mas as referências à ações terroristas é antiga entre os Dogolachan. Nos fóruns, as referências elogiosas a Wellington Menezes de Oliveira, o autor do “Massacre de Realengo”, que assassinou 12 crianças em uma escola do Rio de Janeiro, eram constantes.

Qualquer um que pense diferente ou critique as ideias disseminadas no grupo, vira alvo. O analista de sistemas Ricardo Wagner é uma das vítimas, sendo perseguido desde abril de 2017 por conta de uma discussão no jogo virtual Cartola F.C.. Após as perseguições, ele começou a analisar o fórum e entender a sua dinâmica. Segundo ele, a ação da PF não garante o fim do Dogolachan e de suas propagandas de ódio.

“Analisando o processo e o próprio despacho que autorizou o mandado de busca e apreensão mais a prisão preventiva do Marcelo, acho que não dão fim”, aponta. “A PF pegou basicamente o material da operação de 2012, recauchutou e prendeu ele. Ou seja, o Marcelo foi preso preventivamente basicamente pelos crimes que ele já tinha sido preso e cumprido parte da pena”, explica. Marcelo chegou a ser preso, mas foi liberado depois que a defesa dele atestou insanidade mental.

No fórum, Mello revelou um plano de sair do Brasil para fugir das punições pelos crimes cometidos na internet. Ele escolheu o Chile como destino, onde não é considerado crime conteúdos de manifestações no meio virtual.

Fórum às moscas

Acostumados a encherem o Dogolachan com suas mensagens contra mulheres, favoráveis ao estupro à ‘meninas branquinhas’ e contra ‘macacos’, como se referem aos negros, os perfis anônimos deixaram o fórum. As últimas mensagens eram datadas próximas ao horário da ação da PF em que Marcelo foi preso.

“Ao que tudo indica, este servidor, que fica nos EUA, foi comprometido. O HD nunca foi criptografado pois o Psy pensava que a senha forte era suficiente”, dizia uma das publicações. “A PF tem os logs de semanas de chan e o banco de dados. Tem até acesso ao servidor. O gordão [Marcelo] nunca criptografou nada”, criticava outro.

Comentários

Comentários

Colabore com a Ponte!

Enviar um comentário

Contribua com a Ponte

Clique para doar