PM destrói equipamento de som com blindado e bomba na Baixada Fluminense

A bordo do Caveirão, policiais derrubaram e explodiram caixas de som da equipe em um evento de funk e pagode na favela Engenheiro Pedreira, no sábado (9/9). É o quinto caso desde março

Caixas de som destruídas pela PM na favela Ferroviário, em Engenheiro Pedreira, Baixada Fluminense, no sábado (09/09). | Foto: Reprodução / DefeZap

Mais um caso de repressão cultural em favelas do Rio de Janeiro ocorreu na noite de sábado (09/09). Policiais militares a bordo do Caveirão (veículo blindado da corporação) invadiram um baile de funk e pagode em Engenheiro Pedreira, favela de Japeri, município na Baixada Fluminense, e destruíram os equipamentos de som da equipe responsável pela música do evento.

Segundo o proprietário da equipe Universom, que tocava na festa e prefere não ser identificado por medo de represálias, “o baile já estava rolando, a equipe já estava ligada, tudo direitinho”, quando a PM chegou, entre 23h30 e meia-noite. “Não tinha quase ninguém ainda, estava começando o baile. Do nada, o Caveirão brotou na esquina. Tentei correr pra desligar os aparelhos, desligar a força, tentar puxar os aparelhos da frente, que eu já sabia que eles iam derrubar. Quando vem com o Caveirão, é certo”, conta.

“Desceu o comandante, sem identificação e com uma touca na cabeça, sem tapar o rosto. Pediu pra geral sair de perto e lançou duas granadas, uma do lado do suporte em que estava os aparelho e outra no meio das caixas que estavam caídas no chão. Ele saiu de perto, esperou a explosão, os aparelhos de perto. Depois da explosão, ele foi de novo nas caixas, chutou as que não tinham sido destruídas na explosão, chutou os alto-falantes com o pé e rasgou os alto-falantes todos”, relata.

Com seis anos de estrada, ele já teve seus equipamentos depredados por policiais a bordo do blindado outras duas vezes antes, na favela Guacha, no município de Belford Roxo, também na Baixada. “Toda vez que o Caveirão embica num baile, ele vem pra derrubar. Não tem desenrolo, ele joga no chão e vai embora”, diz.

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Este é o quinto caso semelhante desde março deste ano registrado pelo DefeZap, serviço que recebe vídeos-denúncias de violações de direitos praticadas por agentes do Estado e encaminha os casos aos órgãos competentes. Além deste, dois dos casos de depredação de equipamentos com uso de Caveirão ocorreram na Baixada Fluminense.

Nas imagens da ação na favela Ferroviário, é possível ver o estado em que os equipamentos ficaram após a violência da PM. O homem ainda não parou pra contabilizar o prejuízo total, mas, “por cima”, calcula que tenha sido de aproximadamente R$ 14 mil a R$ 15 mil. “Se não é a ajuda dos amigos da AESOM [Associação das Equipes de Som e Profissionais de Áudio], acho que sábado minha história acabava. Mas os amigos se propuseram a me ajudar, me doando equipamentos que foram perdidos. Graças a eles, a Universom vai continuar”, diz.

Equipamentos destruídos pela PM na favela Ferroviário, em Engenheiro Pedreira, Baixada Fluminense, no sábado (09/09). | Foto: Reprodução / DefeZap

“É muita covardia. Só a pessoa que passa por isso sabe como é que é. Eles chegarem no local e dizerem um simples ‘desliga’ resolve tudo. Mas não, eles preferem empurrar a equipe com Caveirão, pra quebrar tudo, que é pra prejudicar um chefe de família. É difícil demais. O Rio de Janeiro é difícil. Você quer trabalhar certo, não pode”, lamenta. “Está uma equipe de som tocando, um montão de gente inocente, e aí aquilo que já passei várias vezes, um Deus nos acuda, um passando por cima do outro, se machucando”, completa.

Equipamentos destruídos pela PM na favela Ferroviário, em Engenheiro Pedreira, Baixada Fluminense, no sábado (09/09). | Foto: Reprodução / DefeZap

O DefeZap encaminhou, nesta quarta-feira (13), o caso ao Ministério Público, “para controle externo e para o entendimento dessa ocorrência como a repetição de um padrão do Estado, que ocorreu em outros territórios do estado”, afirma o coordenador do DefeZap, Guilherme Pimentel, referindo-se aos outros quatro casos recebidos pela plataforma. As ações anteriores ocorreram no dia 18 de março no Bairro Carioca, em Triagem, Zona Norte do Rio; no dia 24 de março, no Parque das Missões, em Duque de Caxias, Baixada Fluminense; no dia 15 de abril na Prainha, também em Duque de Caxias; e no dia 07/05 na favela do Mandela, no conjunto de Manguinhos, na Zona Norte do Rio. O caso também será levado à Defensoria Pública.

Eqyuipamentos destruídos pela PM na favela Ferroviário, em Engenheiro Pedreira, Baixada Fluminense, no sábado (09/09). | Foto: Reprodução / DefeZap

“É um relato ultragrave, até porque foram utilizadas, segundo a denúncia, duas granadas para destruição do equipamento. Quer dizer, não bastasse a utilização do Caveirão, ainda tem o relato de uso de um armamento com alto poder destrutivo, inclusive letal, para destruir os instrumentos de trabalho de pessoas que trabalham com cultura. Gravíssimo. Tem que ser apurado de verdade e a fundo pelo Ministério Público e medidas precisam ser tomadas, tanto de reparação do produtor cultural que foi vítima, quanto de prevenção desse padrão de violência que se repete, que não é um caso isolado, mas uma prática da Polícia Militar no Rio de Janeiro, em áreas periféricas, contra atividades culturais, principalmente envolvendo funk”, analisa Pimentel.

A Ponte questionou a PMERJ (Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro), por meio de sua assessoria de imprensa, sobre a destruição dos equipamentos de som por policiais no evento de sábado. Entretanto, a instituição não se manifestou até a publicação desta reportagem.

Em entrevista, o comandante da Coordenadoria de Assuntos Estratégicos da PMERJ, coronel Anderson Maciel, afirmou que, se o evento for feito com autorização, “dentro da legalidade” e estiver “tudo bem estruturado”, a polícia não agirá dessa forma. “Depois de tudo feito, eu duvido que alguém vai chegar ali derrubando tudo. A partir do momento em que o evento é feito de maneira aleatória, e as pessoas vão peitar e fazer, geralmente isso vai levar a que os outros também ajam com energia, o que não é saudável pra ninguém”, disse.

“A maioria desses eventos não tem autorização. E geralmente não é assim que o policial age, derrubando com Caveirão. Pode ser que, numa exceção, alguém tenha feito isso. E essas pessoas vão ter o tratamento devido. Nós não coadunamos com isso. É pra cumprir regra, legalidade”, afirma. Para ele, entretanto, “é inquestionável” que a polícia não pode depredar os equipamentos de som.

 

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