Após agredir moradora de rua, PM acusou manifestantes e mentiu sobre testemunhas

Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Um dia depois de interrogar testemunha que presenciou agressão, PM afirmou que “não foram encontradas testemunhas que tivessem presenciado os fatos”

Os serviços de comunicação da Polícia Militar e da SSP (Secretaria da Segurança Pública) do governo Geraldo Alckmin (PSDB) mentiram pelo menos duas vezes a respeito da agressão de um PM a uma moradora de rua, na noite de terça-feira (18/7), durante uma manifestação do MPL (Movimento Passe Livre) na Avenida Nove de Julho, na Bela Vista, região central da cidade de São Paulo.

A mulher, identificada como Maria, levou um golpe de cassetete na cabeça ao tentar impedir que os policiais militares agredissem estudantes que protestavam contra mudanças no passe livre estudantil realizadas pelo prefeito João Dória (PSDB). Na mesma noite, a assessoria de imprensa da PM divulgou que “a mulher foi agredida na cabeça pelos próprios manifestantes”. Após a divulgação de um vídeo com imagens da agressão feitas pela Ponte e pelo CMI, o governo deixou de lado essa versão, mas até o momento não informou se abriria investigação a respeito da acusação falsa lançada contra os manifestantes.

No dia seguinte à agressão, a SSP afirmou que “não foram encontradas testemunhas que tivessem presenciado os fatos ou pudessem dar mais detalhes” do espancamento de Maria. Mas a Ponte apurou que, duas horas após o crime, policiais militares tomaram o depoimento de uma manifestante, a estudante Dayane Moreira, 18 anos, que testemunhou o espancamento.

Maria foi agredida para proteger estudante da polícia | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Dayane conta que, na noite de terça, Maria estava na Avenida Nove de Julho, próximo ao Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua, quando viu os estudantes passarem, com bandeiras e gritos de ordem, e decidiu se juntar à passeata. Logo, Maria estava segurando uma faixa e marchando ao lado dos demais ativistas. No momento em que os PMs começaram a fazer as primeiras agressões, batendo com seus escudos nos estudantes, ela decidiu ajudar.

“Maria entrou na frente para defender uma estudante. Um policial agrediu a estudante com um chute e outro veio com um cassetete e acertou Maria. Ela tomou uma pancada na lateral da cabeça e caiu”, lembra Dayane. A Ponte viu quando estudantes pediram aos policiais para chamarem uma ambulância e um dos PMs respondeu que os participantes do ato é que deveriam fazer isso.

Naquele momento, segundo Dayane, os estudantes fizeram pelo menos três ligações para o Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu), que não geraram número de protocolo. Caída no chão, consciente, mas incapaz de se levantar, Maria sofria convulsões. Preocupados, os estudantes voltaram a pedir ajuda para a PM. Dessa vez, um dos oficiais aceitou ligar para o serviço, e foi só depois disso que o serviço foi acionado. “Ficamos 40 minutos esperando pela ambulância, com Maria caída no chão”, diz.

Procurada, a assessoria de imprensa da SMS (Secretaria Municipal de Saúde) deu outra versão: “o Samu foi acionado às 21h03 e a ambulância chegou às 21h18, iniciando os primeiros procedimentos no local”.

“Foi a lei que me bateu”

A estudante acompanhou a moradora de rua, dentro da ambulância, até a Santa Casa de Misericórdia. Depois que Maria entrou no pronto-socorro, Dayane ficou do lado de fora, ao lado de dois policiais militares, que começaram a tomar seu depoimento. Enquanto falava com os PMs, depois de meia hora viu Maria sair do hospital. Sozinha, ferida e desnorteada.

Maria, agredida pela polícia | Foto: Daniel Arroyo/Ponte Jornalismo

Dayane correu até ela para tentar ajudá-la. Viu que o ferimento estava como antes: aberto, com o sangue escorrendo. Os policiais também se aproximaram. Ao ver os dois homens fardados, Maria entrou em pânico. “Foram vocês que me bateram”, ela gritou, conforme o relato da estudante.

“Não fomos nós, não estávamos na hora”, responderam os PMs.

“Foram vocês, sim, foram seus colegas. Foi a lei”, disse. E passou a repetir em diversos momentos: “Foi a lei que me bateu!”.

Dayane tentou convencer Maria a voltar para o pronto-socorro, mas ela se recusava, dizendo que os PMs a matariam lá dentro. “Ela sabia que tinha sido agredida por ser negra, mulher e moradora de rua”, diz.

Depois que Maria deixou a Santa Casa e saiu para a Rua Dr. Cesário Motta Júnior, os policiais chamaram reforços, dizendo: “uma mulher muito violenta está fugindo do hospital”. Mais três viaturas foram até o local. Maria ficou ainda mais nervosa e continuou andando, enquanto Dayane tentava convencê-la a voltar para o pronto-socorro. Um dos policiais avançou sobre ela e a puxou pelo braço, tentando impedir que fosse embora sem dar um depoimento.

Para a estudante, os PMs fizeram tudo errado. “Maria não estava violenta, como disseram. Era só uma mulher assustada e com muita dor. Ela havia sido agredida por policiais e agora estava cercada, na rua, por dez policiais, todos homens”, conta.

Por volta das 23h30, os policiais aceitaram liberar Maria com a condição de que Dayane daria um depoimento sobre a agressão. Foi o que ela fez, próximo à esquina das ruas Cesário Motta Júnior e General Jardim. “Os policiais pegaram meus documentos, me qualificaram como testemunha e anotaram meu depoimento em um boletim”, afirma. Uma testemunha ouvida pela Ponte confirmou ter visto Dayane dar o depoimento.

“Depois foi bizarro. A polícia não entrou mais em contato e agora está dizendo que não tem testemunhas”, resume a estudante.

Uma assistente social disse à reportagem que uma colega encontrou Maria na rua, na quinta (20/7). Ela não quis falar sobre o espancamento, mas “parecia bem”.

Outro lado

A Ponte entrou em contato com a CDN Comunicação, responsável pela assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública. A empresa recusou-se a comentar se a origem da acusação falsa lançada pela PM contra os manifestantes estava sendo investigada e se alguém seria responsabilizado. Também não comentou o depoimento dado pela estudante na noite de terça, que desmente a afirmação de que a PM não havia investigado o crime por falta de testemunhas.

A respeito de todos os questionamentos, a SSP emitiu a seguinte nota:

A Polícia Militar informa que o vídeo está sendo analisado pelo Comando de Policiamento da Capital e, assim que identificados os policiais envolvidos, serão adotadas as providências cabíveis.

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