Família diz que pichadores foram executados por PMs

03/08/14 por Fausto Salvadori

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Um dos pichadores mais conhecidos de São Paulo e seu colega são mortos pela PM em um prédio na Mooca. Polícia afirma que mortos eram ladrões, não pichadores

Foto: arquivo pessoal

Alex Dalla Vecchia Costa amava a aventura, amava as mulheres, amava viver. Aos 32 anos, tinha quatro filhos, com três mulheres diferentes, e iria fazer o teste de DNA de uma quinta criança. Sustentava todos, com o emprego de marmorista. À noite, saía para pichar edifícios. Deixou a marca de seu grupo, Jets, ao lado de sua assinatura pessoal, Ald, grafada com spray no topo de vários prédios. Tornou-se uma lenda entre os pichadores de São Paulo.

Para a noite de 31 de julho, Alex já havia comentado com parceiros do “pixo” qual seria seu alvo: um prédio de 19 andares na avenida Paes de Barros, na Mooca, região central. No “rolê”, iriam ele e um amigo, o Ailton dos Santos, 33 anos, o Anormal. No dia seguinte, parentes e amigos de Alex e Ailton ficaram sabendo que a dupla havia sido morta pela PM após invadir o edifício. Segundo a versão da polícia, os dois eram ladrões que invadiram o prédio para roubar e morreram numa troca de tiros. A PM apresentou duas armas e disse que foram apreendidas com a dupla.

É uma madrugada fria. Alguns amigos vestindo camisetas revezam entre eles uma única blusa de frio, para que pelo menos um de cada vez possa sentir um pouco de calor. “Nenhum dos que a polícia matou era ladrão. Olha aqui, ó. Todo mundo aqui é sofredor, trabalhador”, diz o motorista Alexandre de Oliveira, 38 anos. No mundo dos que rabiscam muros, em que atua desde 1989, é chamado de Lin, o Animal. Foi um dos criadores da grife de pichadores RGS, da qual os Jets fazem parte.

“Não acreditei quando falaram que ele estava roubando. Não condiz com o que a gente conhecia dele. O moleque era muito trabalhador”, conta José Reis Gomes Barroso, 44 anos, que trabalhava com Anormal na montagem de feiras para estandes. No dia 1º de julho, José esperava por Anormal para fazer a desmontagem dos 4 mil metros quadrados da exposição China HomeLife Brazil 2014, no Transamerica Expo Center, em Santo Amaro, na zona sul. “Estranhei quando ele não apareceu, porque ele nunca faltava”, lembra. “Eu sabia que ele fazia essas coisas de pichação, porque ele falava, mais isso nunca impediu que fizesse o trabalho dele. Era uma pessoa que tinha família e saía todo dia para defender o seu pão. O cara trabalha o dia todo e depois vai sair para roubar? Não tem cabimento.”

Morador de Cidade Tiradentes, na zona leste de São Paulo, Ailton era casado com a auxiliar de serviços gerais Eliete Prestes dos Santos, 28 anos, com quem tinha uma filha de cinco anos. Durante o velório, ela contou de onde tirava força para suportar as longas horas ao lado do corpo do marido. “A força que eu estou agora é a força de que eu quero justiça. Só justiça. Justiça. Ele era pichador, não era ladrão.”

É bem o contrário do que afirma a versão da polícia. Segundo a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública, o boletim de ocorrência registrado no 56º DP (Vila Alpina) afirma que Alex e Ailton invadiram o condomínio Windsor, na Paes de Barros, por volta das 18h. Eles entraram sem chamar a atenção do porteiro, se passando por visitantes. Em seguida, foram até o último andar, onde fica o apartamento do zelador. O funcionário abordou a dupla, que disse estar ali para fazer um reparo no elevador. Fingindo acreditar na versão dos invasores, o zelador desceu até a portaria, onde discou 190. A PM subiu até o último andar e matou a dupla no apartamento do zelador: Alex foi baleado na cozinha e Ailton no quarto.

A versão da PM sustenta que os dois estavam armados, Alex com um revólver 38, e Ailton com uma pistola 380, e que os dois teriam atirado contra os policiais. Segundo esta versão, um dos PMs foi ferido no braço durante o tiroteio . O B.O. não esclarece se alguma testemunha, além dos policiais, viu as armas com a dupla. Também não explica por que dois ladrões supostamente armados não teriam rendido o porteiro do prédio e ainda deixaram o zelador sair para chamar a polícia. Perguntada sobre essas questões, a assessoria de imprensa da Secretaria da Segurança Pública respondeu que “essas questões estão sendo investigadas e por isso não podem ser comentadas”. A investigação é feita tanto pelo Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa como pela Corregedoria da PM.

Com seus 19 andares, o edifício Windsor se destaca em meio à paisagem da Avenida Paes de Barros, dominada pelos sobradinhos. É bem o tipo de edifício que pichadores como Alex e Ailton buscavam. Quanto mais alto, melhor: era o seu lema. O ajudante geral Renato Augusto, 27 anos, o Arrastão, afirma que Alex comentou que pretendia pichar alguns prédios na Paes de Barros, para compensar outras pichações suas, na mesma avenida, que os donos haviam apagado. Na tarde de 31 de maio, Arrastão recebeu mensagens de Alex em seu celular sobre seus planos. “Vai fazer o quê hoje? Vamos pichar?”, afirma uma mensagem em áudio, enviada às 17h.

A estratégia de Alex nesses “rolês” era a mesma: passar pelo porteiro com malandragem, apenas fazendo cara de quem sabe o que está fazendo, e em seguida subir até o último andar para o “pixo”. O metalúrgico Maicow Pontes, 24 anos, que fez o primeiro pixo com sete anos, assim que aprendeu a escrever, conta que, há duas semanas, havia invadido prédios ao lado de Alex usando o mesmo estratagema. “Geralmente a gente entra sem falar nada. Só põe a mão no portão e eles já abrem, como se fosse morador. A gente dá boa noite e entra, sem querer atrasar a vida de ninguém. Jamais a gente ia querer roubar alguma coisa”, afirma.

O “pixo”, tão associado a sujeira e contravenção, tem para essas pessoas uma importância solene que é difícil para alguém de fora entender. “A gente leva a pichação como se fosse nossa vida”, solta Lin, o Animal, durante o velório. Não parece exagero. Perto dele, sentado numa cadeira de rodas, está Maycon Bruno de Lima, 22 anos, que continuou a fazer pichações mesmo após perder as duas pernas. “Perdi as pernas no trem, e o pixo me salvou da depressão”, conta. Sobre Alex, diz: “Conhecia o Ald desde criança, quando ainda tinha as pernas. Já fiz vários prédios com ele. Ele não é ladrão. A polícia está mentindo”.

Dali a pouco, no velório, os velhos pichadores começam a encher páginas com “folhinhas”, espécie de autógrafos em que reproduzem no papel os mesmos símbolos que costumam espalhar nas ruas. Mas não basta. Logo um grupo armado de spray vai até os tapumes de um prédio em construção, na frente do cemitério, e começa a enchê-los de homenagens aos falecidos, usando as mesmas assinaturas que Alex e Ailton usavam nas ruas.

Logo uma viatura do 10º Batalhão da PM vai até o local, freando até quase atropelar um jovem. “Filho da puta”, grita um dos policiais. Os PMs saem correndo do carro atrás de um dos pichadores, mas ele pula o muro do cemitério e some. Minutos depois, a polícia vai embora. A homenagem ilegal aos amigos mortos continua estampada nos tapumes.

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