PM integrante do Policiais Antifascismo é executado no RN

22/12/18 por Arthur Stabile

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João Maria Figueiredo, que fazia segurança da governadora eleita, Fátima Bezerra, voltava para casa quando foi baleado cinco vezes na cabeça; colegas citam ‘inimigos dentro e fora da corporação’

Cabo atuava constantemente em debates sobre melhorias para a segurança pública | Foto: Reprodução/Facebook

O cabo da Polícia Militar do Rio Grande do Norte João Maria Figueiredo, de 39 anos, morreu executado na tarde de sexta-feira (22/12), no município de São Gonçalo do Amarante, no entorno da capital Natal. Figueiredo idealizou o grupo Policiais Antifascismos no estado e amigos acreditam que a morte esteja relacionada com sua atuação política, ao denunciar as condições de trabalho dentro da corporação, além de grupos de extermínio formados por policiais do RN.

João Maria voltava do serviço quando abordado por dois homens. Segundo relatos, eles já chegaram atirando em direção ao PM, que estava em sua moto e caiu ao ser atingido no ombro. Com ele no chão, os assassinos se aproximaram e o executaram, segundo relatos, com cinco tiros na cabeça. Apenas a arma e o celular do policial forma levados.

A investigação do crime está por conta do DHPP (Departamento Estadual de Homicídios e de Proteção à Pessoa) local e, pelas características do assassinato, os primeiros indícios apontam que se trata de uma execução, conforme apurado pela reportagem. Outro fato que aponta para esta versão é de que este caminho era feito repetidamente por Figueiredo em sua rotina da casa ao serviço, um indício que o crime tenha sido premeditado. Amigos do cabo Figueiredo revelam que o trabalho feito por ele gerou várias inimizades.

“Pela atuação política, ele tinha muitos inimigos. Atuava com direitos humanos, nos policiais antifascismo, denunciava grupos de extermínio e colegas da corporação envolvidos em corrupção… Era uma pessoa non grata por uma banda podre e resistente dentro da Polícia Militar do Rio Grande do Norte”, explica Fernando Alves, integrante do Policiais Antifascismo.

Alves explica que o crime organizado também via o policial como um inimigo. Ambos atuavam juntos há 20 anos na PM potiguar e Alves deu aula para Figueiredo quando o cabo cursou o curso de direito. A morte do amigo o choca e revela a falta de suporte por parte do Estado em proteger integrantes da segurança pública.

“Sempre terrível ver um meu colega nessa situação. A gente sabe que, por conta da profissão, estamos sempre sujeitos a isso, corremos riscos. E confiávamos em certa credibilidade do Estado em oferecer condições mínimas de segurança para os seus operadores”, diz. “É lamentável, preocupante, terrível e alarmante trabalhar na segurança pública e saber que pode ter o mesmo fim que o colega a qualquer momento”, completa.

O policial João Maria Figueiredo era atuante em debates sobre segurança. Uma de suas teses é que uma das formas para encaminhar uma mudança prática na segurança no país como um todo é parte da sociedade ajudar na construção de uma nova polícia. “A mudança vem, de fato, de fora para dentro. É necessária a criação de espaços que debatam. No RN, tentando reunir os policiais que tinham pensamento progressista, começamos com cinco e virou 80”, disse Figueiredo, durante participação no Fórum Social Mundial de 2018, realizado na Bahia.

Para ele, a função da corporação não é apenas de combater o crime e, mesmo entre os irmãos de farda, é preciso combater a violações de direitos humanos. “Somos um grupo que discute segurança com cidadania, participação popular e direitos humanos. A necessidade hoje é que a sociedade tome conta da polícia para que ela seja transformada através daquilo que o povo é”, afirmou.

O movimento nacional dos Policiais Antifascismo publicou nota repudiando a morte do cabo Figueiredo. Através do Facebook, o grupo apontou ser um golpe “de forma muito baixa e dura”. “Machucaram nossa alma, mas esqueceram de considerar que somos eternos lutadores dos direitos, da democracia, da liberdade e de um mundo melhor! A vida que se foi sempre esteve marcada por essas lutas e defesas e seria, então, um contrassenso aceitarmos o golpe e recuarmos”, disse, em parte do texto, antes de detalhar os nortes do grupo.

“Vamos continuar intransigentes na luta pela desmilitarização da segurança pública, pelo fim da guerra às drogas, contra a política de encarceramento em massa e na defesa intransigente dos direitos humanos. Mas, sem nunca deixarmos de defender a transformação e mudança radical da segurança pública, do sistema criminal, do modelo de polícia (lutando pela carreira única, o ciclo completo e o controle externo das policias e etc.), e a valorização salarial e humana dos policiais. Afinal de contas, somos e continuamos policiais! Policiais Antifascismo!”, complementa o texto.

Neste ano, Figueiredo atuou na segurança da então candidata ao governo do RN, Fátima Bezerra (PT), posteriormente eleita para o cargo. Colegas apontam que esta atuação também pode estar entre as motivações para o assassinato. Em publicação na sua página oficial do Facebook, Fátima lamentou a morte do policial.

“O assassinato brutal do querido Figueiredo nos deixa consternados, com profundo sentimento de perda, abalados em alma. Ao mesmo tempo, os exemplos de coragem e de solidariedade que nosso amigo nos deixou nos inspirarão para continuarmos a luta por dias melhores, por uma sociedade mais justa e para todos e todas”, escreveu, antes de chamá-lo de “filho, um irmão”, e cobrar “a devida apuração e elucidação” do crime.

A Ponte questionou a Sesed (Secretaria da Segurança Pública e da Defesa Social) do Rio Grande do Norte sobre o crime e obteve como resposta que a investigação está com um grupo de delegados da Polícia Civil voltados apenas para homicídios de agentes de segurança. Serão quatro profissionais atuantes nos trabalhos.

“Logo após o homicídio que vitimou o policial militar, os policiais civis da DHPP dirigiram-se até local do crime e realizaram as primeiras providências investigativas para elucidar o caso, que também contará com o trabalho do Núcleo de Inteligência da Polícia Civil”, explica a Sesed.

A pasta decidiu criar uma comissão com os três delegados em maio deste ano “com o intuito de investigar os homicídios, tentados e consumados, que foram praticados contra os agentes de segurança pública na região de Natal e da Grande Natal, cometidos desde janeiro de 2017”, justifica a secretaria. O grupo atua em casos ocorridos nas cidades de Natal, Ceará Mirim, Extremoz, Macaíba,Parnamirim, São Gonçalo do Amarante e São José de Mipibu, todas na região metropolitana.

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