PM mata jogador de futebol com três tiros em Goiás

07/07/19 por Jeniffer Mendonça

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Policial alegou “excludente de ilicitude” e confessou ter disparado contra Leandro Augusto Soares quando ele estava de costas, por ter visto jovem com arma de brinquedo; atleta treinava em time do Distrito Federal e chegou a atuar nas categorias de base do Corinthians, em São Paulo.

Leandro treinava no Capital Clube de Futebol, de Guará, no DF. | Foto: Reprodução Facebook Capital Clube de Futebol

O jogador de futebol Leandro Augusto Santos Soares, de 18 anos, foi morto com três tiros por um policial militar na última sexta-feira (5/7), na cidade de Valparaíso de Goiás, no entorno do Distrito Federal, em Goiás.

De acordo com boletim de ocorrência obtido pelo G1, o policial militar José Flaubert Machado Araújo Júnior disse que estava em serviço fora do expediente quando abordou um casal numa praça e teria gritado “polícia”. Ele afirma que teria visto minutos antes Leandro recebendo uma arma de uma terceira pessoa e que, no momento da abordagem, o jogador teria levantado a blusa e colocado a mão na cintura. Nesse momento, o policial apertou o gatilho.

Ainda segundo o portal, o PM confessou que atirou no jogador quando ele estava de costas ao lado da namorada. Assim que Leandro caiu no chão, o policial afirma que verificou que se tratava de uma arma de brinquedo.

Leandro chegou a ser levado ao Hospital Regional de Santa Maria, mas não resistiu aos ferimentos. À Ponte, a assessoria de imprensa da secretaria de Saúde do Distrito Federal declarou que o jovem chegou ao local “com três perfurações de arma de fogo, sinais de choque hipovolêmico, sendo hidratado e entubado para suporte ventilatório. Chegou a receber uma bolsa de sangue” e que faleceu em decorrência de uma parada cardio-respiratória por volta das 12h40 do mesmo dia.

Ao G1, o pai do jogador, o empresário Leandro Soares Andrade, confirmou que o filho recebeu uma arma de brinquedo de um amigo na praça, mas desmente que o atleta tenha ameaçado o policial. “Ele colocou o simulacro na cintura e atravessou a rua junto com a namorada. Assim que subiu na calçada, o policial deu o primeiro disparo nas costas dele”.

Ele relatou, ainda, que a namorada de Leandro, de 17 anos, tentou impedir que o PM continuasse atirando. “Ela começou a gritar desesperada, dizendo que era arma de brinquedo e pediu para parar. Meu filho jogou a arma para traz, ela caiu no chão. Aí o policial deu um terceiro tiro na cabeça do meu filho”, declarou.

A Ponte procurou a assessoria de imprensa da Polícia Civil de Goiás que informou, por meio de nota, que “o Grupo de Investigação de Homicídios (GIH) de Valparaíso instaurou inquérito para investigar as circunstâncias da morte” e que o policial não foi preso em flagrante porque se apresentou “espontaneamente” na delegacia, onde foi ouvido, “e explicou ter agido em situação de excludente de ilicitude”, mas não especificou nem detalhou se foi por legítima defesa, estado de necessidade ou em estrito cumprimento de dever legal ou no exercício regular de direito. Essas são as três disposições no Código Penal, no artigo 23, para que a ação provocada não seja considerada um crime.

Apesar de já prevista em lei, a alegação de excludente de ilicitude chama a atenção por ser um dos pontos de destaque do pacote anticrime do ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, apresentado no início do ano. Dentre as alterações, a proposta, que está em tramitação no Senado, prevê mudanças no que tange à legítima defesa, que torna legítimas mortes praticadas por PMs em serviço movidos por “escusável medo, surpresa ou violenta emoção” – o que é considerado uma “licença para matar” por especialistas.

A assessoria da Polícia Civil ainda disse que só vai se manifestar após a conclusão da investigação. Também não quis confirmar o nome do policial.

A reportagem também procurou a assessoria de imprensa da Polícia Militar, questionando se a abordagem do PM foi correta. O Tenente Coronel Geraldo Pascoal, de antemão, respondeu que Leandro tinha passagens por roubo, receptação e lesão corporal e que chegou a ser preso em janeiro por roubo usando uma arma de brinquedo. O porta-voz da corporação não respondeu sobre a abordagem e disse que a Corregedoria da PM vai abrir procedimento para apurar o caso e que o policial “permanecerá em atividades administrativas até a conclusão dos trabalhos”.

Sonho da família

Leandro atualmente treinava na base do Capital Clube Futebol , time criado em 2005 em Guará, no Distrito Federal. Em um story (publicação que fica disponível por apenas 24h) do Instagram, o time chegou a postar uma mensagem de luto, desejando “força aos familiares e amigos nesse momento difícil”. Entre 2016 e 2017, o jovem chegou a ficar alojado nas categorias de base do Corinthians, mas, por conta de uma lesão de ligamento cruzado no joelho, ficou afastado por aproximadamente nove meses e acabou vestindo por pouco tempo a camisa alvinegro, segundo a assessoria do clube por telefone.

“Acharam que mataram bandido, mas erraram. Meu filho era uma pessoa do bem, já teve os erros dele, mas era jogador de futebol, tinha uma carreira promissora. Acabaram com os sonhos do meu filho e da nossa família”, lamentou o pai de Leandro ao G1.

A Ponte não conseguiu localizar os familiares do jogador.

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