PM usa gás para dispersar ato do MPL e atinge crianças

09/01/20 por Arthur Stabile e Kaique Dalapola

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Policiais revistaram e agrediram jornalistas identificados que cobriam manifestação em SP

A Polícia Militar do Estado de São Paulo, comandada pelo governador João Doria (PSDB), reprimiu com bombas de gás lacrimogênio e balas de borracha o segundo ato contra o aumento da tarifa do transporte público, organizado pelo MPL (Movimento Passe Livre), na tarde dessa quinta-feira (9/1), no centro da cidade de São Paulo. Pessoas dentro da estação foram atingidas pelo gás, inclusive crianças, uma delas que se perdeu da mãe durante a confusão. A PM ainda agrediu e revistou jornalistas durante o ato.

O ato já havia terminado quando um grupo de manifestantes forçou a entrada para estação, bloqueada por PMs. Foi quando o Baep (Batalhão de Ações Especiais de Polícia) agiu, primeiro com uso de bala de borracha e, logo na sequência, bombas de gás. As pessoas de dispersaram e o efeito atingiu as pessoas dentro da estação. A Ponte flagrou quando uma criança era atendida no banheiro feminino, reclamando do efeito do gás e também de ter perdido a sua mãe. Funcionários do Metrô a auxiliaram.

Dois manifestantes foram detidos e, segundo os policiais, encaminhados pada o 2ºDP (Bom Retiro), para responderem por lesão corporal “no mínimo”, segundo um PM, que também citou resistência. No entanto, a Ponte esteve na delegacia e nenhuma pessoa presa no ato do MPL estava no local. Segundo os funcionários presentes, não houve representação contra eles no local.

Abordagem da PM ao repórter Arthur Stabile (à esq.) e o fotógrafo Lucas Martins | Foto: Rogério de Santis

A violência física da PM contra jornalistas aconteceu no momento das bombas. O fotógrafo Daniel Teixeira, do jornal O Estado de São Paulo, estava identificado como jornalista e carregava sua câmera nas mãos quando levou um golpe de cassetete nas costelas. Um fotógrafo freelancer foi atingido por uma bomba de gás lançada pelo Baep. O artefato bateu em suas costas e explodiu no chão, sem atingi-lo com estilhaços.

Antes da marcha ter início na Praça da Sé, também no centro da capital paulista, dois integrantes de grupos antifascistas foram abordados pela PM e impedidos de levar para o ato uma bandeira com o símbolo antifascista. “Se pegar a bandeira vai para o DP”, ameaçou o policial. Quatro repórteres e fotógrafos que registraram as revistas também foram enquadrados pelos PMs. A tropa não apresentou um motivo para que a revista fosse feita.

O cabo Adriano abordou o repórter Arthur Stabile, da Ponte, e o questionou: “Você usa alguma droga?”, “Tem ilícitos na mochila?”, “Possui algum problema com a Justiça?”. Depois, cobrou seu RG para consulta no sistema online da PM. Ainda realizou revista corporal, dos itens nos bolsos da calça e verificou o que o repórter levava em sua mochila. Todos os jornalistas foram liberados após a revista e a consulta no Copom (Centro de Operações Policiais Militares).

Homem e mulher foram detidos pela PM após o ato | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

O primeiro ato contra o aumento da tarifa, que aconteceu na terça-feira (7/1), na Avenida Paulista, centro de São Paulo, também registrou abuso contra a imprensa. O fotógrafo Rodrigo Zaim foi detido com um grupo de 32 pessoas, segundo os policiais que acompanhavam o ato, “para averiguação”.

O grupo lotou um ônibus. Elest estavam na Paulista após bloqueio feito pela PM e seguranças do Metrô na estação Trianon/Masp da linha 2-Verde. Advogados classificaram a abordagem e detenção por parte da polícia como “aleatória e sem provas”. A Polícia Civil enquadrou três manifestantes por desacato e dano ao patrimônio.

A segunda marcha contou com cerca de 500 pessoas. Uma forte chuva atrasou o início da caminhada, que passou pela Secretaria Estadual de Transportes, Prefeitura de São Paulo, Largo do Paissandu até chegar na Praça da República. Os manifestantes entoavam coros como “mais um aumento eu não aguento”, “tarifa zero quando? Tarifa zero já” e “deixa passar a reforma popular”.

Manifestantes queimam catraca em frente a Secretaria Estadual de Transportes | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

Após repressão da PM na República, um grupo rumou para a estação Anhangabaú, a menos de um quilômetro dali. O local estava fechado e somente após 30 minutos de tensão foi parcialmente aberto para a entrada de cinco pessoas por vez. O receio do Metrô era de que manifestantes fizessem um catracaço, que é o ato de pular as catracas e não pagar o valor da passagem para usar o transporte público.

Em nota, o MPL criticou a ação da PM por ter respondido com bombas ao pedido de catraca livre, como afirmam. “Qual foi a reposta da polícia de João Doria e Bruno Covas [prefeito de São Paulo]? Bombas, gás e agressões na população trabalhadora – inclusive crianças e idosos – que tentavam voltar pra casa e estavam dentro e fora da estação!!! Toda essa violência contra os/as de baixo só pra defender as catracas dos de cima.

PMs impediram jovens de levar bandeira antifascista (vermelha, no chão) para o ato | Foto: Arthur Stabile/Ponte Jornalismo

A Ponte questionou a SSP (Secretaria da Segurança Pública) de São Paulo, liderada pelo general João Camilo Pires de Campos neste governo de João Doria (PSDB), sobre a prisão dos dois manifestantes e para onde os dois foram levados. Às 6h39 da sexta-feira (10/1), a assessoria de imprensa terceirizada da pasta, a InPress, explicou que as duas pessoas foram levadas ao 78º DP (Jardins) e assinaram termo circunstanciado por desacato.

Sobre o uso de armamento menos-letal, a versão é de que os manifestantes tentaram “invadir a estação para pular as catracas” na República. “Neste momento, foi necessário o uso de técnicas de controle de multidões, a fim de garantir a segurança dos participantes do ato e demais cidadãos que estavam no local”, assegura a SSP.

Por outro lado, a reportagem pediu ao Metrô explicações sobre o auxílio dado à menina que se perdeu da mãe na estação República e se elas se reencontraram. A Ponte aguarda resposta.

Atualização às 13h42 da sexta-feira (10/1) para incluir posicionamento da SSP.

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