PMs agridem famílias e quebram celular de quem filmou, dizem vítimas: ‘grava agora, sua puta’

Famílias negras de São Francisco do Conde dizem que PMs do Peto (Pelotão de Emprego Tático Operacional) interromperam festa de aniversário e atiraram para o alto, ameaçando a população

Na tarde deste domingo (10/10), famílias negras da comunidade dos Macacos, na cidade de São Francisco do Conde (BA), foram surpreendidos com uma ação violenta de policiais do Pelotão de Emprego Tático Operacional (Peto) da 10ª Companhia Independente da Polícia Militar de Candeias (CIPM/Candeias). Um casal, Walmiro Rafael da Cruz e sua esposa, foi detido e levado à delegacia por desacato, segundo relatos de testemunhas.

Moradores relatam que um grupo de aproximadamente 30 pessoas participava de uma festa de aniversário na Praça José Cardoso, quando, por volta das 17h30, uma viatura sem placa, com três policiais sem identificação, chegou ao local. Os PMs, então, iniciaram uma série de agressões verbais contra uma jovem, que pediu para não ser identificada.

“Disseram que a minha prima não sabia nada de lei. Ela se alterou um pouco para conversar com os policiais e eles deram tapas no pescoço nela, o esposo foi em sua defesa e foi agredido. O meu tio também foi agredido, eles bateram em várias pessoas”, conta a estudante de relações internacionais Milian Souza, 30 anos, da Unilab (Universidade da Integração Internacional da Lusofonia Afro-Brasileira), que viu parte da ação. Segundo ela, um dos soldados afirmava que “era doido” e “iria matar todo mundo”. Um dos PMs atirou para o alto durante a discussão.

Segundo o relato da estudante, os policiais, sem qualquer motivo, afirmaram que Walmiro Rafael da Cruz, marido da jovem agredida, iria “para o inferno” e que, se as pessoas ao redor “vacilassem”, todas iriam “junto com ele”.

Uma outra estudante da Unilab, que preferiu não se identificar por medo de represálias levou um golpe no rosto e teve seu aparelho celular quebrado por filmar as violências dos PMs. “Não tive nem tempo de desligar o celular, eu recebi um tapa ou soco no pé do ouvido, o celular caiu e ele disse: ‘Grava agora, sua puta, respeita a polícia.'”, relata.

Segundo os moradores, Walmiro e a prima de Milian foram detidos por desacato e levados pela PM até a 20ª Delegacia Policial de Candeias, onde permaneceram até o início da madrugada desta segunda-feira (11) e depois foram liberados. A estudante não identificada contou à Ponte que também tentou registrar um Boletim de Ocorrência, na mesma delegacia, contra os PMs, mas os funcionários da Polícia Civil se recusaram a atendê-la, alegando falta de pessoal.

O Peto é uma força especial da PM baiana, que em tese deveria ser usada em casos graves de violência. Segundo texto escrito por estudantes da Unilab que denunciaram a violência, a ação policial deste domingo é parte do projeto de “violência e assassinato sistemático de pessoas negras perpetrado pelo Estado brasileiro e particularmente pelo estado da Bahia”.

De acordo com o relato do coletivo de estudantes enviado à Ponte, a Peto se apresenta como uma “arma de guerra contra comunidades negras no estado e com legitimidade das autoridades, inclusive ‘honorifica’ os agentes policial com bonificação com o número de prisões e assassinatos das pessoas consideradas ‘matavéis’ pela mentalidade de guerra racial contra pessoas famílias e comunidades negras no estado”.

O que diz a polícia

Procuramos o governo Rui Costa (PT), a Secretaria da Segurança Pública do estado e a 20ª Delegacia Candeias.

A assessoria da Polícia Civil* disse que “o homem foi conduzido a 20ª DT/Candeias, onde foi lavrado um TCO [termo circunstanciado de ocorrência, registro para infrações de menor potencial ofensivo] e ele foi liberado” e negou que o atendimento tenha sido negado. “Vale ressaltar também que, denúncias referentes a conduta de policiais militares devem ser realizadas na Corregedoria Polícia Militar”.

Já a Polícia Militar disse que o caso está sendo apurado pelo comando da 10ª CIPM.

*Reportagem atualizada às 13h40, de 11/10/2021, após recebimento de resposta da Polícia Civil e da Polícia Militar.

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